Arcadismo

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Literatura

Arcadismo

Resumo

O ARCADISMO

A corrente literária árcade, influenciada pelos ideais do Iluminismo no século XVIII, visava retornar
alguns marcos artísticos do período renascentista. Com o intuito de promover o racionalismo na poesia -
uma vez que o período da dualidade barroca deu espaço ao antropocentrismo – o Arcadismo é
caracterizado pela temática mais pastoril e bucólica, contrariando os apegos materialistas que marcavam
aquele momento e resgatando alguns aspectos da cultura clássica.

CONTEXTO HISTÓRICO

Os acontecimentos mais importantes do século XVII e que marcaram o Arcadismo foram:


• Iluminismo;
• 1789 - Revolução Francesa;
• 1789 - Inconfidência Mineira (No Brasil);
• 1798 - Conjuração Baiana (No Brasil);

(Revolução Francesa, 1789.)

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CARACTERÍSTICAS DO ARCADISMO

Veja, abaixo, algumas das principais características do Arcadismo:

• Bucolismo;
• Pastoralismo;
• Uso da razão;
• Temática universalista;
• Valorização da cultura greco-romana;
• Objetividade;
• Contraste entre a simplicidade da vida X apegos materiais;
• Convencionalismo amoroso;
• Contraste entre o ambiente urbano e o ambiente campestre;

OBS.: O sentimento de evasão ao campo era imaginário, pois a maioria dos árcades pertenciam ao cenário
burguês e naquele momento iniciava-se um período de urbanização nas cidades e a transição do êxodo
rural. Podemos perceber, portanto, que essa “fuga” ao campo é uma simulação, um fingimento poético.

Em relação à linguagem e forma estrutural das poesias árcades, temos a presença de:
• Sonetos;
• Versos decassílabos;
• Ordem direta (da estrutura sintática);
• Linguagem mais simples.

LEMAS ÁRCADES

Conhecidos como lemas árcades, estes são expressões latinas que remetem aos valores de uma vida
simples, sem apegos materiais e que valorize as pequenas coisas da vida. Veja quais são:
• Carpe Diem (Aproveitar a vida, viver o momento);
• Locus Amoenus (Lugar ameno, significa um lugar simples, um refúgio longe dos centros urbanos);
• Fugere Urbem (Fuga da cidade, remetendo à felicidade da vida no campo, em contraste com o caos
urbano);
• Aurea Mediocritas (Desvínculo à vida material, que segundo os árcades era considerada uma vida
medíocre, mas rica em realizações espirituais);
• Inutillia Truncat (“cortar o inútil”, ou seja, afastar-se da infelicidade que o apego material pode
causar).

PRINCIPAIS AUTORES NO BRASIL

Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Basílio da Gama, Silva Alvarenga e Santa Rita Durão e
Basílio.

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CARTAS CHILENAS

No Brasil, durante o período da Inconfidência Mineira, muitos autores e intelectuais eram engajados
politicamente e lutavam contra as tiranias do governo. As cartas chilenas tratam-se de poemas que
criticavam o abuso de poder e satirizavam os desmandos administrativos da região mineira, além disso, por
medo de serem perseguidos, os escritores omitiam a sua autoria.

Leia um trecho de uma das cartas, que aborda sobre os despachos e os contratos:

“Os grandes, Doroteu, da nossa Espanha


Têm diversas herdades: uma delas
Dão trigo, dão centeio e dão cevada,
As outras têm cascatas e pomares,
Com outras muitas peças, que só servem,
Nos calmosos verões, de algum recreio.
Assim os generais da nossa Chile
Têm diversas fazendas: numas passam
As horas de descanso, as outras geram
Os milhos, os feijões e os úteis frutos
Que podem sustentar as grandes casas.”

Fonte: http://pt.poesia.wikia.com/wiki/Cartas_Chilenas/VIII

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Exercícios

1. Torno a ver-vos, ó montes; o destino


Aqui me torna a pôr nestes outeiros,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte, rico e fino.

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,


Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.

Se o bem desta choupana pode tanto,


Que chega a ter mais preço, e mais valia
Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,

Aqui descanse a louca fantasia,


E o que até agora se tornava em pranto
Se converta em afetos de alegria.
(Cláudio Manoel da Costa. In: Domício Proença Filho. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 78-
9.)

