100 61 PB
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Revisão final
Ivelã Pereira
Projeto gráfico
Glauco Borges
Editor de Layout
Luciano Adorno
Fabiani Cristina de Oliveira Santana
Capa
Renan Racinoski
Semestral
Inclui bibliografias
ISSN 2317-1839
CDD 374
Seção: Currículo
Caros leitores,
Esses sujeitos que nos são destinados na EJA, além de serem aprendizes,
são também “ensinantes”, ao nos apresentarem conhecimentos a cada dia de
aula, conhecimentos empíricos, construídos na luta de seu trabalho diário. São
empregadas domésticas, pedreiros, eletricistas, agricultores e tantas outras
profissões que exercem nossos estudantes de EJA e nos possibilitam traçar
diálogos frutuosos, de intenso e imenso aprendizado multilateral em sala de aula.
Mas é exatamente essa particularidade do trabalho que os faz tão
profícuos em nos ensinar que também os impossibilita de se dedicar
integralmente aos estudos. Nesse contexto, o educador de EJA se encontra
sempre numa posição delicada, em que luta para que seus estudantes tenham
direito pleno à educação e construam o máximo possível de conhecimentos, mas
também precisa ser empático com a realidade de trabalho, muitas vezes até
extenuante, na qual tais educandos estão inseridos.
IVELÃ PEREIRA
Editora-chefe
Doutora em Linguística e professora em EJA-EPT (IFSC, câmpus Chapecó)
E-mail: [email protected]
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-7840-0678
REFERÊNCIAS
RESUMO
[9]
EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
articulação entre áreas e conhecimentos. Evidenciou-se a necessidade de construção
coletiva do planejamento e a promoção da docência compartilhada, levando em
consideração a problematização, a contextualização e a interdisciplinaridade.
Palavras-chave: Prática docente. Dialogicidade. Currículo Integrado. Proeja.
ABSTRACT
The experience reported here took place at the Federal Institute Farroupilha in the
Technical Course in Cooking Integrated with High School – Proeja Modality – with the
Mathematics teacher and the teachers from professionalizing subjects. This research was
carried out within the scope of the Masters in Professional and Technological Education -
ProfEPT, with the general objective of promoting moments of reflection on the integrated
curriculum and the development strategies of integrated educational practices in Proeja.
In doing so, we investigated with the teachers the “integrated curriculum” concepts and
“integrated educational practices” developed in Youth and Adult Education. Data were
collected through interviews and dialogues during teacher training meetings, where we
had access to information about the teaching practice constituted from the perspective
of the integrated curriculum, the difficulties found in the construction of teaching and
learning in an interdisciplinary way and the educational practices developed. The
meetings enabled debates and reflections on forms of planning and the need for greater
articulation between areas and knowledge. The need for collective construction of
planning and the promotion of shared teaching was evidenced, taking into account
problematization, contextualization and interdisciplinarity.
Keywords: Teaching practice. Dialogicity. Integrated Curriculum. Proeja.
RESUMEN
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1 INTRODUÇÃO
O currículo integrado é a base que permeia a concepção de funcionamento e
organização dos cursos técnicos integrados nos Institutos Federais. É nos desafios da
formação integral no Proeja1 que surge a possibilidade de adoção do currículo integrado,
para fazer com que os cursos dessa modalidade possam integrar o trabalho, a ciência, a
técnica, a tecnologia, o humanismo e a cultura geral na elaboração de suas propostas
curriculares, de modo a apresentar os conteúdos aos estudantes de forma
contextualizada, articulada, evidenciando-se a historicidade dos conhecimentos.
No espaço da Educação Profissional Técnica, entende-se que existe uma ausência
de integração entre os conhecimentos trabalhados na disciplina de matemática e os
ensinados nas disciplinas profissionalizantes, resultando em um ensino e uma
aprendizagem fragmentada, o que dificulta o entendimento e a construção da
aprendizagem, uma vez que os conhecimentos geralmente são trabalhados de forma
descontextualizada, linear e não se costuma extrapolar os limites disciplinares.
Quando tratamos de Proeja, reconhecemos como sendo uma modalidade em
que os estudantes buscam não apenas a conclusão dos seus estudos regulares, mas
também um curso profissionalizante. Assim, cabe ao professor, tanto das áreas básicas
quanto das áreas técnicas, trabalhar conhecimentos específicos das suas áreas de
formação e propor metodologias de trabalho, tais como, por exemplo, a Prática
Profissional Integrada, que está prevista dentro dos Projetos Pedagógicos dos Cursos
Técnicos do IFFar, buscando integrar os conhecimentos específicos com os
conhecimentos técnicos, de maneira a proporcionar uma qualificação mais adequada aos
estudantes.
Com o objetivo de promover momentos de reflexões sobre o currículo integrado
e as estratégias de desenvolvimento de práticas educacionais integradas, investigamos
as concepções docentes sobre currículo integrado, estratégias metodológicas utilizadas e
a articulação entre as disciplinas básicas, no caso a matemática, e as disciplinas
profissionalizantes, no espaço da formação de Educação de Jovens e Adultos em um
Instituto Federal.
Este trabalho justifica-se pela importância de conhecer e dialogar sobre as
práticas educacionais que vêm sendo desenvolvidas na Educação de Jovens e Adultos.
Essas reflexões são fundamentais para o desenvolvimento de novas propostas
metodológicas de ensino que possam favorecer a integração dos conhecimentos e a
_______________________
1
Neste texto, será utilizada a nomenclatura “Proeja”, entretanto, a partir do 1º Encontro Nacional da Educação de
Jovens e Adultos da Rede Federal, que se realizou no período de 21 a 23 de maio de 2018, no Instituto Federal de
Goiás, convencionou-se que o Proeja passou a ser chamado de “EJA – EPT”.
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dialogicidade nas práticas educacionais.
Neste artigo, abordamos parte de resultados e análises, realizadas tomando
como base informações obtidas na entrevista e nos encontros de formação docente,
ambas desenvolvidas durante pesquisa de mestrado Profissional em Rede – ProfEPT.
Para este trabalho, utilizamos os depoimentos dos professores como forma de
estabelecer reflexões ao longo do texto.
Sendo assim, na intencionalidade de atingir tais pressupostos já descritos,
apresentamos na sequência o referencial teórico, no qual buscamos teóricos que
dialogam sobre a Educação Profissional e Tecnológica, o currículo integrado e a Educação
de Jovens e Adultos. No tópico da metodologia, descrevemos como foi o seu
desenvolvimento, a abordagem utilizada, os instrumentos escolhidos, o espaço e os
sujeitos envolvidos. Logo após a metodologia, apresentamos resultados e discussões dos
dados coletados, momento em que entender, refletir e analisar, utilizando uma base
teórica, os depoimentos fornecidos pelos sujeitos da pesquisa. Para finalizar o texto, na
conclusão, procuramos explicitar alguns resultados que foram alcançados com este
trabalho.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
A fundamentação teórica desta pesquisa está dividida em dois tópicos que
trazem para a discussão aportes conceituais sobre a Educação Profissional e Tecnológica,
o currículo integrado e Educação de Jovens e Adultos.
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Em 2001, foi publicado o Plano Nacional de Educação que previa a erradicação
do analfabetismo até o final da década, objetivo esse que não se concretizou. Em 2002, o
governo do Partido dos Trabalhadores estabeleceu uma série de alterações importantes
para a educação brasileira, inclusive para a formação profissional e à Educação de Jovens
e Adultos. Desenvolveu com o Ministério da Educação e Cultura (MEC) um novo programa
para a EJA, associando a educação básica à educação profissional. Neste contexto, o
governo apresentou um projeto de ampliação da Rede Federal de Educação Profissional e
Tecnológica, implantando um Programa de Educação Profissional Integrada ao Ensino
Básico, na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos, o Proeja.
Com o Proeja, a Rede Federal passou a ofertar, além da formação técnica e
básica de nível médio, a formação inicial e continuada de trabalhadores para a conclusão
das etapas finais do ensino fundamental, integrada ao aperfeiçoamento profissional,
estabelecendo, assim, um início de concretização da necessidade de integração entre a
EJA e a Educação Profissional. Há uma grande demanda de jovens e adultos que
reconhecem a importância de conexão entre a escolarização e as exigências do mercado
de trabalho, pois, ao mesmo tempo em que o trabalho dificulta muitos jovens e adultos a
frequentar a escola, o nível de escolaridade e a capacitação são fatores
importantíssimos para manter-se no mundo do trabalho.
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disciplinas do núcleo comum e o consequente processo de fragmentação
dessas disciplinas. Essa situação decorre da dualidade da educação
brasileira enraizada na nossa história (OLIVEIRA, 2012, p. 157).
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para buscar qualificação e melhorias na vida pessoal, profissional e no próprio espaço de
trabalho.
3 METODOLOGIA
Neste momento, apresentamos o tipo de estudo realizado, bem como os
métodos e instrumentos de coleta de dados escolhidos, o espaço no qual a pesquisa foi
desenvolvida e os sujeitos participantes. Esses dados foram fundamentais para a
concretização do nosso objetivo geral de promover momentos de reflexões sobre o
currículo integrado e as estratégias de desenvolvimento de práticas educacionais
integradas no Proeja. Vale ressaltar que, por ser um trabalho desenvolvido com pessoas,
ele passou por avaliação e foi aceito pelo Comitê de Ética em Pesquisa cadastrado na
Plataforma Brasil sob o número de parecer 3.342.937.
A abordagem utilizada nesta pesquisa é de cunho qualitativo com a perspectiva
de entender a questão do ser humano através da dimensão educacional. Para Zanette
(2017), a pesquisa qualitativa pode proporcionar um bom trabalho científico à medida
que se utilizam metodologias mais próximas da realidade a ser pesquisada. Ademais, a
pesquisa qualitativa propicia ao pesquisador colocar-se no lugar do outro com a
perspectiva de entender a questão do ser humano através da dimensão educacional.
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planejamento coletivo e da docência compartilhada. Nesses encontros, os professores
analisaram as respostas das entrevistas, debateram questões sobre seus planejamentos
e a prática docente.
Os dados coletados – tanto na entrevista como nos encontros – foram
analisados a partir da técnica de análise de conteúdo. As contribuições dos professores
foram colocadas neste artigo em forma de descritores.
Na Tabela 1, foram apresentados a área de formação dos professores
participantes da pesquisa, bem como os componentes curriculares que ministram no
Curso Técnico em Cozinha do IFFar.
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além de trabalhar única exclusivamente as disciplinas em sala de aula.
(D1)
É a proposta de um currículo que todas as disciplinas se conversem com
o intuito do aluno sair daqui formado técnico e formado sabendo por que
a matemática está dentro da parte técnica, por que o português está
dentro da parte técnica, para, então, integrar as disciplinas. (D2)
Uma integração entre as disciplinas e os conhecimentos, não só técnicos,
não somente os conhecimentos que oferecemos para eles, mas também
as bagagens que eles trazem. (D3)
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pensar em outras formas de explicar e sempre começar um conteúdo
retomando a base da base. Se pedir para eles puxarem da memória, não
funciona. (D6)
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O relato da professora nos mostra que é uma característica comum nas turmas
do Proeja, essa necessidade de o professor ter empatia, compreender que seu aluno terá
maiores dificuldades, que precisará de paciência e diferentes formas de explicações.
A partir desses apontamentos, questionamos os professores sobre como
acontece a integração entre as disciplinas do curso, se são realizadas atividades
interdisciplinares e qual era a colaboração de cada um para o seu planejamento e
realização. As falas, a seguir, denotam as práticas desenvolvidas pelos professores em
relação ao questionamento realizado.
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Eu também vejo que, muitas vezes, a gente está só cumprindo o dever
que temos de realizar a PPI, e a gente esquece do aprendizado que é a
PPI. Nós não sentamos para conversar e, muitas vezes, também não
damos esse espaço em sala de aula para os alunos conversarem, para
eles discutirem e entenderem essa PPI. (D3)
Fica claro que existe uma falha no desenvolvimento e na efetivação das PPIs,
sendo que o seu objetivo principal parece não estar sendo alcançado, já que a integração
não acontece de forma efetiva e que não existe um processo com início, meio e fim PPIs.
A começar pela maneira como é organizada, em que os professores sentem falta de
encontros e espaços para a troca de informações, conhecimentos e do planejamento
coletivo, momento no qual aconteceria a proposta da verdadeira integração, ao buscar o
entendimento do perfil de alunos que o curso deseja formar e a aproximação dessa
formação com o mundo do trabalho.
Nos próximos relatos, observa-se, ainda, que os professores que trabalham com
as disciplinas da formação geral dialogam pouco e praticamente não efetuam
planejamento em conjunto com os professores que trabalham com as disciplinas da
formação técnica.
O que acontece é que cada um está na sua área, cada um está na sua
caixinha. É muito difícil você olhar para o lado e tentar integrar. Eu coloco
alguns textos curto, e já é um pânico para eles. É difícil para o professor
e é difícil para o aluno. (D6)
No ano passado na PPI, fiquei muito frustrada, porque o evento foi ótimo.
Na prática deu tudo certo, mas, no final no último dia, quando eu estava
numa sala com os professores que participavam da PPI, eu me peguei
sentada, naquele momento, pensei “o que a gente integrou aqui?” Os
alunos estavam fazendo um prato, o que a gente já faz diariamente em
sala de aula, e eu fiquei frustrada porque pensei: “o que mudou?” (D1)
Nunca tinha pensado nisso. A gente fala para os alunos que vamos fazer
a PPI, explica como acontecerá, mas a gente nunca fez essa ação de
discutir com eles sobre essa prática (D2)
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ação interdisciplinar, mediante o planejamento integrado e coletivo, assim contribuindo
para a construção do perfil profissional de um Técnico em Cozinha.
Tais depoimentos demonstraram também que, a partir do momento em que os
estudantes recebem propostas de práticas, que são executadas diariamente, ou seja, são
atividades que eles já estão acostumados a realizar e essas práticas, como já
mencionado antes, não são do tipo ação/reflexão, fazem-nos concluir que as PPIs são
desenvolvidas no nível tecnicista do “saber fazer”, mas não do refletir sobre o “por que
aquilo foi feito”, ou ainda “que aprendizagens foram construídas” com base naquela
prática.
Segundo Maraschin (2019, p 215). “o ser humano precisa ter a compreensão
unitária da técnica em função das condições sociais em que a realiza, passando a
dominar o que executa e todas as demais, sabendo o que significa quanto vale e quais as
finalidades da técnica”.
Para Moll (2010, p. 92), as alternativas didáticas de integração precisam ser
acompanhadas e avaliadas nos seus propósitos e formas de implementação. A autora
ressalta que, a princípio, nenhuma técnica tem poder mágico. E são as pessoas que se
encontram envolvidas no processo com suas necessidades, aspirações e expectativas
que poderão aumentar seu potencial de educar, quanto mais incentivos se fizerem à
autorreflexão e autocrítica.
São práticas cristalizadas e reproduzidas, na maioria das vezes, de forma
empírica, sem uma intencionalidade aparente, apenas com repetição de modelos
eternizados e assentados em paradigmas tradicionais. Não há uma reflexão da prática, e
as situações de ensino não são planejadas para gerar a aprendizagem significativa para o
aluno, isto é, são somente executadas, tendo o conteúdo como mediação. Romper com
este paradigma se torna necessário.
Hoje, a gente faz é sair da ementa e vai pensar de forma separada, vou
tirar duas aulas para fazer a PPI e tenho que reorganizar meu conteúdo o
que a gente tem que fazer é inserir a PPI e não pensar que vou perder
duas aulas para realizá-la. (D1)
Eu também nunca relacionei com eles a PPI com meus conteúdos da
ementa. Acho que isso precisamos colocar no nosso planejamento. (D2)
A gente das técnicas, que fazemos as PPIs, nunca paramos para pensar, e
eu me dei conta disso agora com essa conversa. Este momento está
sendo bem legal por isso. (D5)
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oportunidade de trabalhar a integração, quanto as dos estudantes, os quais deveriam ser
o principal foco da realização da PPI, que estão deixando de refletir e de estabelecer
novas relações com as práticas.
Parar para conversar, cada um olhar para a sua prática, mas a gente não
identifica algumas coisas sozinhos. Só através do diálogo. (D5).
E então, de repente, estou aqui pensando que a gente poderia colocar
essa PPI para duas semanas: uma semana ter a PPI e na outra semana a
gente fazer a discussão. A gente coloca no Plano de ensino esse
planejamento de falar sobre os resultados da PPI com os alunos. (D2).
5 CONCLUSÃO
Com o desenvolvimento desta pesquisa, tivemos a oportunidade de conhecer um
pouco mais um dos programas, que procura dar sentido diferenciado à Educação de
Jovens e adultos e a Educação Profissional e Tecnológica, chamado Proeja. Os encontros
e as conversas geraram movimento no modo de pensar dos professores quanto à
elaboração do planejamento e o exercício da prática pedagógica. Através do diálogo,
houve reflexões sobre as práticas de integração que são desenvolvidas no Curso de
Técnico em Cozinha Integrado (Proeja), chegando à conclusão de que, especialmente em
relação às atividades de PPI, não há a integração de fato, que é necessária uma maior
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aproximação entre os professores para planejar e para oportunizar a participação e o
protagonismo dos estudantes, despertando, assim, para a formação da autonomia e para
a compreensão do processo educativo como um todo.
É necessário que esses professores vivenciem espaços constantes de formação
continuada, de interações e trocas, preferencialmente a partir de coletivos colaborativos,
nos quais se possam realizar trocas de experiências, reflexões e construções coletivas da
docência. Entendemos que essa é uma das premissas e uma das necessidades que
permitem configurar o currículo integrado, ou seja, os professores necessitam ser
colocados em espaços de formação e reflexão que possibilitem a construção coletiva e
integrada.
Com os resultados, ficou evidente que os professores costumam desenvolver
suas aulas de forma bastante individual, ainda que os docentes sinalizem que existe
diálogo e aproximação entre o grupo que trabalha com a área profissional, entretanto,
ainda não é uma integração ideal, pois permanece somente na área, não abrange a área
básica e, por fim, não costuma provocar reflexões e modificações sobre o trabalho
desenvolvido. Ainda, apesar de evidenciarmos que os professores já realizam momentos
de interlocuções é preciso que esta não seja feita de qualquer forma, ou seja, é
necessário que todos desenvolvam uma escuta sensível sobre as especificidades dos
estudantes do Proeja, que reconheçam a importância de falar com eles e estabeleçam
relações afetivas positivas em suas práticas pedagógicas, acolhendo a diversidade
cultural, social e econômica.
