Problema XI: Pêndulo Radial-Azimutal
1. Resumo.
A resolução do problema tem como meta a confecção de um pêndulo cuja haste é
elástica, e posterior investigação do fenômeno de conversão de oscilações radiais
em oscilações azimutais, e vice-versa.
2. Introdução teórica.
2.1 O movimento da massa oscilante.
Vamos basear a teoria do problema analisando o pêndulo em relação a três
ângulos: 𝛾, 𝛼, 𝜃.
As definições destes ângulos podem ser vistas na seguinte figura.
θ
y l
γ
Figura 1: definição dos ângulos utilizados na teoria. À esquerda, numa visão de
cima e, à direita, numa visão lateral.
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Como podemos ver, 𝛾 é o ângulo de distorção da barra, 𝜃 o ângulo que o fio faz
com a vertical, e α ângulo que a projeção do fio do pêndulo faz com o eixo Y.
Também definimos 3 outros parâmetros. “L”, o comprimento da barra. “l”, o
comprimento do fio, e ℒ, a lagrangiana do sistema. Podemos escrever a posição da
massa oscilante em função dos parâmetros acima da forma:
(𝑥, 𝑦, 𝑧) = (𝐿𝑐𝑜𝑠𝛾 + 𝑙𝑠𝑖𝑛𝜃𝑐𝑜𝑠𝛼, 𝐿𝑠𝑖𝑛𝛾 + 𝑙𝑠𝑖𝑛𝜃𝑠𝑖𝑛𝛼, −𝑙𝑐𝑜𝑠𝜃) (1)
A seguir, derivamos esta expressão em relação ao tempo para acharmos a
velocidade em cada eixo:
d(x,y,z) dγ dθ dα dγ dθ
= (−L dt sinγ + l dt cosθcosα − l dt sinθsinα, L dt cosγ + l dt cosθsinα +
dt
dα dθ
l dt sinθcosα + l dt sinθ) (2)
A velocidade da partícula é então dada por:
dγ 2 dθ 2 dα 2 dγ dα
v 2 = (L dt ) + (l dt ) + (l dt ) + 2Ll ( dt ) ( dt ) sinθcos(γ −
dγ dθ
α)2Ll ( dt ) ( dt ) cosθcos(γ − α) (3)
Desta forma, podemos escrever a energia cinética do sistema, “𝑇” da seguinte
maneira:
𝑑𝛾 𝑑𝜃 𝑑𝛼
𝑚𝑣 2 𝑚(𝐿 𝑑𝑡 )2 𝑚(𝑙 𝑑𝑡 )2 𝑚(𝑙 𝑑𝑡 )2 𝑑𝛾 𝑑𝛼 𝑑𝜃
𝑇= = + + + 𝑚𝐿𝑙 𝑑𝑡 ( 𝑑𝑡 𝑠𝑖𝑛𝜃 cos(𝛾 − 𝜃) + 𝑑𝑡 𝑐𝑜𝑠𝜃 sin(𝛼 −
2 2 2 2
𝛾) (4)
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Agora para a energia potencial, desprezando a energia potencial de torção da
barra, temos:
𝑉 = −𝑚𝑔𝑙𝑐𝑜𝑠𝜃 (5)
Assim, obtemos a lagrangiana do sistema:
𝑚𝑣 2
ℒ ≡𝑇−𝑉 = + 𝑚𝑔𝑙𝑐𝑜𝑠𝜃 (6)
2
dγ dα dθ dα
m (L ) ( ) m(l )2 m(l )2
ℒ= dt dt + dt + dt
2 2 2
dγ dα dθ
+ mLl ( sinθ cos(γ − θ) + cosθ sin(α − γ)) + mglcosθ (7)
dt dt dt
Usando o método de Euler Lagrange podemos escrever para a coordenada 𝜃:
𝑑 𝜕ℒ 𝜕ℒ 𝑑2𝜃 𝐿 𝑑2𝛾
( )− =0⇒ 2+ 𝑐𝑜𝑠𝜃sin(𝛼 − 𝛾)
𝑑𝑡 𝜕𝜃 𝜕𝜃 𝑑𝑡 𝑙 𝑑𝑡 2
𝑔 𝐿 𝑑𝛾 𝑑𝛼
= − 𝑠𝑖𝑛𝜃 + ( ) ( ) 𝑐𝑜𝑠𝜃cos(𝛼 − 𝛾) (8)
𝑙 𝑙 𝑑𝑡 𝑑𝑡
Enquanto para a coordenada 𝛼 :
𝑑 𝜕ℒ 𝜕ℒ
( )− =0 (9)
𝑑𝑡 𝜕𝛼 𝜕𝛼
Assim obtemos:
𝑑2𝛼 𝐿 𝑑2𝛾 𝐿 𝑑𝛾 𝑑𝑎
2
+ 2
𝑠𝑖𝑛𝜃cos(𝛾 − 𝛼) = ( )( )𝑠𝑖𝑛𝜃sin(γ − α) (10)
𝑑𝑡 𝑙 𝑑𝑡 𝑙 𝑑𝑡 𝑑𝑡
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Aproximando o movimento da barra para um movimento harmônico simples, fato
que será comprovado na nossa análise experimental, obtemos:
𝛾(𝑡) ≅ 𝐴𝑐𝑜𝑠(𝜔𝑡) (11)
Onde 𝐴 representa a amplitude algular do movimento da barra, enquanto 𝜔, a