Assinale a opção que apresenta um verso do soneto de Cláudio Manoel da Costa em que o poeta se
dirige ao seu interlocutor.
a) “Torno a ver-vos, ó montes; o destino” (v.1)
b) “Aqui estou entre Almendro, entre Corino,” (v.5)
c) “Os meus fiéis, meus doces companheiros,” (v.6)
d) “Vendo correr os míseros vaqueiros” (v.7)
e) “Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,” (v.11)

2. Casa dos Contos

& em cada conto te cont


o & em cada enquanto me enca
nto & em cada arco te a
barco & em cada porta m
e perco & em cada lanço t
e alcanço & em cada escad
a me escapo & em cada pe
dra te prendo & em cada g
rade me escravo & em ca
da sótão te sonho & em cada
esconso me affonso & em
cada claúdio te canto & e
m cada fosso me enforco &
(ÁVILA, A. Discurso da difamação do poeta. São Paulo: Summus, 1978.)

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O contexto histórico e literário do período barroco- árcade fundamenta o poema Casa dos Contos, de
1975. A restauração de elementos daquele contexto por uma poética contemporânea revela que
a) a disposição visual do poema reflete sua dimensão plástica, que prevalece sobre a observação da
realidade social.
b) a reflexão do eu lírico privilegia a memória e resgata, em fragmentos, fatos e personalidades da
Inconfidência Mineira.
c) a palavra “esconso” (escondido) demonstra o desencanto do poeta com a utopia e sua opção por
uma linguagem erudita.
d) o eu lírico pretende revitalizar os contrastes barrocos, gerando uma continuidade de procedimentos
estéticos e literários.
e) o eu lírico recria, em seu momento histórico, numa linguagem de ruptura, o ambiente de opressão
vivido pelos inconfidentes.

3. Ornemos nossas testas com as flores,


e façamos de feno um brando leito;
prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
gozemos do prazer de sãos amores (...)
(...)

aproveite-se o tempo, antes que faça


o estrago de roubar ao corpo as forças
e ao semblante a graça.
(Tomás Antônio Gonzaga)

Nos versos acima:


a) O eu-lírico, ao lamentar as transformações notadas em seu corpo e alma pela passagem do tempo,
revela-se amoroso homem de meia-idade.
b) Que retomam tema e estrutura de uma “canção de amigo”, está expresso o estado de alma de quem
sente a ausência do ser amado.
c) Nomeia-se diretamente a figura ironizada pelo eu-lírico, a mulher a quem se poderiam fazer
convites amorosos mais ousados.
d) Em que se notam diálogo e estrutura paralelística, o ponto de vista dominante é o do amante que
vê seus sentimentos antagônicos refletidos na natureza.
e) A natureza é o espaço onde o amado se sente à vontade para expressar diretamente à amada suas
inclinações sensuais.

4. Considere as afirmativas sobre Barroco e o Arcadismo:


1 - Simplificação da língua literária – ordem direta – imitação dos antigos gregos e romanos.
2 - Valorização dos sentidos – imaginação exaltada – emprego dos vocábulos raros.
3 - Vida campestre idealizado como verdadeiro estado de poesia-clareza-harmonia.
4 - Emprego frequente de trocadilhos e de perífrases – malabarismos verbais – oratória.
5 - Sugestões de luz, cor e som – antítese entre a vida e a morte – espírito cristão anti terreno.

Assinale a opção que só contém afirmativas sobre o Arcadismo.


a) 1, 4 e 5.
b) 2, 3 e 5.
c) 2, 4 e 5.
d) 1 e 3.
e) 1, 2 e 5.

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5. Sobre o Arcadismo no Brasil, podemos afirmar que:


a) produziu obras de estilo rebuscado, pleno de antíteses e frases tortuosas, que refletem o conflito
entre matéria e espírito.
b) não apresentou novidades, sendo mera imitação do que se fazia na Europa.
c) além das características europeias, desenvolveu temas ligados à realidade brasileira, sendo
importante para o desenvolvimento de uma literatura nacional.
d) apresenta já completa ruptura com a literatura europeia, podendo ser considerado a primeira fase
verdadeiramente nacionalista da literatura brasileira.
e) presente sobretudo em obras de autores mineiros como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel
da Costa, Silva Alvarenga e Basílio da Gama, caracteriza-se como expressão da angústia metafísica
e religiosa desses poetas, divididos entre a busca da salvação e o gozo material da vida.

6. Leia o poema abaixo:

O ser herói, Marília, não consiste


Em queimar os impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano,
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
Como o maior Augusto.

Eu é que sou herói, Marília bela,


Seguindo da virtude a honrosa estrada:
Ganhei, ganhei um trono,
Ah! não manchei a espada,
Não o roubei ao dono!
Ergui-o no teu peito e nos teus braços:
E valem muito mais que o mundo inteiro
Uns tão ditosos laços.