Quanto ao “currículo integrado” e o trabalho como princípio educativo no Curso
Técnico em Cozinha Integrado Proeja, ainda são desafios a ser superados, constatamos
que a comunidade escolar precisa oferecer mais espaços para dialogicidade. Muitas
experiências são desenvolvidas, mas não são compartilhadas e socializadas, pois os
conceitos e atividades ficam mais no nível teórico, e poucas estabelecem relação com a
prática. A maioria dos professores pesquisados apresenta a concepção de que “currículo
integrado” é o trabalho com atividades contextualizadas e interdisciplinares, e que ele
estaria sendo desenvolvido através das práticas profissionais integradas. No entanto,
com os debates e as reflexões, os próprios professores concluíram que o currículo vai
muito além e precisa ser mais bem estudado e planejado, com o pensamento voltado ao
estudante, a partir das suas impressões e experiências, possibilitando que o educando
participe e se torne mais proativo em sua aprendizagem.
REFERÊNCIAS
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EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
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EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
Seção: Formação de Professores | Artigo original | DOI:
https://doi.org/10.35700/2317-1839.2022.v11n19.3287
Simoni Farias
Graduada em Ciências Biológicas (IFPR/câmpus Londrina)
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná – IFPR/câmpus Londrina
E-mail: [email protected]
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2165-4172
RESUMO
Este artigo teve como objetivo identificar pesquisas sobre práticas pedagógicas de
sucessos e os principais desafios encontrados para o ensino de Ciências e Biologia na
Educação de Jovens e Adultos (EJA). Após o resgate histórico da construção educacional,
social e política da EJA, realizou-se uma pesquisa bibliográfica de cunho
quali-quantitativo a fim de mapear publicações que pudessem apontar características
específicas das práticas de ensino em Biologia na EJA. Este estudo dedicou-se às
produções levantadas entre os anos de 2010-2020. Foram identificados 98 artigos dos
quais apenas 30 foram selecionados para análise de dados, pois se encaixam no escopo
deste estudo. As análises realizadas apontaram que os maiores desafios encontrados
pelos professores de Biologia são: desenvolver modelos pedagógicos diferenciados que
identifiquem a diversidade desse público e suas especificidades referentes às diferentes
faixas etárias, perfis e situações de vida dos educandos. Outrossim, é possível inferir que
o caminho para o sucesso no desenvolvimento dessas práticas deve priorizar a voz dos
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alunos em seus currículos; despertar nos educandos a sua autotransformação em
cidadãos críticos e reflexivos; dar condições necessárias para o aluno compreender o
espaço escolar como um ambiente de trocas de experiências e saberes em Ciências que
contribuem para a sua melhoria de vida e também da sociedade.
Palavras-chave: Educação de jovens e adultos / EJA Ciências, EJA Biologia/ EJA Ciências e
Biologia.
ABSTRACT
This article aimed to identify research on successful pedagogical practices and the main
challenges encountered in the teaching of Science and Biology in Youth and Adult
Education (EJA). After conducting a historical rescue of the educational, social and
political construction of the EJA, a qualitative-quantitative bibliographic research was
carried out to map publications that could point out specific characteristics of teaching
practices in Biology in EJA. This study focused on the productions published between the
years 2010-2020. Ninety-eight articles were identified, from which only 30 were selected
for data analysis as they fit the scope of this study. Results showed that the biggest
challenges faced by Biology teachers are: to develop differentiated pedagogical models
that identify the diversity of the EJA public and its specificities regarding different age
groups, profiles and students’ life situations. Furthermore, it is possible to infer that the
path to success in the development of these practices must prioritize the voice of
students in their curricula; awaken in students their self-transformation into critical and
reflective citizens; provide the necessary conditions for the student to understand the
school space as an environment for exchanging experiences and knowledge in Science
that contribute to the improvement of their lives and also of society.
Keywords: Youth and adult education; EJA Science; EJA Biology; EJA Science and Biology.
RESUMEN
Este artículo tuvo como objetivo identificar investigaciones sobre prácticas pedagógicas
exitosas y los principales desafíos encontrados en la enseñanza de Ciencias y Biología en
la Educación de Jóvenes y Adultos (EJA). Luego del rescate histórico de la construcción
educativa, social y política de la EJA, se realizó una investigación bibliográfica
cualitativa-cuantitativa para mapear publicaciones que pudieran señalar características
específicas de las prácticas docentes en Biología en la EJA. Este estudio estuvo dedicado
a las producciones recopiladas entre los años 2010-2020. Fueron identificados 98
artículos, de los cuales sólo 30 fueron seleccionados para el análisis de datos, ya que se
encajan en el alcance de este estudio. Los análisis realizados mostraron que los mayores
desafíos que enfrentan los docentes de Biología son: desarrollar modelos pedagógicos
diferenciados que identifiquen la diversidad de este público y sus especificidades
respecto a diferentes grupos de edad, perfiles y situaciones de vida de los estudiantes.
Además, es posible inferir que el camino hacia el éxito en el desarrollo de estas prácticas
se debe priorizar la voz de los estudiantes en sus currículos; despertar en los estudiantes
su autotransformación en ciudadanos críticos y reflexivos; brindar las condiciones
necesarias para que el estudiante comprenda el espacio escolar como un ámbito de
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intercambio de experiencias y conocimientos en Ciencias que contribuyan al
mejoramiento de su vida y también de la sociedad.
Palabras-clave: Educación de jóvenes y adultos; Ciencia EJA; Biología EJA; EJA Ciencia e
Biología.
1 INTRODUÇÃO
Pensar sobre a emancipação do sujeito por meio da Educação, em qualquer fase
da sua vida, envolve pensar em práticas pedagógicas que coloquem o estudante para
refletir criticamente sobre as condições que se impõem a ele na vida em sociedade e
quais as possíveis relações entre o que aprendemos na escola e a nossa vida. Dessa
forma, os conteúdos que aprendemos na escola podem tomar vida no dia a dia em
sociedade se os estudantes forem encorajados a compreender e estabelecer as possíveis
relações entre os conteúdos que se aprende na escola e a forma como estão presentes
na vida em sociedade.
Pensando especificamente no ensino de Ciências e Biologia, vivemos um marco
histórico desafiador na História da humanidade por conta da Pandemia de COVID-19 que
modificou completamente a vida em sociedade e as relações sociais. De um dia para
outro, a Ciência entrou em nossas casas por meio das notícias, novas posturas de
convivência foram desenhadas (por exemplo: distanciamento social, máscaras, álcool
70%, entre outros), protocolos de segurança para uso de espaços públicos e privados
foram adotados, e a conscientização para a vacinação tornou-se essencial por ser a única
saída coletiva para a solução desse problema. Esse novo cenário colocou luz sobre a
importância da alfabetização científica da população em geral, independentemente da
idade, e de estarem ou não na escola, de modo que a solução da Pandemia depende de
uma compreensão pública da Ciência muito mais apurada e crítica.
Como destaca Lorenzetti (2021, p. 66):
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Partindo da compreensão de que o ensino de Ciências e Biologia é o caminho
para a promoção da alfabetização científica também na Educação de Jovens e Adultos
(EJA) e reconhecendo que tal ensino também é responsável por aproximar as discussões
científicas desse público, o presente artigo tem por objetivo identificar pesquisas sobre
práticas pedagógicas de sucessos e os principais desafios encontrados para o ensino de
Ciências e Biologia na EJA.
Nossa intenção é apresentar características de práticas de ensino em Ciências e
Biologia na Educação de Jovens e Adultos visando a ampliar a compreensão da própria
comunidade científica sobre a importância dessas práticas, também nesta faixa de
escolaridade.
Consideramos particularmente importante valorizar as práticas empreendidas
neste período escolar por compreender que a emancipação do sujeito, a formação de
uma consciência crítica diante da realidade e uma compreensão mais autônoma sobre a
sua vida e a vida em sociedade, passa por compreender mais e melhor a presença da
Ciência em suas vidas.
Após as ponderações citadas, que constituem a introdução deste artigo (1),
apresenta-se, na sequência, em (2), o referencial teórico da pesquisa, tomando por base o
histórico da EJA e suas relações com o ensino e aprendizagem de Ciências e Biologia; em
(3), a metodologia, em que se apresentam as características desta pesquisa; em (4), a
análise dos dados, retomando-se o objetivo geral, os pressupostos da pesquisa e os
referenciais teóricos de modo a relacioná-los aos dados encontrados; e, por fim, em (5), a
conclusão e o fechamento do texto.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
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formativas já eram compostas por cinco escolas de instrução elementar, situadas em
Porto Seguro, Ilhéus, Espírito Santo, São Paulo de Piratininga e São Vicente. As escolas
eram regidas por um documento denominado Ratio Studiorum, escrito por Inácio de
Loyola, que regulamentava esses colégios e visavam educar tanto no ensino escolar
quanto para a vida em sociedade. Embora fossem os burgueses os principais
mantenedores desses colégios, a orientação de Inácio de Loyola era de que a instituição
de ensino da Companhia de Jesus oferecesse ensino gratuito, seja pelo Estado, de
particulares ou entidades (VARGAS et al., 2013).
Com a expulsão dos jesuítas do Brasil, todas as escolas jesuítas foram fechadas
pelo Marquês de Pombal, uma grande desorganização do ensino e uma série de
consequências para a história da educação brasileira decorreram dessa decisão
(HADDAD; PIERRO, 2000).
Com a reforma pombalina, surge a escola pública, e os adultos de classes menos
privilegiadas ficam à margem da sociedade sem formação e estudo. Apenas a classe
burguesa da sociedade passa ter acesso à educação de qualidade e ao ensino superior.
Ao expulsar os jesuítas, Marquês de Pombal tira a administração educacional das
mãos dos missionários e passa para o Estado. A metodologia eclesiástica dos jesuítas é
substituída pelo pensamento pedagógico da escola pública e laica. (BRASIL, 2012).
Segundo Azevedo (1976, p. 56-57):
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Em 1807, a família real deixa Portugal e muda-se para o Brasil devido à crise
mundial. Com a chegada da corte, há investimento em ensino técnico e ensino superior.
Por outro lado, a educação popular fica esquecida, e o período é de poucos avanços para
a EJA.
Com a independência do Brasil, em 1822, aparecem os primeiros sinais do ensino
como instituição. Segundo Haddad e Pierro (2000, p. 109):
Essa distância entre o proclamado e o realizado foi agravada por outros fatores,
uma vez que, no período do Império, só possuía cidadania uma pequena parcela da
população pertencente à elite econômica, à qual se admitia administrar a educação
primária como direito, do qual ficavam excluídos negros, indígenas e grande parte das
mulheres.
Em 1890, no final do Império, 82% da população com idade superior a cinco
anos era analfabeta. Com a revolução industrial, ocorre a valorização do ensino
profissionalizante entre os imigrantes.
No ano de 1937, foi criado o INEP (Instituto Nacional de Estudo e Pesquisas), com
objetivo traçar um panorama da educação no Brasil e um plano de nacionalização do
ensino. Di Pierro, Joia e Ribeiro (2001) salientam que a EJA tem sua origem significativa a
partir de movimentos populares. Nas palavras dos autores:
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ler (1961); CPC – Centro Popular de Cultura (1961); Movimento de Educação de Base –
MEB, sistema rádio educativo criado na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com o
apoio do Governo Federal (1961); Campanha de Educação Popular da Paraíba (1962);
Centros Populares de Cultura – CPC (1963).
Outro movimento importante para educação brasileira, criado em 1967, foi o
Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), um ensino militarizado, subalternado
ao Exército, cujos objetivos estavam focados numa didática tecnicista, formando cidadãos
funcionalmente alfabetizados, com noções básicas de leitura, escrita e matemática, mas
sem o desenvolvimento de uma consciência cidadã. O MOBRAL causou uma ruptura na
metodologia freiriana utilizada nas décadas 50 e 60, que trazia o lema “Educar para
Libertar”. Era o ensino da ditadura promovido por Getúlio Vargas, porém, com o início da
recessão econômica de 1980., o projeto foi extinto em 1985 (BELUZO; TONIOSSO, 2015).
O MOBRAL foi transformado em Fundação Escolar, que trouxe novo fôlego e
novas metodologias para a educação de adultos. A proposta pedagógica do
pernambucano Paulo Freire não teve uma boa repercussão dentro desse novo sistema,
que trazia exatamente os pressupostos contrários da educação libertadora que o autor
defendia. Apesar de Freire ser o responsável inicial pelo desenvolvimento dos programas
de alfabetização de jovens e Adultos, a partir de 1963, na década seguinte, seu programa
foi interrompido, uma vez que a educação proposta no regime militar buscava
exatamente o contrário: qualificar mão-de-obra barata e sem consciência social (BELUZO
e TONIOSSO, 2015).
O Ensino Supletivo foi Regulamentado 1971 com o objetivo de repor a
escolaridade que não havia acontecido na faixa etária considerada, na época, “apropriada
à aprendizagem”, um ponto de vista defendido pela psicologia evolutiva tradicional, um
dos paradigmas da educação na área educacional nesse período (PALACIOS, 2004). No
entanto, apenas com a promulgação da Constituição Federal de 1988, que se tornou, de
fato, obrigatória a Educação de Jovens e Adultos (BELUZO e TONIOSSO, 2015).
A partir dessa obrigatoriedade, é criado, em 1991, o Programa Nacional de
Alfabetização e Cidadania (PNAC), que torna obrigatória a alfabetização de crianças,
jovens e adultos, a partir de parcerias formadas entre o governo e a sociedade civil, tendo
como objetivo final erradicar 95% do analfabetismo até 1995. Com a crescente
percepção da importância da alfabetização em todas as faixas etárias, são criados fóruns
responsáveis pelo debate e integralização das ações em todo o país (BELUZO; TONIOSSO,
2015).
A partir da década de 1990, a EJA passa a ser discutida com maior ênfase, com a
aprovação da Lei 9394/96, no seu artigo 37, substituindo de vez o então chamado
“supletivo”. Refere-se, especificamente à educação de jovens e adultos:
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Art. 37. A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não
tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e
médio na idade própria.
§ 1º Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos
que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades
educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado,
seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e
exames.
§ 2º O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do
trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares
entre si. § 3o A educação de jovens e adultos deverá articular-se,
preferencialmente, com a educação profissional, na forma do
regulamento (BRASIL, 1996, p. 17-18).
A Função da EJA passou a ser explicitada no Parecer CEB/CNE 11/2000. São três
as funções:
Função Reparadora: significa não só a entrada no circuito dos direitos
civis pela restauração de um direito negado: o direito a uma escola de
qualidade, mas também o reconhecimento daquela igualdade ontológica
de todo e qualquer ser humano.
Função Equalizadora: visa a reentrada no sistema educacional dos que
tiveram uma interrupção forçada seja pela repetência ou pela evasão,
seja pelas desiguais oportunidades de permanência ou outras condições
adversas, possibilitando aos indivíduos novas inserções no mundo do
trabalho, na vida social, nos espaços da estética e na abertura dos canais
de participação.
Função Qualificadora: propicia a todos a atualização de conhecimentos
por toda a vida, sendo uma função permanente da EJA. Mais do que uma
função, ela é o próprio sentido da EJA (PAIVA, 2009, p. 24, grifos do
autor).
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Já em 2003, o Ministério da Educação (MEC) anunciou que a EJA passaria a
figurar como prioridade do Governo Federal. Assim, surge o Programa Brasil Alfabetizado
(PBA), por meio do Decreto nº 4.834, de 08 de setembro de 2003 (BRASIL, 2003), cuja
finalidade seria a erradicação do analfabetismo no país, especialmente de Jovens
Adultos, regulamentado pelo DECRETO Nº 5.475, de 22 de junho de 2005. Dentro do
programa, e a partir de suas diretrizes inclusas no Princípios, Diretrizes, Estratégias e
Ações de Apoio ao Programa Brasil Alfabetizado: Elementos para a Formação de
Coordenadores de Turmas e de Alfabetizadores (BRASIL, 2011), a alfabetização de tornou
uma política pública de inclusão de grupos excluídos, não mais de caráter compensatório
para esses estratos sociais (MACHADO, 2015).
No ano de 2007, o Programa Brasil Alfabetizado foi completamente reformulado
pelo Decreto Decreto nº 6.093, de 24 de abril de 2007, o qual passou a tratar de forma
prioritária a alfabetização de toda a população a partir dos 15 anos de idade, com a
tentativa de gerir de maneira mais eficaz os programas estaduais, evitando medidas
repetitivas (MACHADO, 2015), mas o programa funcionou até 2016.
Ainda no período a partir de 2003, diversos programas foram implementados
para tentar suprir a necessidade de alfabetização da população, por exemplo: o Programa
Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem Campo – Saberes da Terra), o Programa
Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica, na Modalidade
de Jovens e Adultos (PROEJA), Programa Nacional de Integração da Educação Profissional
com a Educação Básica, na Modalidade de Jovens e Adultos, modalidade Formação Inicial
e Continuada (PROEJA – FIC), O Exame Nacional para Certificação de Competências de
Jovens e Adultos (ENCEEJA), Programa Nacional de Educação do Campo (Pronacampo),
Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego, modalidade Jovens e
Adultos (Pronatec – EJA) e o Programa Educação Nas Prisões (PEP).
Apesar da grande quantidade de programas, segundo o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), nota-se a diminuição crescente do número de participantes
ocupando as salas de aula na faixa etária a partir dos 15 anos. Foram aprovadas como
metas para educação do decênio 2010-2020, em 2010, oferecer 25% das matrículas da
EJA nos ensinos fundamental e médio, e, na forma integrada, a educação profissional foi
uma delas. Mudanças significativas para a EJA foram consideradas para 2020, e, a partir
daquele ano, o tempo de conclusão da EJA passou de cinco para dois anos a cada etapa,
uma tentativa de conter tal evasão (BRASIL, 2018).