frequência angular da mesma. Desta forma, concluímos que:
𝑑 2 𝜃 𝐴𝐿 2 𝐴𝐿 𝑑𝛼
2
− 𝜔 cos(𝜔𝑡)cosθ sin(𝛼 − 𝛾) − ( ) 𝑠𝑖𝑛(𝜔𝑡)𝑐𝑜𝑠𝜃 cos(𝛼 − 𝛾) (12)
𝑑𝑡 𝑙 𝑙 𝑑𝑡
Agora, usando algumas aproximações para ângulos pequenos:
𝑠𝑖𝑛𝜃 ≈ 𝜃 ⟺ sin(𝛼 − 𝛾) ≈ 𝛼 ⟺ cos(𝛼 − 𝛾) ≈ 1 ⟺ 𝑐𝑜𝑠𝜃 ≈ 1
Obtemos as seguintes equações para os ângulos 𝜃, 𝛼:
𝑑 2 𝜃 𝐴𝐿 2 𝐴2 𝐿 𝑑𝛼 𝑔
2
− 𝜔 cos ( 𝜔𝑡 ) α − sin(𝜔𝑡) = − 𝜃 (13)
𝑑𝑡 𝑙 𝑙 𝑑𝑡 𝑙
𝑑 2 𝛼 𝐴𝜔2 𝐿 𝑑𝛼
2
= 𝜃cos(𝜔𝑡) + 𝐴𝜔𝛼𝜃sin(𝜔𝑡) ( ) (14)
𝑑𝑡 𝑙 𝑙 𝑑𝑡
A interpretação física das equações acima é que a amplitude do movimento radial
ou azimutal, dependendo do eixo de lançamento, oscila, de forma que quando a
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amplitude do movimento radial é grande, a do movimento azimutal, pequena e vice-
versa.
Também é possível concluir que o tempo de sincronização, definido como o tempo
necessário para uma oscilação completamente radial se tornar completamente
azimutal ou vice-versa, 𝜏, depende do comprimento da barra da seguinte maneira:
𝜏 = 𝜏0 𝑒 −𝑘𝐿 (15)
Onde os termos 𝜏0 e 𝑘 são constantes que dependem de propriedades da barra.
2.2 Funcionamento do pêndulo.
A medida que o pêndulo oscila e chega próximo à sua amplitude máxima, a barra,
devido à sua elasticidade, se entorta ligeiramente, gerando um torque restaurador,
que, no processo, faz com que a massa ganhe um impulso no eixo azimutal, ou
radial, dependendo de como foi lançada, como podemos ver a seguir:
Figura 2: Aplicação do Impulso na barra.
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Na figura acima, a massa, ao realizar uma oscilação no eixo azimutal, distorce a
barra, que por sua vez responde gerando um impulso, que devido ao fato da barra
estar entortada, tem duas componentes, uma radial e uma azimutal. Desta forma,
devido ao impulso na direção radial, a massa passa a ganhar velocidade neste eixo
após cada oscilação, eventualmente se convertendo em uma oscilação
exclusivamente radial.
2.3 O movimento da barra.
Como foi explicado na seção anterior, o fenômeno de conversão das oscilações
apenas ocorre devido à capacidade da barra de se entortar. Precisamos então de
um método de quantificar a capacidade que uma barra tem de ser entortada. É
importante notar que para sabermos o quão elástica é uma barra, não podemos
levar em conta apenas o módulo de Young do material do qual ela é feita, pois
barras do mesmo material, porém com espessuras diferentes, terão elasticidades
diferentes apesar de terem o mesmo módulo de Young. Definiremos este parâmetro
como Ω, e a seguir será explicado como o obtivemos:
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Figura 3: Aplicação do impulso na barra.