Aos bárbaros, injustos vencedores


Atormentam remorsos e cuidados;
Nem descansam seguros
Nos Palácios, cercados
De tropa e de altos muros.
E a quantos não nos mostra a sábia História
A quem mudou o fado em negro opróbrio
A mal ganhada glória!
(GONZAGA, Tomás Antônio. A poesia dos inconfidentes. Org. Domício Proença Filho. Riode Janeiro: Editora Nova Aguilar,
1996. 5a, 6a e 7a estrofes da Lira XXVII. pp. 616/617.)

As referências a Marília revelam:


a) a declaração de amor implícita a uma jovem.
b) o uso de pseudônimos da convenção pastoril.
c) a referência a uma dama que devia ficar oculta.
d) o desejo de transformar a amada em objeto poético.
e) a afirmação implícita de que queria casar-se.

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7. Soneto VII

Onde estou? Este sítio desconheço:


Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço


De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quando pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes


Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era;


Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera.
(COSTA, C.M. Poemas. Disponível em www.dominiopublico.gov.br. Acesso em 7 jul 2012)

No soneto de Claudio Manuel da Costa, a contemplação da paisagem permite ao eu lírico uma reflexão
em que transparece uma
a) angústia provocada pela sensação de solidão.
b) resignação diante das mudanças do meio ambiente.
c) dúvida existencial em face do espaço desconhecido.
d) intenção de recriar o passado por meio da paisagem.
e) empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra.

8. Torno a ver-vos, ó montes; o destino


Aqui me torna a pôr nestes outeiros,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte, rico e fino.

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,


Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.

Se o bem desta choupana pode tanto,


Que chega a ter mais preço, e mais valia
Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,

Aqui descanse a louca fantasia,


E o que até agora se tornava em pranto
Se converta em afetos de alegria.
(Cláudio Manoel da Costa. In: Domício Proença Filho. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
2002, p. 78-9.)

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Considerando o soneto de Cláudio Manoel da Costa e os elementos constitutivos do Arcadismo


brasileiro, assinale a opção correta acerca da relação entre o poema e o momento histórico de sua
produção.
a) Os “montes” e “outeiros”, mencionados na primeira estrofe, são imagens relacionadas à metrópole,
ou seja, ao lugar onde o poeta se vestiu com traje “rico e fino”.
b) A oposição entre a Colônia e a Metrópole, como núcleo do poema, revela uma contradição
vivenciada pelo poeta, dividido entre a civilidade do mundo urbano da Metrópole e a rusticidade da
terra da Colônia.
c) O bucolismo presente nas imagens do poema é elemento estético do Arcadismo que evidencia
a preocupação do poeta árcade em realizar uma representação literária realista da vida nacional.
d) A relação de vantagem da “choupana” sobre a “Cidade”, na terceira estrofe, é formulação literária
que reproduz a condição histórica paradoxalmente vantajosa da Colônia sobre a Metrópole.
e) A realidade de atraso social, político e econômico do Brasil Colônia está representada
esteticamente no poema pela referência, na última estrofe, à transformação do pranto em alegria.

9. Texto 1

Eu quero uma casa no campo


do tamanho ideal
pau-a-pique e sapê
Onde eu possa plantar meus amigos
meus discos
meus livros
e nada mais.
(Zé Rodrix e Tavito)

Texto 2

Se o bem desta choupana pode tanto,


Que chega a ter mais preço, e mais valia,
Que da cidade o lisonjeiro encanto;

Aqui descanse a louca fantasia;


E o que té agora se tornava em pranto,
Se converta em afetos de alegria.
(Cláudio Manuel da Costa)

Embora muito distantes entre si na linha do tempo, os textos aproximam-se, pois o ideal que defendem
é:
a) O uso da emoção em detrimento da razão, pois esta retira do homem seus melhores sentimentos.
b) O desejo de enriquecer no campo, aproveitando as riquezas naturais.
c) A dedicação à produção poética junto à natureza, fonte de inspiração dos poetas.
d) o aproveitamento do dia presente - o carpe diem-, pois o tempo passa rapidamente.
e) o sonho de uma vida mais simples e natural, distante dos centros urbanos.

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10. Leia o texto a seguir e faça o que se pede:

Ornemos nossas testas com as flores


E façamos de feno um brando leito;
Predamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos amores.