Em 2014, após grande pressão popular, o governo Federal sancionou o Plano
Nacional de Educação (PNE) por meio da Lei Nº 13.005, de 25 de junho de 2014, que tinha
como propósito direcionar investimentos para a melhoria da qualidade da educação no
país (NEVES; GONÇALVES; ARAÚJO, 2020). Dentre as 20 metas a serem alcançadas num
intervalo de 10 anos, duas estão diretamente relacionadas à EJA:
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Meta 9: elevar a taxa de alfabetização da população com 15 (quinze) anos
ou mais para 93,5% (noventa e três inteiros e cinco décimos por cento)
até 2015 e, até o final da vigência deste PNE, erradicar o analfabetismo
absoluto e reduzir em 50% (cinquenta por cento) a taxa de
analfabetismo funcional.
Meta 10: oferecer, no mínimo, 25% (vinte e cinco por cento) das
matrículas de educação de jovens e adultos, nos ensinos fundamental e
médio, na forma integrada à educação profissional (BRASIL, 2014).
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relacionados: contaminação e degradação dos ecossistemas, [...] perda de diversidade
biológica e cultural”.
Nessa perspectiva, o ensino de Ciências e Biologia vem ganhando destaque
segundo argumentação de Futuyma (2002, p. 5):
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2. Biodiversidade: Organização, caracterização e distribuição dos
organismos vivos
3. Organismo: sistema complexo e autorregulável
4. Hereditariedade: Padrões e processos de armazenamento, transmissão
e expressão de informação
5. Evolução: Padrões e processos de diversificação da vida
6. Ecossistemas: Interações organismo-meio (BRASIL, 2016, p. 600).
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Apesar de a EJA apresentar um arcabouço de leis nacionais e ser signatário de
legislações internacionais, a diversidade da população brasileira traz indicadores sociais
complexos para políticas públicas que vão além de ofertar vagas nas escolas e formular
currículos. De acordo com Paiva (2019, p. 1146):
Diante dessas influências, o indivíduo precisa, cada vez mais, entender esses
processos que decorrem, principalmente do fenômeno da globalização, “[...] que trouxe
transformações para todos os setores da sociedade. Portanto, destaca-se aqui o papel
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essencial da disciplina de ciências na educação referente às temáticas relacionadas à
ciência e à tecnologia” (BERTOGLIO , 2013, p. 17).
Segundo Limberger et al (2014), em seu estudo sobre práticas pedagógicas na
EJA, verificou-se que o ensino de ciências nesta modalidade é pouco eficiente por
priorizar o estudo de conteúdos conceituais e pelo baixo reconhecimento dos professores
de Ciências sobre práticas pedagógicas que incentivem o desenvolvimento das
capacidades de pensamento crítico dos alunos.
Como já mencionado, o ensino da Biologia encontra-se inserido na área de
“Ciências da Natureza”, juntamente, com a Física e a Química, e hoje ocupa lugar de
destaque nos currículos escolares, porém, nem sempre foi assim. O espaço conquistado
para o estudo dessas Ciências é consequência do status que adquiriram, principalmente
no século XXI, por conta dos avanços sociais propiciados pelo desenvolvimento científico,
responsável por grandes invenções. (NARDI; ALMEIDA, 2003).
Por todas as razões aqui expostas e também reconhecendo que as Ciências em
geral ocupam lugar de relevância não apenas dentro dos muros da escola, mas também
fora dela, na própria vida em sociedade, valorizar reflexões e ações por elas
empreendidas também na EJA, é valorizar o desenvolvimento do pensamento crítico,
autônomo e bem fundamentado de todo o cidadão.
3 METODOLOGIA
Esta pesquisa configura-se como uma pesquisa quali-quantitativa. Com o intuito
de se identificar quais são as características dos artigos que vêm sendo produzidos
dentro da perspectiva da EJA para as aulas de Ciências e Biologia, caracterizando-se
como uma revisão bibliográfica sistemática (SNYDER, 2019), cuja pergunta a ser
respondida foi: qual a atual situação da Educação de Jovens e Adultos nas aulas de
Ciências Naturais?
De acordo com Lakatos e Marconi (2002), a finalidade dessa metodologia é
entrar em contato com os temas publicados sobre determinado assunto, sendo possível
examiná-los, chegando a conclusões diferentes dos problemas estudados. A principal
vantagem do método é permitir o acesso a uma maior gama de temáticas, que seria
inviável numa pesquisa primária (GIL, 1999).
Utilizou-se como método de busca a busca booleana “[...] é a aplicação da Lógica
de Boole a um tipo de sistema de recuperação da informação, no qual se combinam dois
ou mais termos, relacionando-os por operadores lógicos, que tornam a busca mais
restrita ou detalhada. (SAKS, 2005, p. 4). Nesse sentido, foram combinados os seguintes
termos com os operadores AND entre as palavras “EJA”; “Ciências” e “Biologia”, no Google
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EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
Acadêmico. Foram coletados trabalhos entre os intervalos temporais de 2010 a 2020, em
todas as revistas de interesse que publicam sobre o tema, encontrando-se um total de
98 artigos (“EJA Ciências” 96 resultados; “EJA Biologia” 54 resultados e “EJA Ciências e
Biologia” 11 resultados).
Após a leitura flutuante dos resumos (BARDIN, 2011), foram excluídos artigos
repetidos, de acordo com os seguintes critérios de exclusão: (a) práticas correspondentes
ao ensino do 1º ao 5º ano do Ensino Regular (anos iniciais do Ensino Fundamental); (b)
relacionadas ao trabalho (funcionários); (c) workshop, coletâneas por tratarem de muitos
artigos num mesmo documento; (d) pesquisas voltadas para a ações específicas como a
formação de professores; e (e), artigos que não permitiam acesso.
A partir da leitura e análise dos artigos selecionados, realizou-se o fichamento
individual, contendo: autor; tipo de pesquisa; instituição/periódicos/evento; ano e práticas
pedagógicas abordadas. Então, os artigos foram separados em dez diferentes temáticas,
baseadas na abordagem de trabalho utilizada pelos autores ao longo de suas pesquisas,
conforme ilustra o Quadro 1.
Instituição Práticas
Tipo de / Pedagógicas
Grupos Cód. Autor (es) Ano
Pesquisa Periódico Abordadas
/ Evento
Abordagem
C1 POMPÉU Mestrado Unb 2010 Histórica e
1
Filosófica
Abordagem
Abordagem
Interdisciplinare C2 LOPES Especialização UTFPR 2011
interdisciplinar
s
NASCIMENTO et Trabalho em Abordagem
C3 ULBRA 2015
al. evento Interdisciplinar
Artigo
2 C4 RAMALHO et al. REMOA 2015 Atividade Prática
Científico
Atividade
Atividades
Práticas C5 MOTA TCC IFSC 2015
Lúdicas
COSTA; Práticas
C6 Mestrado P. UnB/R 2012
BIZERRIL Dialógicas
3
Dialógica/Proble-
Práticas C7 SILVA Mestrado UTFPR 2018
matizadora
Dialógicas
Dialógica/Proble-
C8 AMARAL Mestrado UnB 2019
matizadora
Ciência &
MOREIRA; Artigo Seminários
4 C9 Educação 2011
FERREIRA Científico Interativos
Comunicação (UNESP)
Científica
[ 39 ]
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Textos de
OLIVEIRA, Artigo REVISTA
C10 2015 Divulgação
ZANCUL Científico PRÁXIS
Científica
5 Artigo Práticas
C11 FERREIRA et al ARETÉ
Práticas Laborais Científico 2015 Laboratoriais
Visitação ao
C12 BERTOGLIO et al. Mestrado PUCRS 2013
6 Museu da PUCRS
Visitas em IV
SANTOS; Trabalho em Visita ao Museu
Museus C13 COLBEDUC 2018
FALAVIGNA evento Virtual
A II CIEE
Cinema na Sala
C14 CAVALCANTE Mestrado UnB 2011
de Aula/Prisões
Trabalho Em Recursos
Encontro
7 C15 SANTOS 2014 Audiovisuais
Evento SENAC
Recursos Filmes
TCC Documentários/
Audiovisuais C16 LOURENÇO UFCG 2015
(Graduação) Prisões
Artigo Documentários
C17 MACIEL et al. RPI 2016
Científico Didáticos
Trabalho Em
C18 PORTO;TEIXEIRA X-ENPEC 2013 Enfoque CTS
Evento
BORGES; Artigo Estratégia
C19 LSP 2015
ALMEIDA Científico Mnemônica
COZENDEY; Trabalho Em
C20 X-ENPEC 2015 Audiodescrição
COSTA Evento
Revista
Ensino,
Artigo Estudo
C21 TERNES et al. Educação 2015
8 Científico Intervenção
e Ciências
Estratégias de
Humanas
Aprendizagem
Estudo
C22 ALBUQUERQUE Especialização UnB 2015
Intervenção
TCC A Utilização do
C23 BATISTA UFPB 2017
(Graduação) Livro Didático
Revista Tradicional,
Artigo
C24 PEREIRA et al. Eletrônica 2018 Tradicional e
Científico
Araguaia Lúdico
Modelos
C25 KRAUSE Mestrado UnB 2012
Tridimensionais
Etnografia
9 C26 KUTTER Mestrado UFRGS 2012
Biocêntrica
Metodologias de
Modelo
Ensino C27 SANTANA Especialização UFMG 2019
Biopsicossocial
10
Artigo Rev. Cien.
Lixo Resíduos C28 VALÉRIO et al. 2014 Lixo Eletrônico
Científico Exat. Tec
Sólidos
[ 40 ]
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REMOA Ed
Artigo
C29 SILVA et al. Especial 2015 Resíduos Sólidos
Científico
IFMT
Artigo Revista
C30 BARRA, FREITAS 2018 Lixo Doméstico
Científico UNIABEU
[ 41 ]
EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
Podemos observar, através dos gráficos que localizam os mesmos temas, que
tais assuntos são explorados, em sua maioria, por vivências práticas das mais variadas. É
possível notar também que as estratégias de aprendizagem se destacam como temática
de maior incidência em diversos anos, demonstrando a necessidade da divulgação e
troca de experiências para práticas de ensino em Biologia na EJA.
No item a seguir, exploramos com mais detalhes as contribuições apresentadas
por esses trabalhos sobre o ensino de Biologia na EJA por meio da análise detalhada dos
dados.
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EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
relata que o ensino de Ciências, quando fundamentado nas práxis da educação
libertadora de Freire, proporciona o diálogo entre os sujeitos envolvidos, o estímulo à
produção de conhecimento científico e crítico e o olhar conscientizador/transformador da
realidade. A estratégia desenvolvida por Amaral (2019), sobre a temática de
automedicação, foi aprovada pelos estudantes. Constatou-se a alteração do
comportamento deles quanto à prática da automedicação. Os textos produzidos pelos
alunos resultaram na construção de um livro paradidático que foi aprovado pelo Comitê
de Ética.
No Grupo 4, Comunicação Científica, há dois artigos: C9 e C10. Moreira e Ferreira
(2011) produziram uma pesquisa sobre seminários interativos e relatam que, apesar de
não se tratar de uma prática inovadora, quando bem aplicada, tira o educando da
margem e o coloca no centro da produção e socialização dos conhecimentos.
Os textos de divulgação científica (TDC) para abordar a temática alimentação
foram a proposta de Oliveira e Zancul (2014). Os resultados indicaram que os textos de
divulgação científica despertam o interesse e uma participação efetiva dos alunos nas
discussões, uma vez que relacionavam os assuntos de saúde com o cotidiano dos
estudantes, favorecendo a partilha de suas experiências e a troca de saberes.
Há apenas um artigo no Grupo 5 (Práticas Laborais), o C11. Tal trabalho, de
Ferreira et al (2015), objetivou discutir a realização de atividades experimentais no ensino
de Biologia O estudo evidenciou o potencial pedagógico das práticas experimentais.
Destacou que outros trabalhos práticos devem ser realizados, no entorno da escola, no
jardim, e não apenas nos laboratórios, pois nem todas as escolas detém de um espaço e
equipamentos necessários à aplicação de aulas laboratoriais.
Visitas a Museus é a temática do Grupo 6, em que aparecem dois artigos C12 e
C13. Bertoglio (2013) realizou sua pesquisa junto ao Museu de Ciências e Tecnologia da
PUCRS (MCT, PUCRS), onde a pesquisadora atua como funcionária. A autora reconhece
que museus e centros de ciências são espaços educativos que podem contribuir para a
formação de indivíduos com visão crítica, um recurso pedagógico lúdico e interativo
capaz de trazer muitas contribuições ao ensino de ciências. Para Santos e Falavigna
(2018), o uso do museu virtual como metodologia foi pensado para educandos
pertencentes aos turnos que não os favorecem em participar de atividades culturais de
cunho científico. Comprovou-se a relevância do recurso utilizado proporcionando
cenários de ampliação da cidadania de forma democrática.
No grupo 7, Recursos Audiovisuais, há quatro artigos: do C14 ao C17. Segundo
Cavalcanti (2011), o filme estimulou o diálogo e a reflexão não só sobre os conteúdos de
biologia, mas também sobre a leitura do mundo desses sujeitos. A pesquisa de Santos
(2014) constatou que os recursos audiovisuais são um grande aliado do professor no
processo de ensino-aprendizagem. Lourenço (2015) teve por objetivo compreender a
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EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
relevância da utilização de filmes e documentários na EJA Prisional. Constatou-se que
essa prática proporcionou uma aprendizagem significativa, possibilitando, assim, uma
maior reflexão sobre os diferentes temas abordados na intervenção pedagógica. Maciel
et al. (2016) reconhecem a eficácia da prática pedagógica pela associação do cotidiano
dos alunos por meio do documentário.
O Grupo 8, Estratégias de Aprendizagem, foi o grupo com maior número de
abordagens com oito artigos. Porto e Teixeira (2013) abordaram a temática da AIDS como
um problema social sob análise de três categorias: articulação da tríade CTS; prática
didático-pedagógica; percepções dos sujeitos. Ressaltou-se a viabilidade da
implementação do enfoque, embora, neste trabalho, tenha sido enfatizada somente a
primeira categoria onde evidenciou-se “que a transposição das relações CTS para o
contexto educacional resulta em ênfases diferenciadas em relação aos aspectos da
Ciência, Tecnologia e Sociedade” (PORTO; TEIXEIRA, 2001, p. 1).
Borges e Almeida (2015) trazem a musicalização como estratégia mnemônica.
Ao utilizar a musicalização por meio de paródias que elucidassem os conceitos
estudados em Biologia, os resultados permitiram constatar que houve maior
compreensão dos conteúdos de Biologia. Cozendey e Costa (2015) desenvolveram um
trabalho com a turma do oitavo ano do ensino fundamental da EJA onde doze alunos
participaram das discussões, um dos alunos tinha baixa visão. Primeiramente, foi
utilizado vídeo sem a audiodescrição e em uma segunda aula foi apresentado aos alunos
o vídeo com audiodescrição. Segundo a opinião dos alunos, o vídeo audiodescrito é mais
repetitivo e explicativo, o que favorece a aprendizagem, e o aluno com baixa visão pode
participar adequadamente das discussões. Ternes et al. (2015) propõe uma mudança na
abordagem conceitual e estratégica para o ensino de ciências, que leve em consideração
os conhecimentos adquiridos pelos alunos ao longo da vida. Já a prática pedagógica
docente de Albuquerque (2015) teve como principal objetivo a aprendizagem, por meio
do entendimento para a elaboração do conhecimento. Nas duas pesquisas, a investigação
por meio de questionários, pôde diagnosticar e intervir por meio de ações pedagógicas
mais eficientes. Batista (2017) evidenciou que o livro específico para a modalidade de
ensino possui insuficiência/limitações de conteúdo para o ensino de Biologia, sendo
necessário para suprir as carências do livro didático da EJA, os professores elaborarem
novos materiais didáticos e utilizarem o livro didático do ensino regular para ministrar
suas aulas. Pereira et al. (2018) objetivou aplicar três metodologias de ensino: tradicional,
tradicional/lúdico e somente o lúdico, em que cada metodologia foi aplicada em turmas
diferentes. Os desempenhos dos alunos foram mensurados através de testes (pós-teste).
Os resultados apontaram que a metodologia tradicional/lúdica obteve 50% dos acertos
médios, sendo a mais indicada. Krauser (2012) propôs uma abordagem baseada no uso
conjunto de modelos tridimensionais reais (3DR) e virtuais (3DV), os resultados
[ 44 ]
EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
apontaram para as potencialidades dos modelos como auxílio no processo aprendizagem
significativa, desde que seu planejamento elaboração seja criterioso e reflita sua forma
de utilização, isolada ou concomitante.
As pesquisas C26/C27 convergem para as Metodologias de ensino, Grupo 9. A
meta de Kutter (2012) em descrever aspectos culturais do ambiente escolar ressaltam a
validade do uso da Etnografia na área de Ciências, apresentando a linha pedagógica da
educação Biocêntrica em Biologia, que “estimula nos estudantes, prioritariamente, a
valorização da consciência corporal, dos cuidados com a saúde do corpo”, sendo um
campo de pesquisa ainda pouco explorado sob o ponto de vista da Educação em Ciências.
O estudo de Santana (2019) teve como finalidade discutir sobre as (IST’s) infecções
sexualmente transmissíveis na Educação de Jovens e Adultos. Através do modelo
biopsicossocial, evidenciou-se a relevância em explorar questões de caráter social,
especificamente o papel do gênero. Mostrou ser também importante para os docentes
refletirem suas práticas, valorizando o diálogo e sanando possíveis dúvidas que
ultrapassem os limites do viés biológico-centrado.
O último grupo foi Lixo, Resíduos Sólidos. As temáticas de Valério (2014), Barra e
Freitas (2018) e Silva et al. (2015) estão relacionadas ao Lixo Eletrônico, Lixo Doméstico e
Resíduos Sólidos Urbanos. As três propostas reconhecem a alta relevância que as
temáticas propostas tiveram no contexto da comunidade local. Percebe-se, também, que
ao trabalhar com uma problemática de alcance local, de maneira adequada, temas como
Resíduos Sólidos Urbanos, segundo Silva et al. (2015), passam a ganhar maior
importância no processo de construção de conhecimento desses educandos e
oportunizando o protagonismo do sujeito, abrindo espaço para a formação de cidadãos
muito mais comprometidos com a causa social ao seu entorno.