Sendo a densidade linear de massa da barra µ, a massa da parte da barra que
está “solta” e portanto será levada em consideração nos cálculos é:
𝑚 = 𝜇𝑑 (16)
Como a oscilação vertical da barra é um movimento harmônico simples, podemos
escrever:
2𝜋
𝑇= (17)
𝜔
Onde T é o período de oscilação da barra e 𝜔 sua frequência angular, definida
como:
𝑘
𝜔 = √𝑚 (18)
Onde k é a constante elástica da barra, quando esta é fixada a uma distancia “d”
de sua extremidade.
Assim, isolando k obtemos:
4𝜋2
𝑘= 𝑇2
𝜇𝑑 (19)
A grandeza Ω foi então definida como:
1
Ω = 𝑘 (20)
A análise do movimento da barra será levada mais a fundo nos resultados, onde
será exposto o que foi possível concluir com as medidas realizadas.
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3 Metodologia experimental.
3.1. Materiais utilizados.
✓ Placas de madeira para a confecção do suporte
✓ Barra de ferro
✓ Barra de alumínio
✓ Fio de nylon
✓ Esfera rígida de chumbo
✓ Trena
✓ Cronometro
✓ Suporte universal com garra
3.2. Construção do pêndulo.
i. Foram fixados dois pedaços de madeira, um perpendicular ao outro, de
forma a montar o suporte mostrado na figura 3. A barra vertical foi bem presa
com auxílio de 4 “mãos francesas” de forma a evitar oscilações do suporte.
Foi feito um buraco no pedaço vertical de madeira, por onde passa a barra
que formará o pêndulo. Esta por sua vez, foi fixada com o auxílio de
“morsas”.
ii. À ponta da barra de ferro foi preso um fio de nylon, cuja outra ponta foi presa
à bola de chumbo, que oscilará no pêndulo.
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iii. Foi preso outro fio de nylon à ponta da barra, e sua outra ponta foi amarrada
ao suporte para evitar que a barra oscilasse na vertical, comprometendo ou
atrapalhando a ocorrência do fenômenos.
Figura 4: Setup experimental utilizado. Esta montagem nos permitiu
variar com facilidade parâmetros como o comprimento da barra e do fio.
Foram presos pedaços de fita preta para evidenciar a posição dos fios de
nylon.
Figura 5: Setup experimental da forma que foi usado nas medições.
O cronometro foi preso a um suporte universal com garra para medir os
tempos de sincronização.
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3.3. Experimento.
Uma vez com o pêndulo montado, os procedimentos experimentais são bem
simples, incluindo apenas soltar a massa de um ângulo pré-definido e medir o
tempo que a mesma demorava para sincronizar, sendo que ocasionalmente foram
realizadas filmagens do fenômeno para posterior análise no programa “tracker”.
Já para a barra, esta foi fixa à mesa e então sua ponta foi deslocada ligeiramente
para que começasse a oscilar. O movimento foi então filmado e analisado
novamente com o programa “tracker”
Para as filmagens do movimento do pêndulo, a câmera foi posicionada embaixo do
suporte, como podemos ver na seguinte foto:
Figura 6: Posicionamento da câmera
Já para as filmagens da barra, a câmera foi posicionada paralelamente a esta, da
seguinte forma:
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Figura 7: Posicionamento lateral da câmera
4. Resultados.
Analisando os vídeos filmados e fazendo medições com o pêndulo, foi possível
traçar diversos gráficos, para ilustrar os resultados obtidos.
Gráfico 1: Posição da ponta da barra em função do tempo.
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Na análise teórica, o movimento da ponta da barra foi assumido como sendo um
movimento harmônico simples. Para comprovar esta hipótese, foi filmada a ponta
da barra e usando o programa “tracker” foi possível construir o gráfico acima, que
comprova que o movimento da barra é de fato um MHS, devido à curva
característica de seno formada.
Gráfico 2: posição da massa no eixo radial e azimutal em função do tempo.
Podemos observar a amplitude do movimento radial aumentar enquanto a do movimento
azimutal, diminuir, indicando que houve a uma conversão de movimento azimutal para
radial e confirmando a hipótese de que a amplitude nestes eixos oscila.