Após a análise dessas pesquisas, é possível notar que o ensino de Ciências e
Biologia é um importante elemento a ser valorizado, entendido e pesquisado também na
Educação de Jovens e Adultos. Esse público, cada vez mais exposto às influências do
volume de informações geradas todos os dias e veiculadas por diferentes meios,
também constrói suas opiniões, pontos de vista e percepções da realidade, inclusive
sobre o conhecimento científico, no dia a dia de uma sociedade que está imersa nesse
cenário. Saber manejar essas informações, ter um ponto de vista pessoal embasado em
fontes confiáveis e buscar saber mais sobre o que se conhece pouco, são habilidades que
a escola também pode ajudar a desenvolver para colaborar na emancipação de seus
estudantes, valorizando o conhecimento científico tão presente no dia a dia e em
sociedade.
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5 CONCLUSÃO
Este artigo teve por objetivo identificar pesquisas sobre práticas pedagógicas de
sucesso e os principais desafios encontrados para o ensino de Ciências e Biologia na EJA.
Nossa intenção foi apresentar características de práticas de ensino em Ciências e Biologia
na EJA visando a ampliar a compreensão da própria comunidade científica sobre a
importância dessas práticas, também nesta faixa de escolaridade.
Sob o ponto de vista histórico, é possível compreender a identidade dos sujeitos
da Educação de Jovens e Adultos que consolidaram essa modalidade ao longo da
História. No passado e no presente, a modalidade enfrenta diversas modificações que
cada novo governo impõe, sendo constituída por um contexto secular de desigualdade e
exclusão, visto que há sempre um discurso político-eleitoral por trás de cada lançamento
de programa educacional em nosso país.
A multiplicidade de modalidades de trabalho que têm escolhido a EJA como
campo de pesquisa demonstra o quão necessárias são as socializações de experiências
que permitam aprimorar e avançar no ensino de Ciências e Biologia para esta modalidade
de ensino.
Por meio da análise dos artigos e pesquisas, em cada categoria, nota-se que os
maiores desafios encontrados pelos professores foram desenvolver modelos
pedagógicos diferenciados que identifiquem a diversidade desse público e suas
especificidades referentes às diferentes faixas etárias, perfis e situações de vida dos
educandos que podem também impactar no ensino e na aprendizagem em Ciências. É
possível inferir também que o caminho para o sucesso na aplicação dessas práticas deve
priorizar a voz dos alunos em suas práticas e nos currículos.
Por fim, torna-se relevante destacar a importância do papel do educador, de
modo que sua prática docente seja capaz de despertar em seus educandos a sua
transformação em cidadãos críticos e reflexivos também a partir do ensino de Ciências e
Biologia, dando-lhes as condições necessárias para compreender o espaço escolar como
um ambiente de trocas de experiências e saberes que contribuem para a sua melhoria de
vida e para a sua emancipação social.
Esperamos que este trabalho inspire pesquisas vindouras, para que possam
ampliar propostas, práticas e ações na formação científica de jovens e adultos, tendo
sempre como foco a emancipação do sujeito, a tomada de consciência para que este
público tome para si o conhecimento científico e que sintam-se reconhecidos nele e o
ajude também a avançar, nas mais diversas esferas sociais.
[ 46 ]
EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: 2317-1839
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RESUMO
Este relato de experiência tem por objetivo geral apresentar considerações sobre uma
atividade proposta pelo Produto Educacional “Proeja em pauta: uma proposta de
formação continuada de professores”, da pesquisa de mestrado intitulada “Ciclos
dialógicos: fundamentos e perspectivas para implementação de um curso do Proeja no
IFSP”, do Programa de Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica em
rede nacional (ProfEPT). Tratou-se de um encontro entre o professor Miguel Gonzalez
Arroyo e os professores do IFSP, que teve como assunto central da discussão a educação
que deve ser ofertada aos jovens e adultos oriundos da classe trabalhadora. Dessa
maneira, discutiu-se, entre outras questões, quem são os sujeitos da Educação de Jovens
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e Adultos (EJA) a partir da concepção freiriana de sujeito, a importância da cultura
atrelada aos conteúdos escolares, a necessidade de reformular os currículos da EJA, de
modo que atendam às especificidades dos educandos e educandas oriundos/as da classe
trabalhadora, a urgência em superar o olhar escolarizado sobre o/a estudante
trabalhador/a e as concepções de educação popular. Essa prática visou a ampliar a
compreensão do campo da EJA na perspectiva da educação emancipadora. Concluímos, a
partir das reflexões apresentadas, que as concepções conservadoras de educação já não
suprem as necessidades e direitos educacionais de nossos tempos, sendo necessário o
desenvolvimento de práticas educativas mais justas e assertivas, para a garantia da
educação dos/as trabalhadores/as que retornam às escolas pela EJA.
ABSTRACT
This experience report has the general objective of presenting considerations about an
activity proposed by the Educational Product (title) of the master's research (title) of the
Professional Master's Program in Professional and Technological Education on a national
network (ProfEPT). It was a meeting among teacher Miguel Gonzalez Arroyo and teachers
(institution), whose central subject of discussion was the education that should be
offered to young people and adults from the working-class. In this way, it was discussed,
among other issues, who are the subjects of Youth People and Adult Education (EJA)
from the Freirean concept of subject, the importance of culture linked to school contents,
the need to reformulate the EJA's curricula from so that they meet the specificities of
students from the working class, the urgency of overcoming the schooled view of the
working student, and the conceptions of popular education. This practice aimed to
broaden the understanding of the field of EJA in the perspective of emancipatory
education. We conclude, from the reflections presented, that the conservative
conceptions of education no longer supply the educational needs and rights of our times,
being necessary the development of more just and assertive educational practices, to
guarantee the education of the workers who return to schools through EJA.
Keywords: Youth people and adult education. Emancipatory education. Educational
practice.
RESUMEN
Este relato de experiencia tiene como objetivo general presentar consideraciones sobre
una actividad propuesta por el Producto Educativo (título) de la investigación de maestría
(título) del Programa de Maestría Profesional en Educación Profesional y Tecnológica en
red nacional (ProfEPT). Fue un encuentro entre el docente Miguel González Arroyo y
docentes (institución), cuyo tema central de discusión fue la educación que se debe
ofrecer a los jóvenes y adultos de la clase trabajadora. De este modo, se discutió, entre
otros temas, quiénes son los sujetos de la Educación de Jóvenes y Adultos (EJA) desde el
concepto freireano de sujeto, la importancia de la cultura ligada a los contenidos
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escolares, la necesidad de reformular los currículos de la EJA a partir de que atienden las
especificidades de los estudiantes de la clase obrera, la urgencia de superar la visión
escolarizada del estudiante trabajador y las concepciones de la educación popular. Esta
práctica tuvo como objetivo ampliar la comprensión del campo de la EJA en la
perspectiva de la educación emancipatoria. Concluimos, de las reflexiones presentadas,
que las concepciones conservadoras de la educación ya no suplen las necesidades y
derechos educativos de nuestro tiempo, siendo necesario el desarrollo de prácticas
educativas más justas y asertivas, para garantizar la educación de los trabajadores que
regresan a las escuelas a través de EJA.
Palabras-clave: Educación de jóvenes y adultos. Educación emancipadora. Práctica
educativa.
1 INTRODUÇÃO
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Infelizmente, o golpe militar de 1964 extinguiu o PNAA, pois era um programa de
transformação social, e houve o exílio de Paulo Freire. A partir de então, a educação de
adultos passou a ser ofertada por meio de programas assistencialistas e conservadores,
a exemplo do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) nos anos 1970, cujo
objetivo, segundo Niskier (1989), era preparar mão-de-obra para o mercado. Essa
educação de caráter tecnicista estendeu-se até 1985 (STRELHOW, 2010, p. 37).
A metodologia de ensino de Paulo Freire e o MOBRAL baseiam-se em filosofias e
metodologias totalmente opostas, pois, enquanto o primeiro procura partir dos
conhecimentos prévios dos alunos, levando em consideração suas experiências de vida,
suas particularidades e, a partir destes pontos, promover o trabalho com os conteúdos
de ensino, no segundo, houve uma massificação e imposição dos conteúdos, sem atentar
às diferenças regionais e singularidades dos alunos (HORIGUTI, 2009). Tais discrepâncias
metodológicas desnudam o antagonismo desses dois projetos de EJA: o freiriano, que
busca uma educação libertadora, intencionando no diálogo com os trabalhadores uma
consciência de contexto social e possível reconfiguração de “lugar no Mundo”, em
oposição à educação funcional, em que apenas treinava-se mão de obra útil ao projeto de
desenvolvimento nacional dependente e restringia o ato de alfabetizar ao ensino da
leitura e escrita, conforme destaca Mumbach (2020). Com a ditadura civil-militar, os
desdobramentos dessa tensão foram abafados, mas não extintos.
A Constituição Federal de 1988 trouxe, em seu artigo 205, a ampliação do dever
do Estado para a EJA, quando definiu a obrigatoriedade e gratuidade do ensino
fundamental para toda a população:
Já o artigo 37 da Lei nº 9394/96 explicita que a EJA era destinada àqueles que
não tiveram acesso ou oportunidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade
própria, deixando claro, assim, o caráter inclusivo e compensatório dessa modalidade de
educação (BRASIL, 1996).
Observamos que, com a Constituição de 1988, a EJA começou a tomar, de fato,
novos rumos. A partir do ano de 2003, sob um novo governo, criou-se o Programa Brasil
Alfabetizado que, de acordo com Lopes e Souza (2005), foi lançado para cumprir a meta
de superar o analfabetismo entre jovens e adultos e, por meio do qual, o Ministério da
Educação (MEC) contribuiria com órgãos públicos estaduais e municipais, instituições de
ensino superior e organizações sem fins lucrativos que desenvolvessem ações de
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alfabetização. Na sequência, em 2005, por meio do Decreto 5.478 de 24 de junho, foi
criado o Programa de Integração de Educação Profissional ao Ensino Médio na
Modalidade Educação de Jovens e Adultos (Proeja) e implantado na Rede Federal de
Educação Profissional e Tecnológica – RFEPT (BRASIL, 2005). O Proeja representa um
grande marco para a Educação de Jovens e Adultos no Brasil ao se constituir uma
proposta de política de formação integral para os trabalhadores.
Segundo a Lei 11.892/2008 (BRASIL, 2008), que institui a rede federal de
educação, no seu artigo 7º, são objetivos dos Institutos Federais (IFs) ofertar educação
profissional técnica de nível médio, prioritariamente na forma de cursos integrados, para
os concluintes do Ensino Fundamental (EF) e para o público de Educação de Jovens e
Adultos (EJA). Além disso, o Decreto nº 5.478/2005, que institui o Proeja foi ampliado
pelo Decreto nº 5.840/2006 (BRASIL, 2006), o qual, por sua vez, obriga os Institutos
Federais a destinar 10% do total de vagas para os cursos integrados de Educação
Profissional (EP) em nível médio na modalidade Educação para Jovens e Adultos (EJA).
Dentre os pesquisadores que se dedicam ao estudo da Educação de Jovens e
Adultos (EJA) no Brasil, destacam-se as publicações e produção do professor da
Universidade Federal de Minas Gerais, Miguel Gonzalez Arroyo, cujos trabalhos
pautam-se na visão humanista e dialogam com a concepção de educação libertadora de
Paulo Freire.
Este relato, portanto, objetiva partilhar uma fala do professor Miguel Arroyo
dirigida, especialmente, a docentes do IFSP ão sobre a centralidade dos
sujeitos/estudantes da educação de jovens e adultos (EJA) integrada à educação
profissional e tecnológica (EPT), bem como sobre suas condições existenciais e materiais.
Nesta reflexão, também ampliamos conceitos e categorias que aparecem na fala de
Arroyo e nos permitem compreender as especificidades desta modalidade de educação
na perspectiva emancipadora.
Além desta introdução e breve análise histórica, o presente texto apresenta, a
partir da fala do Professor Miguel Gonzalez Arroyo e de outros referenciais que têm
investigado a EJA no Brasil: (i) o contexto atual marcado por ataques à educação em
todas as suas modalidades, à cultura e às ciências humanas em especial; (ii) caminhos
para a educação dos sujeitos da EJA, centralizando a compreensão dos sujeitos, homens
e mulheres e suas histórias de vida, enquanto trabalhadores-estudantes; e (iii)
apontamentos para superação de concepções conservadoras da educação de jovens e
adultos no Brasil.
A seguir, apresentamos reflexões sobre as falas do professor Miguel Arroyo em
diálogo com os professores do IFSP durante um encontro remoto ocorrido em abril de
2021, visto que se enfrentava ainda o distanciamento social devido à Covid-19, como uma
atividade proposta pelo Produto Educacional “Proeja em pauta: uma proposta de
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formação continuada de professores”, da pesquisa de mestrado intitulada “Ciclos
dialógicos: fundamentos e perspectivas para implementação de um curso do Proeja no
IFSP”, do Programa de Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica em
rede nacional (ProfEPT).
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dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade. Vai
humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o
fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura (FREIRE,
2006, p. 51, grifo nosso).
Nesse ensejo, o professor nos convidou a refletir, dentre outras questões, por
que a cultura, em tempos de “pandemias políticas” e estado de exceção, é tão atacada e
deixada de lado, revelando que a cultura incomoda mais que o conhecimento científico,
por isso, as ciências humanas e a cultura, por tratarem com mais realismo os seres
humanos, são as mais afetadas negativamente. As ciências exatas e tecnológicas, por
outro lado, são bem-vindas ao desenvolvimento tecnológico, para a acumulação de mais
capital.
Ainda sobre o tema do momento dialógico entre educadores da Rede Federal,
bem como as concepções de educação e de sujeito apropriadas à EJA, o professor Arroyo
procurou destacar a educação de jovens e adultos e a concepção de educação mais
próxima de jovens e adultos trabalhadores, que vêm de passagens humanas e inumanas,
tratando-se aqui o termo “inumano” (ARROYO, 2017) de traduzir trajetórias que esses
trabalhadores percorrem até chegarem ou retornarem à escola pela EJA, que são
marcadas pela desigualdade social.
Se, antes da pandemia, já havia milhares de “trajetórias inumanas”, a crise
sanitária, causada principalmente pelo momento pandêmico, agravou ainda mais essa
situação, gerando uma realidade extrema, a qual exige que nós, educadores, repensemos
os currículos simplórios que não conseguem corresponder à nossa realidade. Para o
professor Arroyo, primeiro, precisamos pensar sobre que educação oferecer, segundo, é
necessário refletir sobre a formação docente para atuar na EJA nos Institutos Federais e,
principalmente, sobre uma organização curricular que garanta o direito à educação de
jovens e adultos no IFSP.
A respeito do conceito de educação, o professor Arroyo nos convida a centralizar
o olhar sobre os sujeitos, pois, normalmente, a visão dos envolvidos na educação
centraliza-se no currículo, na organização, no tempo e nos espaços e, raramente,
pensa-se nos sujeitos, homens e mulheres, seres humanos. E quando se trata de EJA,
entender quem são esses adultos, que passagens humanas e inumanas eles carregam, é
fundamental. A educação é uma relação de sujeitos, não é uma relação, nem sequer de
conhecimentos, nem de metodologias, nem de atividades, mas uma relação de sujeitos.
Quando falamos em uma formação de jovens adultos, em passagens humanas e
inumanas, estamos falando de sujeitos, e este é o ponto fundamental. Podemos sair dos
cursos de licenciaturas dominando o que ensinar, como ensinar, como aprovar e como
reprovar; tudo isso faz parte da formação que recebemos, todavia, pouco discutimos a
respeito dos sujeitos com os quais vamos trabalhar, e este é um ponto que merece nossa
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atenção especial, alerta Arroyo, questionando-nos: quem são estes sujeitos jovens e
adultos que chegam ao IFSP? Como vemos esses sujeitos? Será que os vemos? A
tendência é não nos preocuparmos com isso, mas sim em dominar o que ensinamos,
como aprovamos e reprovamos. Esta questão constitui uma problemática muito séria,
inclusive na hora de organizar os currículos.
Segundo Arroyo, nós, educadores, estamos olhando mais para os educandos e
tentando nos aproximar deles, mas ainda sob um olhar escolarizado. Inclusive, é muito
frequente enxergar os jovens e adultos nas nossas escolas com esse olhar, tal como as
próprias diretrizes curriculares da EJA insistem. Entretanto, precisamos superar esse
olhar escolarizado, se queremos encontrar o caminho para a educação da EJA. Vencer
esse olhar escolarizado significa compreender a fundo quem são esses sujeitos que,
geralmente, vêm das periferias, acordam muito cedo, dependem do transporte público,
pegam mais de uma condução para conseguir chegar à escola, a EJA é a última jornada
antes de voltarem tarde da noite para casa depois de um dia de trabalho. Arroyo enfatiza
ainda que, não apenas moram na periferia, mas são tratados como periféricos pelas
estruturas sociais de poder, de economia e até de educação. Estão na periferia da
educação como reprovados, como mulheres negras pobres, empregadas domésticas,
babás, esta é a realidade desses trabalhadores e trabalhadoras. Os espaços são
produtores não só de diferenças espaciais, são produtores de diferenças sociais, raciais,
produtores de diferentes coletivos e são eles (os estudantes da EJA) que chegam nas
escolas como periféricos.
O professor Arroyo aponta que Paulo Freire pode nos auxiliar a superar esse
olhar escolarizado se observarmos que ele não se refere a jovens e adultos sem a
educação básica, como “analfabetos”, mas como “oprimidos”. E esclarece que, os
oprimidos não são, para Paulo Freire, indivíduos isolados; para ele, os oprimidos são
coletivos, sujeitos sociais, raciais, de classe, de gênero, e segregados como sujeitos
coletivos, eles chegam à escola sabendo e tendo consciência disso. Para Arroyo, a nossa
educação trabalha cada aluno como se fosse uma “ilha”, e nós somos educadores de
coletivos. Assim, também devemos nos identificar, nós educadores, como coletivos.
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perdemos o estado de direito, onde cada um é por si e o diabo por todos.
Formação técnica e profissional é direito de todo trabalhador e dever do
Estado (informação verbal, ARROYO, 2021).
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opressão como sofrimento, um sofrimento humano, um sofrimento
social e um sofrimento político (informação verbal, ARROYO, 2021).
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muitos operários não haviam sequer concluído a educação básica, foi iniciada uma
parceria entre a escola sindical e a prefeitura para se pensar como educar esses jovens e
adultos trabalhadores. Assim, surgiu um projeto que rendeu bons frutos e constatou que
a EJA sozinha não é suficiente, que precisamos de parcerias, de estudos que nos rendam
dados para nos orientar como devemos fazer a educação desses trabalhadores.
A escola não dá conta sozinha, temos que nos articular para essa
formação de jovens e adultos trabalhadores, incluindo até os
movimentos sociais. Nesse projeto, a forma de organizar as turmas foi
diferente, rompendo com o modelo tradicional. Quando o aluno chegava
para a EJA, não se perguntava a ele em que ano havia parado de estudar,
mas sim onde ele trabalhava; essa é a pergunta adequada, uma vez que
todos são trabalhadores que vêm do trabalho para a escola. Assim, foi
possível descobrir os diversos coletivos de jovens e adultos que
trabalhavam na mesma função, como pedreiros, serralheiros, manicures,
cabeleireiras, costureiras, por exemplo, e, dessa forma, aproximar esses
coletivos. Então, as turmas eram formadas por alunos que tinham
trabalhos semelhantes, sendo colocados dois professores trabalhando
com cada coletivo. Esses professores faziam com que os alunos
narrassem suas vivências de trabalho, suas dificuldades e esperanças de
mudar para uma situação melhor, mais favorável. A partir dessas
narrativas é que os temas teóricos a serem trabalhados iam sendo
construídos e, assim, entravam as diversas áreas do conhecimento nos
currículos, ou seja, partindo das próprias necessidades dos alunos, do que
eles precisavam aprender para se desenvolverem em suas profissões
(informação verbal, ARROYO, 2021).
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teoria, pois: “Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é
amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu
caráter formador”. (FREIRE, 1996, p. 33).
Ainda ao partilhar essa experiência, o professor Arroyo insistia que é urgente
romper com a estrutura curricular tradicional para a EJA, que reproduz a mesma
organização da escola, tratando os estudantes como “ilhas”.
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emancipação social e engajada na superação de todas as formas de opressão que negam
a condição humana de ser mais, inclusive aquelas implícitas nos projetos educacionais
que conformam a dualidade estrutural que acompanha sistemas de ensino que separam
a formação técnica/profissional da formação geral humanística.
2 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para Silva (2018), falar sobre o Proeja exige, antes de tudo, uma reflexão sobre o
que é a EJA e sobre quem são os seus sujeitos, compreendendo que os sujeitos da EJA
são aqueles que agem, que transformam, participam e produzem as suas histórias.
Portanto, esses sujeitos são, além dos educandos, os educadores e pesquisadores que
vêm, há vários anos, estudando essa temática. Dessa forma, pensamos que, esse
encontro entre os docentes do IFSP com o professor Miguel Arroyo constituiu um ponto
de partida para reflexões a respeito de uma modalidade tão complexa e desafiadora para
a rede federal de ensino. E, assim como defende Moll (2017), um dos passos para
democratizar a educação é a democratização do debate, não apenas de seu acesso, tal
como este relato propõe.
O diálogo de Arroyo com Paulo Freire é mantido em toda a discussão sobre a
questão da educação específica para os adultos trabalhadores na perspectiva
emancipatória e libertadora, conforme a pedagogia do oprimido, que defende a educação
em diálogo com a realidade de vida de seus educandos, especialmente, quando estes são
trabalhadores expropriados de seus direitos que buscam na educação uma afirmação de
cidadania e melhores condições para existirem no mundo do trabalho.
Reconhecemos, nesta reflexão, que as concepções conservadoras de educação
não conseguem atender às demandas educacionais de nossos tempos e procuram
reafirmar os modelos educacionais tendo como referência as necessidades imediatas do
mercado, das políticas neoliberais hegemônicas (LAVAL, 2019). Tais concepções ainda
persistem entranhadas em nossa mentalidade de educadores da EJA e dificultam as
mudanças indispensáveis ao desenvolvimento de práticas educacionais, mais justas e
assertivas para a garantia da educação dos trabalhadores, jovens e adultos que tiveram
negados os seus direitos de escolarização.
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históricos e sociais. In: Congresso nacional de educação - EDUCERE, 12., Curitiba. Anais [...].
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ARROYO, Miguel Gonzalez. Imagens Quebradas: trajetórias e tempos de alunos e mestres.
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BEISEGEL, Celso Rui. Estado e educação popular: um estudo sobre a educação de adultos. São
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Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). Disponível em:
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FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
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HORIGUTI, Angela Curcio. Do MOBRAL ao PROEJA: conhecendo e compreendendo as
propostas pedagógicas. Bento Gonçalves, 2009. 25 p. Trabalho de Conclusão (Especialização)
– Curso de Especialização em Educação Profissional integrada à Educação Básica na
Modalidade Educação de Jovens e Adultos, Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre (RS), 2009.
LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: neoliberalismo em ataque ao ensino público.
São Paulo: Boitempo, 2019. 326 p.
LOPES, Selva Paraguassu; SOUZA, Luzia Silva. EJA: uma educação possível ou mera
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EJA em Debate | Ano 11, n. 19, JAN. /JUN. 2022 | ISSN: ISSN: 2317-1839
Seção: Políticas Públicas | Artigo de revisão | DOI:
https://doi.org/10.35700/2317-1839.2022.v11n19.3265
RESUMO
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possibilitando a ampliação de acesso e permanência de jovens e adultos na Educação
Básica.
Palavras-chave: Educação de Jovens e Adultos. Educação Profissional. PROEJA.
ABSTRACT
The aim of this study is to present a reflection on Youth and Adult Education, analyzing
its aspects, challenges and its relationship with the history of education, in which the
educator Paulo Freire appears as a reference. In this context, it is worth mentioning the
creation of the Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a
Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (National Program for
Integration of Professional Education with Basic Education in the Youth and Adult
Education Modality), which constituted an educational policy with the aim to integrate
professional education with high school in the EJA modality. To achieve the objectives
this study pursues, a qualitative study was carried out based on the review of literature
of several authors related to the subject, which allowed us to conclude that youth and
adults education constitutes as a guarantee of access to education, enabling the
expansion of access and permanence of young people and adults in Basic Education.
Keywords: Youth and Adult Education. Professional Education. EJA.
RESUMEN
Este estudio presenta una reflexión sobre la educación de jóvenes y adultos, analizando
sus aspectos, desafíos y su relación con la historia de la educación, en la que el educador
Paulo Freire aparece como referencia. En este contexto, cabe mencionar la creación del
Programa Nacional para la Integración de la Educación Profesional con la Educación
Básica en la Modalidad de Educación de Jóvenes y Adultos, que constituyó una política
educativa con la propuesta de integrar la educación profesional con la educación
secundaria, en la modalidad de educación de jóvenes y adultos. Para lograr los objetivos
propuestos se realizó un estudio cualitativo a partir de una revisión bibliográfica de
varios autores relacionados con la temática, lo que permitió concluir que la educación de
jóvenes y adultos constituye una garantía de acceso a la educación, posibilitando la
expansión de ingreso y permanencia de jóvenes y adultos en la Educación Básica.
Palabras-clave: Educación de jóvenes y adultos. Educación profesional. PROEJA.
1 INTRODUÇÃO
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil parece ser um fato
contemporâneo, porém, esse processo educativo teve início na época de sua colonização.
Desde sua implantação, vem passando por vários momentos de grande significado
político-social e se mostrou, até hoje, um sistema resistente e significativo. Nesse sentido,
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a trajetória da EJA no Brasil foi marcada por muitas transformações, demonstrando estar
diretamente relacionada às mudanças sociais, políticas e econômicas que caracterizam
cada período da história.
Nessas mudanças e transformações, emerge a necessidade de integrar a
educação profissional com o ensino médio na modalidade de Educação de Jovens e
Adultos, sendo assim criado o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional
com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). O
referido programa, inicialmente, restringia-se às Instituições Federais de Educação
Tecnológica e ao nível médio de ensino.
Conforme enfatiza Pacheco (2015), o contexto dos Institutos Federais (IFs),
apresentam modelo inovador em termos de proposta político-pedagógica referente à
educação de jovens e adultos. Assim, em seus documentos legais, apresenta como
objetivo centrado na formação plena dos sujeitos, os quais, até então, excluídos dos
sistemas de ensino. Além disso, proporciona uma formação contextualizada, que abrange
conhecimentos, princípios e valores potencializando a ação humana na busca de
caminhos de vida mais dignos.
Sendo assim, cabe destacar que essa nova concepção, focada na formação
omnilateral, propõe profundas mudanças, abrindo oportunidades para jovens e adultos
provenientes da classe trabalhadora. Neste viés, ressaltamos:
2 METODOLOGIA
Para a realização desta pesquisa, foi utilizada a metodologia de abordagem
qualitativa, uma vez que, “para se realizar uma pesquisa é preciso promover o confronto
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entre os dados, as evidências, as informações coletadas sobre determinado assunto e
conhecimento teórico a respeito dele” (LÜDKE E ANDRÉ, 1986, p. 1-2).
A pesquisa foi realizada de maneira exploratória, por meio de consultas de
caráter qualitativo, através de revisão bibliográfica de vários autores. A temática
proposta é desenvolvida abordando as seguintes questões: a configuração do campo da
EJA, a sua história e memórias, o pensamento de Paulo Freire e a relação do PROEJA com
a Educação Profissional e Tecnológica.
O presente trabalho emerge da etapa inicial, vinculada à pesquisa de dissertação
de mestrado em Educação Profissional em Rede PROFEPT – polo Jaguari, com a temática
voltada para o papel social das políticas públicas educacionais no IFFar – câmpus São
Vicente do Sul, a partir de um olhar sobre o PROEJA.
3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
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3.2 História e memórias
Para melhor compreendermos o presente da EJA, é preciso conhecer a sua
história. A EJA se manifesta no Brasil desde o período de sua colonização com os jesuítas
que se dedicavam a alfabetizar (catequizar) crianças indígenas e índios adultos.
Conforme Fávero e Freitas (2011) a função supletiva foi assumida a partir de 1947 através
da Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos (CEAA), organizada pelo Ministério
da Educação e Saúde (MES), em que os alunos analfabetos eram atendidos em classes de
emergência, designadas como de ensino supletivo.
Já na década de 1960, com a promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases
da Educação Nacional, em 1961, e a aprovação do Plano Nacional de Educação, em 1962,
criaram-se condições para novas experiências de educação de adultos. Foi neste período
que Paulo Freire apresentou uma abordagem diferenciada numa proposta de
alfabetização de adultos, considerando o educando como centro do processo de ensino e
aprendizagem.
A década de 1970, até meados dos anos 1980 foi marcada por duas ações
complementares, embora pouco articuladas: a Lei nº 5692/71, que criou os ensinos de 1º
e 2º Graus e sistematizou o Ensino Supletivo, em termos de exames e cursos, e o
Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL).
Nos anos 1980, foi implantada a Fundação Nacional para Educação de Jovens e
Adultos (Fundação Educar), vinculada ao Ministério da Educação. Em 1988 a
promulgação da nova Constituição Federal previa o término do MOBRAL, a criação da
Fundação Educar.
Nos anos 1990, aconteceu a extinção da Fundação Educar, que mantinha apoio
financeiro e técnico às empresas governamentais, entidades civis e empresas, gerando
um enorme vazio na EJA. Nessa perspectiva, alguns estados e municípios assumiram a
responsabilidade em oferecer programas de EJA.
Cabe destacar, no entanto, que esse período foi marcado pela promulgação da
nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº. 9.394/96), que reafirmava o
direito dos jovens e adultos trabalhadores ao ensino básico e ao dever público de sua
oferta gratuita. A partir da Resolução CNE/CEB Nº 1/2000, são estabelecidas as Diretrizes
Curriculares Nacionais para a EJA a serem obrigatoriamente observadas na oferta e na
estrutura dos componentes curriculares de ensino fundamental e médio.
O Plano Nacional de Educação (PNE) instituído pela Lei nº 10.172 de 2001 incluiu a
modalidade EJA nas formas de financiamento da Educação Básica, apresentando como
metas: a erradicação do analfabetismo no prazo de dez anos e assegurar a oferta de EJA
para o Ensino Fundamental.
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A partir de 2002, o governo federal criou o Exame Nacional para Certificação de
Competências de Jovens e Adultos (ENCEJA), por meio do qual pôde, mediante convênio
com estados e municípios, substituí-los na realização de exames supletivos.
Em 2003, o Governo Federal criou a Secretaria Extraordinária do Analfabetismo,
lançando então o “Programa Brasil Alfabetizado”. Nele, estavam incluídos o Projeto Escola
de Fábrica, o PROJOVEM e o Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino
Médio para Jovens e Adultos (PROEJA), que perpassou por vários redesenhos e
prolonga-se até os dias atuais.
Inicialmente, o PROEJA foi instituído com a intenção de atender a uma demanda
de jovens e adultos por meio da educação profissional técnica de nível médio. De acordo
com o Documento Base do PROEJA, ele constitui-se em um desafio político e pedagógico
para todos aqueles que desejam transformar esse país dentro de uma perspectiva de
desenvolvimento social (BRASIL, 2007). O documento também evidencia a importância
da formação humana dos sujeitos envolvidos, isto é, dos jovens e adultos aos quais se
destinam a implementação desses programas. Assim, foi nesse período que se
constituíram as bases para que o PROEJA fosse inserido no contexto educacional do
Brasil como uma ação permanente (BRASIL, 2007).
A Educação de Jovens e Adultos alcança o século XXI com importante desafio de
superação de velhas práticas e concepções equivocadas. As relações que se
estabeleceram no Brasil impactaram de forma diferenciada na EJA, conforme os arranjos
políticos nos municípios, nos estados e também no governo federal.
Nessa perspectiva, Freire (1996) afirma que o sistema educativo adotado e as
Políticas Públicas direcionadas para a educação são elementos que demonstram a
preocupação do país com o seu futuro, pois somente o ensino público gratuito, inclusivo
e de qualidade pode construir uma sociedade em que as diferenças socioculturais e
socioeconômicas não sejam tão díspares.
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proposta em que a concepção da educação surgiria como prática da liberdade, a partir
dos próprios oprimidos. Nas palavras de Freire (1996), é de fundamental importância a
dimensão cultural no processo de transformação, pois a educação é mais do que uma
instrução; para ser transformadora, deve enraizar-se na cultura dos povos.
Na obra “Pedagogia da Autonomia'', o autor ressalta os saberes necessários à
prática educativa, trazendo uma reflexão a respeito da formação de docentes, faz uma
análise de saberes fundamentais, enumerados através de exigências de um ensino em
favor da autonomia do educando.
Em “Pedagogia da Esperança”, faz uma reflexão sobre “Pedagogia do Oprimido”,
analisando suas experiências pedagógicas e procurando reacender a crença no ser
humano oprimido, como opção de lutar contra sua opressão em favor da vida e da
liberdade.
Freire coordenou projetos de alfabetização de jovens e adultos, nos quais, com
sua metodologia de ensino, recomendava que não bastava ler e escrever mas possibilitar
a continuidade dos estudos, tomando como base o contexto social e cultural do aluno,
sua realidade de vida, de modo a permitir que os estudantes desenvolvessem maior
autonomia e senso crítico. Apoiando-se na concepção de educação freiriana, a qual está
voltada para a conscientização de que se faz necessário atingir esses sujeitos excluídos, e
propiciar a leitura do mundo e a da palavra, a partir da sua experiência/vivência, de sua
cultura, de sua história. Assim, Freire (1987, p. 17) defende:
Nesse sentido, a EJA, deve buscar e oportunizar uma educação com prática
libertadora para os sujeitos inseridos, ao mesmo tempo, inserindo-os no mundo e sendo
desafiados ao ensino contextualizado, ao contrário de uma educação bancária, a qual,
‘deposita’ os conteúdos, de maneira fragmentada. Segundo Freire, "não há saber mais ou
menos; há saberes diferentes” (FREIRE, 1991, p. 49).
Diante do exposto, Freire torna-se uma referência na Educação de Jovens e
Adultos, pois apresenta a educação pensada de maneira emancipatória, colocando vários
argumentos em favor de um ensino mais democrático entre educadores e educandos, de
maneira a defender uma pedagogia fundamentada na ética, no respeito, na dignidade e
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na autonomia, reafirmando a opção da educação para a humanização, para a
emancipação e libertação, uma vez que a educação é concebida como uma forma de
intervenção no mundo.
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científico, cultural, político e profissional como condições necessárias para o efetivo
exercício da cidadania (BRASIL, 2007).
O PROEJA busca o resgate e reinserção no sistema escolar brasileiro de jovens e
adultos, possibilitando-lhes o acesso à educação e à formação profissional numa
perspectiva de formação integral. Pode ser considerado mais que um projeto
educacional, pois é um importante instrumento de resgate da cidadania de uma grande
parcela de brasileiros em grande parte excluídos do sistema escolar no Ensino
Fundamental “regular”. Apropriando-se de Freire (2007, p. 47), compreende-se que:
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refletirmos acerca da EJA, tendo em vista a necessidade de compreendermos as
transformações, aspectos e desafios nas políticas educacionais voltadas para a área de
educação de jovens e adultos, que chegam à atualidade sem superar a problemática do
analfabetismo.
Cabe ressaltar que relacionar os conceitos e ideias da EJA no âmbito da
educação profissional e tecnológica (EPT) é bastante relevante, porque nos permite
repensar as possibilidades de novas metodologias e novos comportamentos. Porém,
mesmo constituindo-se uma meta do Plano Nacional de Educação 2014-2024, ampliar a
oferta de EPT, articulada com a educação básica, é um grande desafio ainda a ser
superado.