Podemos ver claramente que quando a amplitude radial atinge seu máximo, a amplitude
azimutal está em seu mínimo, e vice-versa.
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Gráfico 3: Tempo de sincronização em função do comprimento da barra.
Mantido o comprimento do fio fixo em 45cm, e a amplitude de lançamento, 30 graus,
foi variado o comprimento da barra de alumínio e medido o tempo de sincronização.
Como esperado na análise teórica, o tempo se sincronização diminui da forma 𝜏 =
𝜏0 𝑒 −𝑘𝐿 . Podemos entender isto de forma qualitativa pois, quanto maior o comprimento
da barra, mais fácil é entorta-la, e portanto, o impulso na direção radial é mais intenso,
fazendo com que a conversão ocorra de maneira mais veloz.
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Gráfico 4: Variando agora tanto o comprimento da barra, quanto o comprimento do
fio, foi possível traçar o seguinte gráfico de 3 eixos, que nos indica como o sistema
se comporta para a variação destes três parâmetros.
Para cada comprimento de haste foi medido o tempo de sincronização para 4
comprimentos de fio diferentes, e os resultados são mostrados acima. Podemos
ver que o tempo de sincronização aumenta com o aumento do comprimento do fio,
o que faz sentido, pois, em um pêndulo, a frequência angular “𝜔" é dada por:
𝑔
𝜔=√
𝑙
Ou seja, quanto maior o comprimento no fio, menor a frequência angular, e quanto
menor a frequência angular, menor a distorção da barra.
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Sendo assim, comprimentos maiores de fio causam menores distorções da barra,
fazendo com que o tempo de sincronização seja maior.
Gráfico 5: Período de oscilação em função do comprimento da barra.
Variando o comprimento solto da barra de alumínio, foi medido o seu período
de oscilação, e podemos ver que este aumenta exponencialmente à medida
que o comprimento solto da barra aumenta.
Isso ocorre, qualitativamente, pois quanto maior o comprimento solto da
barra, mais fácil é entorta-la, ou seja, sua constante elástica diminui, fazendo
com que o período seja maior. Além disso, quanto maior o comprimento solto
da barra, maior é a massa levada em consideração, contribuindo também
para o aumento do período.
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Gráfico 6: Variação da constante elástica da barra com o comprimento
solto da mesma.
Podemos ver que o gráfico toma o perfil de uma reta, sendo assim possível
descrever a função em questão da forma:
𝑘 = 𝑘0 − 𝜖𝑑
Onde 𝑘𝑜 e 𝜖 são constantes.
Fazendo uma regressão linear para os dados, podemos descobrir o valor de 𝑘0
Para a barra de alumínio, obtemos 𝑘0 = 8,4𝑁/𝑚 , enquanto para a barra de ferro,
para a qual foram feitos os mesmos gráficos e o mesmo padrão foi apresentado,
obtivemos 𝑘0 = 5,25𝑁/𝑚.
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Definindo assim um parâmetro Ωo conseguimos quantificar a elasticidade da barra,
tal que:
1
Ω0 =
𝑘𝑜
Assim, para a barra de alumínio temos Ωo = 0,119 m/N enquanto para a barra de
ferro Ω0 = 0,190 m/N.
Assim concluímos que a barra de ferro é mais elástica do que a barra de alumínio,
o que implica que esta deveria ter tempos de sincronização menores, como já foi
explicado previamente.
Gráfico 7: Comparação entre as barras de materiais diferentes.
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Mantendo o comprimento do fio e a amplitude constantes, foi variado o
comprimento da barra e medido os tempos de sincronização, para duas barras
diferentes, e os resultados coincidem com o que se era esperado, pois como
podemos ver, os tempos de sincronização da barra de ferro estão sempre abaixo
dos tempos de sincronização da barra de alumínio
5. Conclusões.
• A amplitude do movimento nos eixos radial e azimutal oscila.
• O tempo de sincronização diminui de forma exponencial com o aumento do
comprimento da barra.
• A constante elástica de uma barra diminui linearmente com o seu
comprimento.
• Quanto maior a constante elástica de uma barra, menos elástica ela é.
• Quanto maior o comprimento do fio, maior o tempo de sincronização.
• Quanto maior a elasticidade de uma barra, ou seja, quanto menor sua
constante elástica, menor são os tempos de sincronização.
6. Referencias.
http://www.cambridge.org/br/academic/subjects/physics/general-and-classical-
physics/introduction-classical-mechanics-problems-and-
solutions?format=HB&isbn=9780521876223
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