Na perspectiva de Paulo Freire, entende-se que a alfabetização de jovens e
adultos não é um processo simples de ensinar apenas a leitura e a escrita, não devendo
limitar-se a algo completamente mecânico e de memória. A alfabetização do EJA é um
processo de ensino que deve ser acompanhado do processo de conhecimento e
construção de práticas sociais importantes com o objetivo de conscientizar o sujeito
sobre sua realidade, a fim de transformá-la.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo possibilitou refletir sobre o ensino de EJA, buscando
evidenciar sua importância como um meio para inserir aqueles alunos que foram
impedidos de concluir os estudos quando adolescentes.
Ao realizar uma análise da trajetória da EJA, percebemos que consiste em uma
modalidade de ensino marcada por diversos desafios. Apesar de cada etapa apresentar
características distintas, em todas elas, encontramos em comum o propósito de
recuperar o direito dos jovens e dos adultos à educação.
Assim, tratar sobre a EJA é evidenciar as principais ações voltadas para o acesso
dos jovens e adultos ao sistema escolar. Porém, Machado (2016) enfatiza que a
modalidade não se reduz à escolarização. Sua história na realidade brasileira abarca a
luta pelo direito de acesso, permanência e conclusão da escolarização com qualidade, em
consonância com inúmeras outras lutas: pelos direitos à saúde, ao trabalho, à moradia
digna, à igualdade de gênero, ao respeito às diversidades, dentre tantas outras, que a
configuram como educação ao longo de toda a vida e pela construção de uma sociedade
que, de fato, seja espaço de vivência e convivência de todas e todos.
Percebe-se, outrossim, que ainda há muito que se avançar com relação ao
ensino de EJA, pois ela não se constitui como prioridade na sua efetiva implementação e
continuidade. Sendo assim, para que se atendam às necessidades da EJA é preciso de
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investimentos que favoreçam a continuidade da oferta de estudos e a permanência do
aluno na escola.
Entende-se, portanto, que é importante que uma política pública como o PROEJA
possa contemplar a elevação da escolaridade com profissionalização no sentido de
proporcionar a esse grande número de jovens e adultos o direito à educação básica e
uma formação profissional de qualidade.
Por fim, nesse contexto de possibilidades e desafios, a EJA ainda é uma questão
de luta que precisa ser engajada por todos, pois, apesar de todas as políticas públicas
educacionais desenvolvidas e muitas mudanças nessas últimas décadas, continuamos
com muitas incertezas, consistindo em um capítulo da história da educação que deverá
ser permanentemente reinventado.
REFERÊNCIAS
BRASIL, Decreto Nº 5.478, de 24 de junho de 2005. Institui, no âmbito das instituições federais
de educação tecnológica, o Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino
Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA. Brasília, 2005. Disponível
em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20042006/.../Decreto/D5478.htm. Acesso em:
23 nov. 2019.
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FERREIRA, Liliana Soares. Educação profissional e tecnológica no Rio Grande do Sul. Curitiba:
CRV, 2020.
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FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 31ed. São Paulo:
Paz e Terra, 1996.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 46. .ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LÜDKE, M; ANDRÉ, M.E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU,
1986.
MACHADO, M. M. “A educação de jovens e adultos após 20 vinte anos da Lei nº 9.394, de 1996”.
Revista Retratos da Escola, Brasília, v. 10, n. 19, p. 429- 451 jul./dez. 2016. Disponível em:
http://retratosdaescola.emnuvens.com.br/rde/article/viewFile/687/706, Acesso em
12/10/2020.
MOURA, D.H.; HENRIQUE, A.L.S. PROEJA: Entre desafios e possibilidades. HOLOS, Ano 28, v.2,
Natal: IFRN, 2012.
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Seção: Políticas públicas | Ensaio dissertativo | DOI:
https://doi.org/10.35700/2317-1839.2022.v11n19.3295
RESUMO
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concepção da educação como direito, nas suas relações com as intencionalidades
formativas por trás do direito à educação, defendido por ambas. Lançamos mão de
autores como Duarte (2013), Paranhos (2017), Saviani (2017), Pereira (2006), Costa e
Machado (2017), Kramer (1982), entre outros, para construir as ideias centrais do texto,
apresentando pontos de dissonâncias e concordâncias das duas concepções. Ambas as
concepções defendem o direito à educação e aos conhecimentos sistematizados,
produzidos e acumulados ao longo da atividade humana, entretanto, a concepção
assistencialista-compensatória se orienta por conservadorismos e manutenção das
relações sociais verticalizadas da sociedade, com vias a um projeto formativo contextual.
A concepção da educação como direito se orienta com o objetivo de permitir que o
educando, por meio da apropriação dos conhecimentos sistematizados, desenvolva uma
leitura de mundo para além do aparente. Desse modo, defendemos que tão importante
quanto defender o direito à educação é qualificar a educação defendida, de modo que ela
cumpra o papel de humanização do homem e não de sua alienação.
Palavras-chave: Educação assistencialista-compensatória. Educação como direito.
Educação escolar.
ABSTRACT
The education of young people and adults is marked by traditions, conceptions and
educational paradigms that have guided the pedagogical practices in EJA's classrooms.
Such conceptions are similar in that they defend the right to education, however, the
pre-determined purpose for this right can be guided by hidden and alienating objectives.
In this sense, this text aims to introduce the reader to the theoretical construct of the
compensatory-assistentialist conception of education and the conception of education as
a right, in its relationship with the formative intentions behind the right to education,
defended by both. We launch from authors such as Duarte (2013), Paranhos (2017),
Saviani (2017), Pereira (2006), Costa and Machado (2017), Kramer (1982), among others,
to build the central ideas of the text, presenting points of dissonances and concordances
of the two conceptions. Both conceptions defend the right to education and to
systematized knowledge, produced and accumulated throughout human activity,
however, the compensatory-assistance concept will be guided by conservatism and
maintenance of verticalized social relations in society, with paths towards a contextual
training project. The conception of education as a right will be guided with the objective of
allowing the student, through the appropriation of systematized knowledge, to develop a
reading of the world beyond the apparent. In this way, we demarcate that as important as
defending the right to education is to qualify the defended education, so that it fulfills the
role of humanization of man and not of his alienation.
Keywords: Compensatory assistance. Education as a right. Schooling.
RESUMEN
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obstante, el propósito predeterminado de este derecho puede estar guiado por objetivos
ocultos y alienantes. En este sentido, este texto tiene como objetivo presentar al lector el
constructo teórico de la concepción asistencialista compensatoria de la educación y la
concepción de la educación como un derecho, en sus relaciones con las intenciones
formativas por detrás del derecho a la educación, defendido por ambos. Hemos utilizado
autores como Duarte (2013), Paranhos (2017), Saviani (2017), Pereira (2006), Costa y
Machado (2017), Kramer (1982), entre otros, para construir las ideas centrales del texto,
presentando puntos de disonancias y concordancias de las dos concepciones. Ambas
concepciones defienden el derecho a la educación y al conocimiento sistematizado,
producido y acumulado a lo largo de la actividad humana. Sin embargo, el concepto
asistencial compensatorio estará guiado por el conservadurismo y el mantenimiento de
relaciones sociales verticalizadas en la sociedad, con caminos hacia un proyecto de
formación contextual. La concepción de la educación como derecho se orientará con el
objetivo de permitir al alumno, mediante la apropiación de conocimientos sistematizados,
desarrollar una lectura del mundo más allá de lo aparente. De esta manera, defendemos
que tan importante como defender el derecho a la educación es calificar la educación
defendida, para que cumpla el rol de humanización del hombre y no de su alienación.
Palabras-clave: Asistencia compensatoria. La educación como derecho. Enseñanza.
1 INTRODUÇÃO
A educação de jovens e adultos (EJA), ao longo de sua história, foi permeada por
diversas tradições e concepções de EJA (DI PIERRO, 2017) e paradigmas (ELSAS, 2012) que
moldaram e orientaram as práticas pedagógicas nas salas de aula da modalidade e para
além delas.
A literatura especializada apresenta concordâncias e dissonâncias sobre quantas
e quais seriam essas concepções de EJA, bem como seus respectivos projetos
formativos. Di Pierro (2017) apresenta três tradições e concepções: a educação
compensatória, a educação popular e a educação ao longo da vida. Elsas (2012), por sua
vez, identifica na história da EJA as concepções: “assistencialista, compensatória, o
conceito de educação ao longo da vida e os paradigmas da educação popular” (ELSAS,
2012, p. 6).
Para pensar as concepções de EJA, em espaços escolares, é preciso considerar a
educação que é operacionalizada nesses espaços, ou seja, um processo educativo
pedagogicamente estruturado. Para Saviani (2017), a educação pedagogicamente
estruturada é marcada por três elementos: a filosofia da educação, uma teoria da
educação e os procedimentos de ensino. As concepções de EJA adentram o campo da
filosofia da educação, da finalidade do ato educativo, dos motivos e intenções por trás
delas e, nem sempre, o olhar imediato, para o procedimento de ensino, dará condições ao
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observador de identificar a orientação filosófica de determinada prática. É preciso olhar
as mediações, ater-se mais além do aparente.
As concepções de educação, implícitas ou explícitas, sofrem influência direta do
momento histórico pelo qual a sociedade passa. No período colonial, a educação
firmava-se no campo da caridade e era ofertada com vias à colonização do pensamento;
no período imperial, servia às transformações oriundas da mudança no modo de
produção do feudalismo ao capitalismo; no Brasil república, passa a atender às
demandas de um capitalismo em consolidação (SAVIANI, 2017). Esse acúmulo histórico
de significados e finalidades atribuídos ao fenômeno educativo, contudo, é importante
para compreender o panorama atual da EJA, pois, embora tenha havido rupturas com o
outrora concebido e praticado, há, ainda, elementos que permanecem.
O direito à educação e a necessidade da educação expressam o que chamamos
de concepções de EJA. Ter clareza sobre tais concepções, entretanto, é deveras
importante para se estudar a modalidade, dadas as suas marcas históricas e sua ligação
com a estrutura verticalizada da sociedade. A compreensão do que está por trás das
concepções de EJA permite qualificar algo pelo qual diversos setores da sociedade
organizada lutam: o direito à educação. Entretanto, como mostrado por Saviani (2017) e
Costa e Machado (2017), o sistema produtivo também defende tal direito.
É preciso demarcar, contudo, que o fenômeno educativo se dá em um sistema
de relações de poder e de dominação. Nesse sentido, é preciso compreender as razões
pelas quais um direito é defendido, tanto quanto é preciso qualificar os limites e
possibilidades dessa defesa.
Nas concepções apresentadas por Di Pierro (2017) e Elsas (2012), identificam-se
dois caminhos, que, segundo Fisher (1992), apresentam-se de forma muito contundente
na EJA: o caminho instituinte (que não se consolidou como políticas públicas de
educação), caminho em que se situa a corrente da educação popular, por exemplo, que
admite o caráter emancipador da educação e se distancia da educação enquanto
instituição formada no seio do Estado; e o caminho instituído, no qual se situam as
práticas pedagógicas sistematizadas pelo Estado a fim de “suprir” a não escolarização de
um grupo específico da sociedade: os jovens e adultos.
Tais caminhos, conforme Fisher (1992), apresentam-se de forma antagônica. O
caminho instituído, nascido dos ideais do modo de produção capitalista e da sociedade de
classes, não admite a existência das ideias do caminho instituinte (orientado por um
ideário contra-hegemônico), sobretudo por intencionar uma formação crítico-política.
A educação popular, ao fazer a crítica quanto aos métodos praticados e a defesa
de que se considerasse a pedagogia nascida dos próprios sujeitos, representa, então, um
marco, uma ruptura com a forma da educação até então praticada e dá bases para a
criação de um novo modo de educar os jovens e adultos1.
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A filosofia da educação popular percorreu um caminho oposto à
institucionalização, mesmo que tenha influenciado o caminho instituído da EJA. As
políticas e os programas educacionais que foram criados, a partir de então, procuraram
deixar de tratar o adulto como crianças e lançaram mão de procedimentos pedagógicos
oriundos da educação popular.
Entretanto, mesmo que se tenha mudado a aparência da educação
institucionalizada, a essência permaneceu, de modo que a finalidade formativa não foi
alterada. Incorporou-se somente a primeira parte das ideias da educação popular, a
metodológica, e deixou-se de lado o sentido da formação política desejada pelo
movimento.
Diante do exposto, consideram-se, neste texto, concepções que seguem
caminhos presentes na educação institucionalizada, ou seja, a educação escolar, na qual
concebemos a existência duas concepções distintas: educação
assistencialista-compensatória (EAC) e educação como direito (ED).
Partindo disso, o presente texto é um ensaio que objetiva apresentar: um
construto teórico2 acerca das concepções de EJA presentes na educação escolar; sua
relação com seus projetos formativos; e o lugar que o direito à educação ocupa no centro
dessas concepções.
2 A CONCEPÇÃO ASSISTENCIALISTA-COMPENSATÓRIA
DE EJA
Caracterizar essa concepção, inicialmente, não se apresentou como uma tarefa
fácil. A literatura pesquisada, embora apresente as concepções assistencialista e
compensatória, por vezes as apresenta de forma dissociável, como concepções distintas.
Para Di Pierro (2017), a educação compensatória e a educação ao longo da vida
são concepções distintas. Neste ensaio, contudo, consideramos que são formas
diferentes de se manifestar a mesma concepção. Elsas (2012) aborda a educação
compensatória e o conceito de educação ao longo da vida como uma única concepção,
ideia discutida de forma aprofundada por Ventura (2013).
______________________
1
Os movimentos de educação popular apontavam para a necessidade de se considerar o universo vocabular do
adulto durante o processo de alfabetização e para o abandono de práticas de alfabetização voltadas para crianças e
até então praticadas em salas de aula de adultos.
2
Este texto é desdobramento de dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação
em Ciências e Matemática da Universidade Federal de Goiás.
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Ventura (2013) se propõe a discutir o conceito de educação ao longo da vida
fazendo uma relação com as orientações de organismos internacionais, como UNESCO e
o Banco mundial, “desenvolvidas como resposta à nova materialidade do capitalismo
internacional e suas influências nos debates e nas formulações relativas à educação
básica e profissional de jovens e adultos trabalhadores, no Brasil, na atualidade”
(VENTURA, 2013, p. 1).
Segundo Ventura (2013), ao relacionar as orientações dos organismos
internacionais com o parecer n. 11/2000 CNE/CEB (2000), a função qualificadora da EJA
(uma das três funções da EJA) relaciona-se com o conceito de educação ao longo da vida
no sentido de compensar as necessidades do capitalismo internacional no que tange à
formação de mão de obra. Para a autora, a educação ao longo da vida está ligada à
adaptação do trabalhador às condições e exigências do mercado de trabalho. Para
desenvolver essa ideia, Ventura (2013) se utiliza das ideias de Canário (2003):
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capital exigia” (SILVA, 2020, p. 6). Tais apontamentos demonstram a capacidade do
capital de se apropriar e ressignificar pautas sociais, colocando-as a seu serviço.
A concepção da educação ao longo da vida está em marcos regimentais,
documentos oficiais e orientadores, como o Documento Nacional Preparatório à VI
Conferência Internacional de Educação de Adultos, emitido pela extinta Secretaria de
Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação e
Cultura (MEC). Um dos trechos de tal documento evidencia o claro compromisso com
essa concepção ao dizer que um dos maiores desafios da EJA na atualidade “é o de
avançarmos para uma concepção de aprendizagem ao longo da vida” (BRASIL, 2016, p.
30).
O conceito de educação ao longo da vida, relacionado ao de educação
permanente, dará subsídios para a perpetuação da crueldade empregada pelas práticas
compensatórias, ou seja, a compensação não tem fim. O movimento de alinhamento da
educação ao longo da vida com as demandas do capital fez-nos considerá-lo uma das
formas da educação compensatória.
Antes, contudo, de aprofundar a questão da educação compensatória, cabe
elencar a escolha por apresentar as duas concepções – assistencialista e compensatória
– de forma indissociável, pois admitimos que a educação compensatória é a forma da
educação assistencialista no modo de produção capitalista.
A educação assistencialista, segundo Nóvoa (2009) e Libâneo (2012), demarca
seu lugar na sociedade em função das carências sociais de determinados grupos. A
instituição escolar, nesse sentido, assume o papel de redentora da sociedade, admitindo
como seu papel a “correção” de problemas sociais, como fome, pobreza, maus tratos,
drogas, entre outros (LIBÂNEO, 2012). Tais características são herança da influência de
práticas assistencialistas muito presentes na educação brasileira e na própria
constituição da sociedade.
Pereira (2006) apresenta duas vertentes para as práticas assistencialistas: a
corrente que defende o assistencialismo como forma generosa de apoio aos pobres e
redenção dos detentores das dádivas; e a corrente que acredita na prática assistencialista
como forma de controle social dos excluídos. Entretanto, as duas vertentes apresentadas
pela autora apresentam uma linha muito tênue de dissociabilidade, pois as práticas
caridosas assumem também o sentido de controle social e de dívida.
As duas correntes apresentam dois personagens: o detentor e o receptor de
uma dádiva – nesse caso, a educação. Mesmo a ação assistencialista parte da ideia
cristão de dividir o que tem, e a relação de poder não se dissolve, de modo que o receptor
sempre se sentirá em dívida, o que propicia um controle social. Essa lógica só é superada
se o sujeito, foco do ato educativo, tiver consciência de que o que lhe é dado é seu por
direito.
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Pensando na EJA, as práticas assistencialistas carregam os elementos
apresentados por Pereira (2006): o educando é frágil e se vê na posição de
desfavorecido, que quer “ser alguém na vida”. Ao receber a educação de quem a detém, o
educando terá uma eterna dívida com o doador da dádiva sem, porém, compreender que
o que lhe é dado intenciona sua subalternidade (MACHADO, 2019; ARROYO, 2014). A
modalidade é, então, marcada por uma visão assistencialista que não a enxerga
“enquanto direito a ser garantido, mas [como] ação a ser empreendida e segundo a
voluntariedade de alguns indivíduos ou grupos organizados” (ELSAS, 2012, p. 6).
Tal concepção irá se materializar em um ensino centrado no sujeito e em sua
história de vida sofrida e marginal. A escola assume posição de instituição de assistência
social, em que o objetivo final é a satisfação de necessidades imediatas. A apropriação do
conhecimento, então, assume lugar secundário. Nesse contexto, a educação será
entendida como a satisfação de um sonho, uma conquista individual de quem visa à
obtenção de um diploma. Qualquer coisa que impeça o aluno de atingir esse objetivo será
excluída, inclusive os conhecimentos sistematizados, complexos por natureza (MARTINS,
2016).
As ideias apresentadas por Pereira (2006) encontram seu lugar na organização
da pedagogia brasílica implementada pelos jesuítas ao chegarem ao Brasil. A lógica que
se estabelece na relação educativa entre os jesuítas e os nativos da colônia pauta-se nas
ideias da assistência religiosa e da oferta da luz e da verdade divina aos educandos
(SAVIANI, 2017).
A ética cristã, orientadora das práticas educativas jesuíticas, segundo Pereira
(2006), acredita na caridade como manifestação dos ensinamentos de Deus e como
sinônimo da própria conversão: forma de dividir as bênçãos dadas por Ele com quem
delas necessita, segundo a lógica do “amai o próximo como a ti mesmo”, do “dai o que
recebeis”. As ações caridosas, contudo, se “avaliadas de forma apressada, apresentam-se
como favoráveis ao lado mais frágil – o do pobre – envolvido no processo” (PEREIRA,
2006, p. 2), mas são cruéis, uma vez que relegam a este a posição onde se encontra, mas
de forma eterna, estabelecendo um vínculo de subserviência velada.
Essa ética “é difundida e praticada com intensidade, principalmente nos moldes
assistencialistas, em sociedades que produzem miséria ao mesmo tempo em que
desenvolvem a riqueza e o conforto material (PEREIRA, 2006, p. 3). Em suma, é uma
prática que produz a desigualdade que tentará compensar por meio de ações
assistencialistas.
Saviani (2017), ao apresentar as práticas pedagógicas jesuíticas, permite ao leitor
perceber as ideias do assistencialismo e o poder da educação nos dois primeiros séculos
da colonização. O caráter assistencialista da educação e o discurso da caridade pregado
pelos jesuítas permitiram que houvesse o controle social dos indígenas, que trabalhavam
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sem remuneração e contribuíam para o acúmulo de riqueza pelos religiosos. A relação
entre os jesuítas e os indígenas, em certa medida, assemelha-se à relação estabelecida
entre senhores de terras e pessoas escravizadas, mas de forma diferente: enquanto os
senhores exerciam o controle dos escravizados por meio da força e dos castigos, os
jesuítas o faziam por meio da estruturação da educação e do assistencialismo.
O sucesso da pedagogia jesuítica, segundo Saviani (2017), resultou em acúmulo
de poder e influência na então colônia portuguesa, o que ameaçava o poderio da coroa e
de pequenos comerciantes, que alegavam ser desleal a forma de comércio e acúmulo de
riquezas adotada pelos religiosos – sem pagamento de impostos e com trabalho braçal
executado por indígenas catequizados, resultando em menor custo em relação à
manutenção do sistema escravagista.
A expulsão dos jesuítas em 1759 denota a ruptura com a pedagogia até então
institucionalizada e dava sinais das transformações sociais – e, consequentemente,
pedagógicas – que a sucederiam: se antes o poder dos jesuítas se sustentava na
educação, passando a servir a interesses de ordem macroeconômica.
Pensando na EJA, a partir do exposto, pode-se afirmar que a modalidade
experimenta nuances da educação assistencialista e confessional desde a gênese da
educação brasileira. Costa (2013) afirma que:
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Assim, tem-se um educando marginalizado pela história e estrutura da
sociedade, visto como “pobre e coitado” pelos que o relegaram a essa situação; mas ele
também se identificará como tal, pois esta é a característica mais cruel da educação
assistencialista: a de incutir, de forma convincente, a ideia da subalternização como se
esta não existisse.
Afinal, em que lugar, no universo da concepção assistencialista, a educação
compensatória se situa?
Pelo apanhando teórico realizado, podemos definir a concepção compensatória
de educação como a que se desdobra a partir da consolidação do capitalismo,
reproduzindo as concepções de mundo, de sociedade e de homem desse modo de
produção. Seu principal objetivo é o de manter as relações desiguais da sociedade,
embora a partir de discursos que aparentemente não as explicitem. É a educação
assistencialista com contornos mercantis, uma vez que as características
assistencialistas não são extintas – pelo contrário, se mantêm, mas absorvendo novas
proposituras formativas e formas de se manifestar.
Segundo Trópia (2009), a escola, no capitalismo, tem sua função socialmente
econômica, ou seja, deverá atender às necessidades formativas do modo de produção,
produzindo e formando o homem que, uma vez formado, reproduzirá os ideais daquele.
Entretanto, como ressalta Pereira (2009), há uma intrínseca relação entre a classe
dominante, o assistencialismo e o trabalhador, permeada pela lógica do cristianismo e do
capital.
Para Trópia (2009), a estrutura educativa nascida no seio dos ideais capitalistas
produziria uma educação em que não haveria espaço para crítica, contestação ou
percepção das contradições e da emancipação intelectual dos sujeitos.
A educação compensatória nascida daí, então, terá como objetivo central não a
formação de um sujeito, mas de uma “mão de obra”. O homem, nesse sentido, é
entendido como uma ferramenta, uma engrenagem lubrificada na extensa máquina de
produção capitalista, capaz de estar, o quanto antes, pronta para adentrar no mercado de
trabalho e produzir (em outras palavras, ter sua força de trabalho explorada). O homem,
nessa lógica, é entendido como objeto, não como sujeito do processo.
Segundo Kramer (1982), as pedagogias compensatórias se instalaram no Brasil,
mais incisivamente, a partir de 1975, embora seja possível perceber a elaboração de
programas compensatórios nos governos de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek.
Corrobora a afirmação de Kramer (1982) a institucionalização do Movimento Brasileiro de
Alfabetização (MOBRAL) enquanto política pública do governo militar. A afirmação da
autora encontra lugar na dissertação de mestrado de Silva (2019), intitulada “Você
deveria ter vergonha de viver num país com tantos analfabetos: a campanha publicitária
do MOBRAL na Revista Veja (1970-1975)”.
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A pesquisa realizada por Silva (2019) apresenta elementos que corroboram a
tese deste texto de que há indissociabilidade entre a educação assistencialista e a
compensatória. O MOBRAL, como apresentado pela autora, traz em seu seio as
características das pedagogias da compensação recheadas de ideias assistencialistas –
como o discurso do sujeito (da EJA) incapaz e da caridade cristã – ao mesmo tempo em
que delimita o corpo de conhecimentos que deveriam ser incorporados pelos alunos (ler,
escrever contar e ter uma profissão) aliados à promoção humana e à construção de uma
sociedade harmônica.
O MOBRAL tinha como objetivo erradicar o analfabetismo3, integrar o
alfabetizado à força de trabalho e possibilitar ao alfabetizado uma educação continuada.
A educação continuada, proposta pelo movimento, tinha como marca o fato de
considerar o jovem e adulto não alfabetizado como um ser desarticulado da sociedade e
improdutivo; portanto, a partir dos seus princípios, propunha integrar os sujeitos à força
de trabalho, o que o promoveria enquanto ser humano. O oferecimento de oportunidades
para a promoção humana, contudo, ocorreria através do treinamento para a mão da obra
necessária aos setores de trabalho. Presumia o não alfabetizado como um ser
improdutivo economicamente, eram 18 milhões de improdutivos, aproximadamente 34%
da população. O MOBRAL pretendia “melhorar esses números”, ao passo que intentava
incentivar o desenvolvimento comunitário através da promoção do civismo, da pátria e
do Estado militar, de modo a manter as estruturas de organização do regime (SILVA,
2019).
Nota-se, nessa descrição, a clareza dos ideais assistencialistas, como
apresentados por Pereira (2006), ao mesmo tempo em que as noções da pedagogia da
compensação também se manifestam (KRAMER, 1982). O discurso da pedagogia da
compensação, conforme definida por Kramer (1982), é convincente para os dois lados, o
dos dominantes e o dos dominados. Quanto aos dominantes, tem-se a ideia de garantia
de sua posição por meio de educação operacionalizada aos seus subalternos. Quanto aos
dominados, há a falsa ideia de que seu direito à educação é garantido. O trabalhador, com
jornadas duplas ou triplas, submetido a um trabalho desgastante e explorador, aceitará
de bom grado a educação que lhe fora negada; melhor ainda será se esta vier de forma
simplificada, compensatória da sua rotina desgastante – afinal, abandonar o trabalho
para estudar não é uma possibilidade.
A educação compensatória, firmada na sociedade capitalista, promoverá uma
mudança: surge então o paradigma do acesso. Se a pedagogia elitista era privativa do
acesso dos dominados à educação escolar, a pedagogia liberal parte da ideia de que as
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3
Termo utilizado nas peças publicitárias analisadas na pesquisa de Silva (2019).
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oportunidades devem ser dadas a todos. O sistema passará, então, a defender que todos
têm o “direito à educação”.
O paradigma do acesso se apresentará como um fatalismo social, na medida em
que dá oportunidade a todos, mas confere aos problemas pedagógicos o fator de
patologia; com isso, produz a cultura do individualismo e impossibilita o reconhecimento
do sujeito como parte de uma classe. Tal paradigma não coloca a escola em questão e
produz e incorpora em seu público o discurso da meritocracia (KRAMER, 1982). Segundo
essa concepção,
[...] a escolaridade passa a significar degrau para ascensão social; as
práticas se realizam segundo a reprodução do ensino regular de forma
acelerada; a história se constitui como traço verticalizado em direção à
evolução e os indivíduos já possuem responsabilidade delimitadas
(ELSAS, 2012, p. 7).
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psíquico dos sujeitos se dá pela ascensão dos conhecimentos da vida cotidiana,
tipicamente espontâneos e assistemáticos, em conhecimentos científicos, complexos,
que requerem maior grau de desenvolvimento (MARTINS, 2016). As propostas
compensatórias (aligeiradas e simplificadas), na EJA ou em qualquer outro espaço
educativo, são o elemento mediador do sujeito com a sociedade e com o conhecimento.
O que se tem, entretanto, é que a educação historicamente destinada aos
sujeitos da EJA é compensatória (COSTA, ECHEVERRÍA, 2010; DI PIERRO, 2017; MACHADO,
2019) e, consequentemente, supletiva, simplificada, marginalizante dos conhecimentos
mais complexos e sistematizados.
A história da EJA, permeada por essa concepção, apresentará diversos
elementos contraditórios. O parecer n. 11/2000 CNE/CEB (BRASIL, 2000), ao dar as
diretrizes curriculares para a educação de jovens e adultos, apresenta em seu texto as
funções da modalidade: reparadora, equalizadora e qualificadora. Agudo e Teixeira (2017)
apontam para a questão de que,
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Tal concepção se caracteriza, sobretudo, pelo seu projeto formativo. Para
reconhecê-la em discursos e práticas pedagógicas, é preciso se questionar: a proposta
educativa apresentada se “posiciona politicamente enquanto instrumento de legitimação
e reprodução das relações sociais existentes ou enquanto reveladora das formas de
dominação das camadas populares, mirando sua transformação?” (ELSAS, 2012, p. 6).
Paranhos (2017), em sua tese4, categorizou os projetos formativos presentes nas
produções científicas em três: projeto formativo contextual, projeto formativo plural e
projeto formativo crítico-político. De acordo com o autor:
Para Paranhos (2017), nenhum dos dois projetos formativos demarca de forma
resoluta a relação entre a escola e os conhecimentos sistematizados. Tais projetos
formativos são “revestidos de conservadorismos, pois não questionam a organização
econômica da sociedade da forma como está posta” (PARANHOS, 2017, p. 157). Ao não
questionar a sociedade como está posta, a educação, nesse sentido, corrobora o projeto
formativo que produz consensos e conformidades, o que é próprio de uma concepção
compensatória de educação. As ideias apresentadas por Paranhos (2017) nos dão base
para situar os projetos formativos contextual e plural na concepção
assistencialista-compensatória.
O traço mercadológico desses projetos formativos baseia-se na formação para
flexibilidade, participação, trabalho em equipe, competência, competitividade e qualidade
total (PARANHOS, 2017); além disso, orienta-se pelos ideais da teoria do capital humano,
engendrado na concepção de educação ao longo da vida e nos valores do capital
internacional (ELSAS, 2012; VENTURA, 2013).
O projeto formativo crítico-político, nas palavras de Paranhos (2017),
_____________________
4
Paranhos (2017) ocupou-se de investigar o pensamento pedagógico brasileiro nas produções científicas (teses,
dissertações e artigos), que pesquisaram o ensino de Biologia na EJA.
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considera a organização societal que se desdobra do modo de produção
capitalista, traçando para a escola a pauta formativa de desvelar as
contradições da sociedade do capital. Portanto, esse projeto reconhece a
existência de classes (burguesa e trabalhadora) e coloca na sua pauta
formativa os interesses da classe trabalhadora. Firma para a instituição
escolar o compromisso com os conhecimentos sistematizados para
instrumentalizar os educandos com vistas à transformação da realidade
(PARANHOS, 2017, p. 157-158, grifos do autor).
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A concepção da educação como direito parte do pressuposto de que o sujeito
tem direito de acessar não somente a educação escolar, mas os conhecimentos
sistematizados, produzidos ao longo da atividade humana e acumulados ao longo de sua
história.
Consideramos que a concepção da educação como direito (ED) tem intrínseca
relação com o que Duarte (2013) chamou de processos de ontocriação da natureza
humana e dos processos e suas respectivas categorias ontocriativas, sobretudo, “o
trabalho”.
Nessa perspectiva, a educação escolar, operacionalizada e materializada na sala
de aula, firma-se como um elemento ontocriativo da natureza humana, ou seja, é um
elemento através do qual se organizam espaços, tempos e atividades que propiciarão a
construção e formação do gênero humano (MARTINS, 2016).
A educação escolar, enquanto atividade organizada e orientada por finalidades
demarcadas, nessa concepção, se organizará a partir de uma lógica dialética com outros
desdobramentos da atividade humana. Por desdobramentos, entendem-se, sobretudo, os
conhecimentos eruditos, acumulados ao longo da história (conhecimentos
historicamente sob o poder das classes dominantes e negados às classes subalternas).
Do trabalho, enquanto elemento criador da natureza humana, desdobram-se as
objetivações humanas (as ciências, as tecnologias, as artes). A apropriação de tais
objetivações é fator determinante na constituição do ser social, pois assume caráter
humanizador ou alienante (DUARTE, 2013).
Não se deve perder de vista, por outro lado, que a educação escolar, ao mesmo
tempo em que pode constituir-se em espaço privilegiado para o desenvolvimento, “pode
promover a reiteração da cultura socialmente valorizada em lógicas legitimadoras de
opressão” (ELSAS, 2012, p. 3). Nesse sentido, como destaca Martins (2016), é preciso
reconhecer a natureza da educação escolar quanto ao seu objeto e fins.
A educação escolar carrega todas as características da atividade humana
acumuladas no trabalho e nas objetivações humanas e possui, concomitantemente, seu
caráter transformador. Assim, não reduz o trabalho à mera atividade laboral ou emprego,
pois este é produto do sistema capitalista enquanto opressor dos processos
humanizadores.
Pensando especificamente na EJA, a modalidade é marcada pela
intencionalidade formativa da alfabetização e pela relação com o mundo do trabalho
(COSTA, 2013; MACHADO, 2019). O mundo empírico é o início e o fim das propostas. As
contradições dessas intencionalidades se materializam nos contornos
assistencialistas/compensatórios que estão engendrados em sua intencionalidade de
inclusão social (LIBÂNEO, 2012) ao mundo letrado e, consequentemente, ao mundo do
trabalho (emprego). A instituição escolar, mediadora de conteúdos e formas (MARTINS,
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2016), orientada pela atividade laboral do educando, permitirá a apropriação alienante
dos conhecimentos sistematizados (DUARTE, 2013).
A ontologia do ser social, possibilitada pelo trabalho tomado como atividade
ontocriativa da natureza humana, permite ao homem objetivar determinados aspectos
da realidade para compreendê-los em níveis mais complexos. Segundo Duarte (2013), ao
se tomar um elemento da natureza, um objeto, e inserir nele as características de sua
prática social e da própria natureza humana, no sentido de reconfigurar a forma e a
organização desse objeto, produz-se uma objetivação. A relação é dialética, pois sujeito e
objeto estão em constante movimento de transformação provocada por ambos.
O caráter social das objetivações humanas apresenta aspecto contraditório na
sociedade do capital, pois é elemento fundamental no processo de humanização e
formação do homem. Contudo, por existir em uma sociedade organizada verticalmente,
tem em seu cerne a essência das relações sociais coexistentes, ou seja, é fator alienante
das camadas tomadas como inferiores.
Ao transformar os diferentes objetos e produzir a sua existência, o homem
produz elementos como as artes, a própria cultura, as tecnologias e as ciências.
Entretanto, segundo Frigotto (2006),
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assim como a linguagem e os instrumentos, a objetivação das relações
entre os seres humanos significa acúmulo de experiência, síntese de
atividade humana; de tal forma que cada indivíduo, apropriando-se
dessas objetivações, passa a agir no âmbito das condições sociais, isto é,
no âmbito das condições que não resultam da natureza, mas, sim, da
história da atividade dos outros seres humanos (DUARTE, 2013, p. 35).
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do homem, na sociedade de classes, é fator fundamental para posicionar-se perante tal
realidade.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As ideias contidas neste ensaio caracterizaram as concepções de educação
assistencialista, educação compensatória e educação como direito. Pelos traços
caracterizadores das duas primeiras, o texto defende a complementaridade entre ambas,
uma vez que a educação compensatória mantém as características da assistencialista,
incorporando os ideais do modo de produção, o que nos possibilitou denominá-la de
concepção assistencialista-compensatória. Em seu cerne, essa concepção faz defesas
pelo direito à educação; contudo, esse direito está marcado pelo paradigma do acesso. A
educação é defendida por diversos grupos, setores, governos, desde os primórdios do
Brasil, sempre atendendo aos interesses dominantes, subalternizadores, excludentes e
conservadores.
Logo, a contradição das intencionalidades formativas demarcadas nas
concepções de EJA apresentadas neste texto demonstram a importância de se qualificar
o direito à educação, tanto quanto sua defesa. A operacionalização e a materialização da
educação escolar na sala de aula não se dão de forma simples, sobretudo nas salas de
aula da EJA, uma vez que a relação entre a educação escolar e a atividade laboral do
educando é contraditória e atende a determinadas concepções e interesses hegemônicos.
A atividade laboral do educando, no sentido de sua inserção no mercado de
trabalho, de seu pertencimento à classe trabalhadora, tem em seu cerne as
características do trabalho alienante. A ED, por outro lado, orienta-se à superação desse
trabalho e se organiza a partir do trabalho ontocriativo, pois parte da premissa de que é
esse tipo de trabalho que permitirá o desenvolvimento da humanidade do educando, pois
trata-se de sua atividade principal, é o que o vincula à natureza e permite seu
desenvolvimento. É através dela que se dá a apropriação dos conhecimentos
sistematizados e da atividade e da história humana acumuladas neles. A educação, nesse
sentido, é um processo de humanização.
A intencionalidade de apropriação do conhecimento científico também está
presente nas práticas orientadas pelos ideais da concepção da educação
assistencialista-compensatória. Tal apropriação, contudo, devido ao caráter conservador
da concepção, irá se orientar com fins à alienação do sujeito. Por sua vez, a concepção da
educação como direito se guiará pela humanização do homem.
Nesse sentido, torna-se imperativo destacar a necessidade de cuidado ao se
propor qualquer análise quanto à concepção a qual determinadas práticas pedagógicas
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se alinham. Olhares imediatos podem induzir ao erro de se considerar que uma proposta
pedagógica se orienta a determinada perspectiva crítica por esta não marginalizar o
conhecimento científico e defender sua apropriação. Entretanto, não se deve perder de
vista o caráter dual e contraditório do processo de apropriação.
Dessa forma, consideramos que as concepções de EJA se distanciam uma da
outra por meio dos projetos formativos que defendem. Se a EAC se orientará com fins a
um projeto formativo contextual, a concepção da educação como direito se posicionará a
favor de um projeto formativo crítico-político. Por essa razão, não basta defender o
acesso e o direito à educação, é preciso qualificar o que se acessa, sobretudo, numa
perspectiva de qualidade social e de classe.
REFERÊNCIAS
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COSTA, J. J. S. A Educação segundo Paulo Freire: uma primeira análise filosófica. Theoria -
Revista Eletrônica de Filosofia, v. 7, n. 18, p. 72-88, 2015.
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DUARTE, N. A individualidade para si. 3. ed. Campinas: Autores Associados, 2013.
FRIGOTTO, G. A produtividade da escola improdutiva. 7. ed. São Paulo: Editora Cortez, 2001.
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SAVIANI, D. Educação do senso comum à consciência filosófica. 19. ed. Campinas: Autores
Associados, 2013.
SAVIANI, D. História das Ideias pedagógicas no Brasil. 5. ed. Campinas: Autores Associados,
2017.
SILVA, D. C. “Você Deveria Ter Vergonha De Viver Num País Com Tantos Analfabetos”: A
Campanha Publicitária Do Mobral Na Revista Veja (1970-1975). 2019. 139 f. Dissertação
(Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Goiás. 2019. Disponível em:
https://repositorio.bc.ufg.br/tede/handle/tede/9558.pdf. Acesso em: 15 ago. 2020.
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Seção: Reconhecimento de saberes | Relato de experiência | DOI:
https://doi.org/10.35700/2317-1839.2022.v11n19.3246
RESUMO
ABSTRACT
This text is an experience report based on the application of a project developed for the
Library Emília Bustamante, located in the Joaquim Venâncio Polytechnical School of
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Health, from Oswaldo Cruz Foundation in Rio de Janeiro. The objective of the study is to
present the results of the implementation of the library user education project called
‘Library: here you can!’, which counted with the participation of students from Youth and
Adult Education. To reach this objective, an applied and descriptive research was carried
out, adopting a quantitative approach. The execution of the project showed that students
from different age groups start using, better understanding and adhering to the rules
and conditions of use and operation of the library after receiving appropriate information
and guidelines. The research also reveals that the project has contributed to show that
the library is not a restricted and difficult-to-access space, but a space of inclusion and
integration.
Keywords: Education of users of libraries. Youth and adult education. School library.
RESUMEN
1 INTRODUÇÃO
A biblioteca, no âmbito escolar, tem função de apoio e suporte à educação, bem
como de fonte de conhecimento e informação (QUEIROZ, 2006). Para que uma biblioteca
cumpra a sua função de forma eficaz, atendendo seja aos objetivos pedagógicos das
instituições, seja às necessidades de conhecimento e informação do seu público
frequentador, esses espaços normalmente desenvolvem projetos voltados para a
educação de seus usuários.
Diversos autores, entre eles Andrade et al. (2012), Gomes et al. (2013), Martins et
al. (2010) e Moreira e Coutinho (2011) ressaltam que, em vista disso, várias bibliotecas de
instituições de ensino criam um conjunto de ações voltadas para os usuários, visando a
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estimular comportamentos adequados ao ambiente, como, por exemplo, redução de
ruídos e conservação do acervo, entre outros.
Isso é corroborado por Belluzzo e Macedo (1990), que destacam que,
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2 BIBLIOTECA: AQUI PODE!
O projeto “Biblioteca: aqui pode” foi elaborado para a Biblioteca Emília
Bustamante (BEB), da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), Fundação
Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), na cidade do Rio de Janeiro. A decisão de reforma do layout
surgiu da necessidade de adequação do ambiente às normas de acessibilidade dos
usuários, conforme ABNT NBR 9050:2015, que visa a estabelecer parâmetros e critérios
para adaptação de espaços para a acessibilidade de todas as pessoas. Essa reforma
exigiu que a BEB suspendesse suas atividades por vários meses entre 2017 e 2018. Nesse
período foi elaborado o projeto de educação de usuários, com sinalizações e orientações
para o uso do espaço, a ser aplicado em todas as turmas de alunos na ocasião de sua
reabertura (AZEVEDO; DUARTE, 2018).
O projeto “Biblioteca: aqui pode!” buscou elucidar todas as restrições,
frequentemente presentes nesse espaço, por meio de uma abordagem positiva,
incentivando a manutenção e o cuidado, aspirando à preservação do local, da estrutura,
acervo e equipamentos, bem como, ainda, ao reconhecimento de que a biblioteca atende
a diferentes usuários e que essa condição deve ser respeitada (AZEVEDO; DUARTE, 2018).
O desenvolvimento do referido projeto decorreu do fato de que, em geral, os
usuários não procuram conhecer, entender e/ou aplicar o conteúdo das normas de
funcionamento da biblioteca. A apresentação de orientações no próprio espaço da
biblioteca funcionou como lembrete de conduta e comportamento desejado dos usuários
(AZEVEDO; DUARTE, 2018). Como exemplo, pode-se apresentar a mensagem criada para
o controle do uso de celulares no ambiente da biblioteca (Figura 1).
Os celulares são imprescindíveis nos dias de hoje, mas precisamos saber usá-los de maneira
adequada aos ambientes em que nos encontramos.
Você pode usar o celular para fazer suas pesquisas, porque a biblioteca oferece wi-fi.
Você pode atender ou fazer alguma ligação dirigindo-se à parte externa do prédio.
Assim, não haverá incômodo para ninguém e você poderá manter sua privacidade para tratar
de assuntos do seu interesse.
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frequentadores do espaço quanto à necessidade de conservação da sua estrutura física,
dos recursos tecnológicos e do acervo disponível, além da adequação do comportamento
pessoal.
A reabertura da biblioteca trouxe como novidades aos usuários não somente um
espaço físico com nova estruturação, mas também quadros com sinalização de
comportamentos com limitações positivas e adequados a cada ambiente em espaços
visíveis, levando os usuários a compreender o porquê das normas existentes para o bom
uso e funcionamento do local, conforme alguns exemplos apresentados no Quadro 1.
Sinalização Orientação
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3 METODOLOGIA
De acordo com Sousa, Cancela e Machado (2017), os alunos da EJA carregam
uma bagagem diferente daqueles que frequentam o ensino regular, uma vez que já são
adultos e trazem consigo experiências de vida definidas muitas vezes pela falta de
oportunidades na sociedade. Concordando com essa afirmativa, Bezerra (2009) observa
que os alunos da EJA têm uma visão de mundo inerente às suas experiências, que
moldaram suas crenças e valores numa sociedade desigual. Esses alunos buscam
recuperar a defasagem escolar, relembrando os conteúdos já estudados nos anos
anteriores, e ainda se atualizar, adquirindo novos conhecimentos, com o intuito de
conquistarem uma vida melhor por meio dos estudos.
Diante disso, optou-se por uma pesquisa aplicada, voltada para aspectos
práticos, e descritiva, que buscou expor as características de determinado fenômeno ou
população. A abordagem adotada foi quantitativa, que permitiu a quantificação dos
resultados obtidos, mediante uso de cálculos estatísticos (VERGARA, 2004).
O instrumento utilizado foi o questionário, que foi composto por sete questões
fechadas e aplicado aos estudantes após o início das aulas, momento em que ocorre
também a visita orientada, com apresentação do espaço destinado à biblioteca, e são
indicadas as informações de funcionamento e condições para seu uso. A apresentação da
biblioteca é feita mediante uma sequência de slides montados por meio do aplicativo
Power Point, da Microsoft®, seguida por visita aos espaços físicos indicados.
Após a visita orientada, os alunos foram convidados a responder ao instrumento
de pesquisa, manifestando sua opinião acerca das novas instalações e dos limites
positivos apresentados em cada espaço. A adesão foi espontânea, sendo respeitados os
alunos que declinaram de participar da pesquisa. Todos foram informados de que a
referida pesquisa teria seus dados revertidos para a própria instituição e seriam
divulgados em trabalho acadêmico dos autores. A pesquisa foi realizada durante os
meses de março e abril de 2019.
Os dados coletados foram organizados e analisados com auxílio do aplicativo
Excel, da Microsoft®, para a elaboração de banco de dados, tabelas e gráficos. A sua
discussão foi realizada mediante confronto com a literatura.
4 RESULTADOS
Participaram da pesquisa 120 alunos da EJA, sendo 56 (46,67%) do Ensino
Fundamental e 64 (53,33%) do Ensino Médio.
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O Gráfico 1 apresenta a faixa etária dos pesquisados, mostrando que, no Ensino
Fundamental, houve predomínio de indivíduos com idades mais elevadas, variando entre
36 e 55 anos, enquanto no Ensino Médio predominaram as faixas etárias mais jovens, ou
seja, entre os 16 e os 45 anos.
NR 1,79 1,56
[ 110 ]
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Na Tabela 2, pode-se observar que, entre os alunos da EJA de ensino
fundamental, 78,57% dos pesquisados não tinham o hábito de frequentar bibliotecas,
enquanto, na EJA de ensino médio, esse percentual cai para 51,56%.
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Um dos pontos de destaque, nesses resultados, é que a maior parte dos
pesquisados de ambos os grupos informou que não conhecia a Biblioteca Emília
Bustamante.
Em relação às informações sobre o que pode ou não ser feito em cada setor da
biblioteca, transmitidas durante a visita orientada, a maior parte dos pesquisados
declarou que estas foram claras. Apenas 1,79% dos pesquisados relataram que ainda
ficaram com dúvidas sobre o assunto.
Em relação à compreensão dos motivos que levam à restrição de alguns
comportamentos na biblioteca, apesar grande parte dos pesquisados ter respondido
afirmativamente, ressalta-se que 10,71% dos alunos da EJA de ensino fundamental e
4,69% da EJA de ensino médio responderam negativamente, enquanto 4,69% dos alunos
da EJA EJA de médio responderam que ainda têm dúvidas.
Ao serem questionados se, anteriormente à visita orientada, adotavam
comportamentos inadequados em bibliotecas, 12,50% dos alunos da EJA de ensino
fundamental e 14,06% da EJA de ensino médio responderam afirmativamente.
Por fim, ao serem instados a opinar se as informações recebidas durante a visita
orientada contribuiriam para alterar o comportamento dos usuários da biblioteca, a
maior parte respondeu afirmativamente. Entretanto, 3,57% dos alunos da EJA de ensino
fundamental responderam negativamente e 1,79% disseram não saber, enquanto 4,69%
da EJA de ensino médio informaram que não sabiam.
Nesse sentido, a pesquisa realizada mostrou que parte dos usuários adotavam
comportamentos impróprios e inadequados em bibliotecas, porém a maior parte dos
pesquisados revelou não ter conhecimento ou hábito de frequentar tais espaços. Pode-se
inferir, portanto, que um dos motivos para comportamentos inadequados e impróprios
deriva do desconhecimento de normas de conduta aplicáveis especificamente a tal
espaço.
Com base nesses resultados, defendemos que a educação de usuários de
bibliotecas se refere ao seu entendimento em relação ao “[...] processo pelo qual o
usuário interioriza comportamentos adequados com relação ao uso da biblioteca e
desenvolve habilidades de interação permanente com o sistema de informação”
(OLIVEIRA, 1998, p. 5 apud SILVA et al., 2013, p. 3). Assim, de acordo com Santiago e Netto
(2012), a educação de usuários de bibliotecas contribui para que estes alterem seu
comportamento naquele ambiente e também desenvolvam habilidades e aptidões para o
seu uso.
Os mesmos autores defendem a educação dos usuários como fonte de interação
entre as partes, “[...] com a finalidade de projetar esforços para possivelmente atingir um
número considerável de indivíduos que possam utilizar de forma efetiva e eficaz os
serviços e produtos oferecidos pela biblioteca” (SANTIAGO; NETTO, 2012, p. 248).
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Ainda, os referidos autores destacam a subutilização das bibliotecas, decorrente,
em muitos casos, de despreparo e falta de hábito em frequentar tais ambientes, o que
torna fundamental a atuação do bibliotecário como educador desses usuários, para que
possa oferecer o treinamento necessário, inclusive aquele relativo a comportamentos
apropriados ao ambiente (SANTIAGO; NETTO, 2012).
Monsani (2016) reforça o exposto, afirmando que a educação de usuários
permite que estes tenham conhecimento acerca da importância da biblioteca, dos seus
regulamentos e horários de funcionamento, entre outros aspectos, de forma a que
adquiram maior familiaridade e se tornem mais independentes nas suas atividades
naquele ambiente.
Adicionalmente, deve-se considerar que, conforme Silva et al. (2013), a formação
do usuário de bibliotecas e seu gosto e hábito de frequência ao espaço e leitura são
iniciados nos primeiros anos escolares, o que, pode-se perceber, não foi o caso dos
pesquisados.
A pesquisa mostrou também a presença de indivíduos em faixas etárias mais
avançadas, o que, provavelmente, explica a pouca interação e não frequência a
bibliotecas. Sujeitos privados do desenvolvimento de atividades próprias do ambiente
escolar nos primeiros anos de formação apresentam menor familiaridade com
ambientes que, aparentemente, oferecem restrição ao acesso.
Monsani (2016) destaca que uma das estratégias adotadas para a educação de
usuários de bibliotecas é a visita orientada e que tal atividade tem por objetivo “[...]
mostrar que a unidade de informação é um local amigável” e que os profissionais que ali
atuam estão capacitados e disponíveis para as orientações necessárias (MONSANI, 2016,
p. 96).
O referido autor destaca que as atividades de educação de usuários, no seu
planejamento, devem levar em consideração o perfil da população que utilizará tal
serviço e sua motivação em participar das atividades e interagir com a biblioteca, de
forma a que as informações sejam adequadas à sua necessidade e capacidade.
Independentemente do público a ser atingido e das estratégias adotadas, é importante
que haja uma avaliação da atividade, visando à sua adequação, quando necessário, e
melhoria futura.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A implementação do projeto “Biblioteca: aqui pode!”, da Biblioteca Emília
Bustamante, da Fiocruz, mostrou que alunos de diferentes faixas etárias, mediante
informações e estratégias apropriadas, passam a compreender melhor e aderir às
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normas e condições de funcionamento da unidade. Os pesquisados demonstraram
interesse na visita orientada e total adesão à pesquisa, motivos que levam ao
entendimento de sua compreensão das normas e regras vigentes na biblioteca, como,
ainda, à desmistificação de que aquele é um espaço de difícil acesso. Assim, a maior
parte dos pesquisados revelou que as informações foram claras e que poderão contribuir
para a adoção de comportamentos adequados pelos usuários do espaço e também para
a alteração de comportamentos anteriores e não adequados.
Contudo, no caso específico da EJA, observou-se que a ausência de vivências em
espaços como o da biblioteca cria uma impressão errônea de que aquele local não
pertence ao seu mundo. Assim, considera-se importante sugerir que sejam realizadas
novas ações de inclusão informacional envolvendo esses alunos, com o intuito de
integrá-lo, bem como os estudantes de outros níveis e a comunidade em geral.
Como resultado, foi percebido que, na medida em que os estudantes tiveram
contato com o desenvolvimento do projeto, houve melhora considerável na conduta, no
comportamento e aumento da frequência no ambiente da nova biblioteca. Além das
palestras, a sinalização usou linguagem positiva e inclusiva, de fácil leitura e
compreensão, seguindo as orientações de uso existentes em cada local, o que despertou
nos usuários da EJA um sentimento de inclusão, integração e participação nos cuidados e
manutenção do referido recinto, bem como de seu acervo e equipamentos.
REFERÊNCIAS
BEZERRA, J. E. E. A importância do ato de ler dos alunos da EJA. Cadernos do CNLF, Rio de
Janeiro, v. 13, n. 4, p. 109-115, 2009.
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GOMES, R. R. et al. Educar para preservar: o lúdico como estratégia de conscientização no
processo de preservação da memória documental. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE
BIBLIOTECONOMIA, DOCUMENTAÇÃO E CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 25., 7-10 jul. 2013,
Florianópolis/SC. Disponível em:
https://anaiscbbd.emnuvens.com.br/anais/article/viewFile/1580/1581. Acesso em: 5 dez. 2018.
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