Sobre as nossas cabeças,


Sem que o possam deter, o tempo corre,
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.
(TAG, MD, Lira XIV)

Todas as alternativas a seguir apresentam características do Arcadismo, presentes na estrofe anterior,


exceto:
a) Ideal de Aurea mediocritas, que leva o poeta a exaltar o cotidiano prosaico da classe média.
b) Tema do Carpe diem – uma proposta para se aproveitar a vida, desfrutando o ócio com dignidade.
c) Ideal de uma existência tranquila, sem extremos, espalhada na pureza e amenidade da natureza.
d) Fugacidade do tempo, fatalidade do destino, necessidade de envelhecer com sabedoria.
e) Concepção da natureza como permanente reflexo dos sentimentos e paixões do “eu” lírico.

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Gabarito

1. A
No trecho "Torno a ver-vos, ó montes; o destino", a colocação pronominal "vos" alude à 2ª pessoa do
plural, isto é, com quem se fala. Além disso, temos a presença do vocativo "ó montes", que reforça a
quem o eu lírico se dirige, ao cenário natural.

2. E
O poeta alude, no poema, elementos que retomam às perseguições vivenciadas no período da
Inconfidência Mineira, no século XVIII, tais como "arco", "grade", "escravo", "sótão" e "enforco" (referência
ao enforcamento de Tiradentes). O termo "cláudio" alude ao autor árcade Cláudio Manoel da Costa, que
faz com que o poema relembre o período de perseguição aos inconfidentes que lutavam contra o
governo opressor.

3. E
No Arcadismo, o ambiente natural é utilizado, muitas vezes, como cenário para a expressão do
convencionalismo amoroso. Neste sentido, o eu lírico usufrui desse cenário para expressar à amada
sobre as suas e inclinações amorosas, a fim de aproveitarem o presente enquanto os amantes ainda são
jovens.

4. D
Os itens 1 e 3 apresentam características do Arcadismo. No entanto, os itens 2, 4 e 5 representam
aspectos presentes no movimento literário Barroco.

5. C
Apesar da influência europeia sobre o Arcadismo no Brasil, os poemas conseguiram também dialogar
com o contexto histórico brasileiro, vide que os poemas, muitas vezes, aludem ao movimento da
Inconfidência Mineira e a política local.

6. B
Em primeiro lugar, percebe-se que o eu lírico deixa explícito a quem se direciona: sua amada Marília.
Em verdade, o autor Tomás Antônio Gonzaga alude à jovem Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão,
a quem se referia nas obras líricas como Marília. A figura da amada, entretanto, também se tornou uma
construção do convencionalismo amoroso, pois Marília representa nas obras o perfil ideal de uma
pastora idílica e terna, reforçando a noção do Pastoralismo a partir do uso de pseudônimos.

7. E
No poema de Cláudio Manoel da Costa, o eu lírico contrasta o ambiente natural e sereno de outrora -
que alude ao sentimento bucólico e ao pastoralismo árcade -, com o ambiente natural, que se tornou
diferente e perdeu parte de seu encanto, como pode ser visto no trecho “nem troncos vejo agora
decadentes”, e que não traz mais ao eu lírico a sensação de bem-estar e conforto, neste sentido, ele se
sente empático com os sofrimentos da terra.

8. B
Uma das características presentes no Arcadismo é o contraste entre o campo e a cidade. Para o eu lírico,
a metrópole representa o anseio pelo materialismo, a civilização; já o campo alude à simplicidade da
vida e aos pequenos prazeres e felicidades, como pode ser evidenciado nos últimos versos “E o que até
agora se tornava em pranto/ Se converta em afetos de alegria”.

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9. E
Ambos os textos valorizam os lemas árcades “Locus Amoenus” e “Fugere Urbem”, pois anseiam a
vivência na simplicidade do campo, distante dos apegos materiais do meio urbano.

10. A
O poema de Tomás Antônio Gonzaga valoriza a efemeridade da vida e o ambiente natural como cenário
do convencionalismo amoroso. No entanto, o lema árcade “Aurea Mediocritas”, que significa o desapego
à vida urbana e ao materialismo não é mencionado no poema, já que o eu lírico não alude ao cenário
urbano.

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Arcadismo em Portugal: Bocage

Resumo

Conceitos do Arcadismo
O Arcadismo é também chamado de Neoclassicismo – enquanto no Barroco as formas eram irregulares,
cheias de paradoxo, numa valorização da contradição, a escola árcade valoriza as formas clássicas e quer
retornar a elas. O próprio nome, Arcadismo, vem da Grécia Antiga: Arcádia seria o nome do lugar em que se
reunem poetas.
No Arcadismo, há uma valorização do campo em detrenimento às cidades. Por isso, são comuns imagens de
campo, pastores etc. A isso chamamos bucolismo: uma atenção maior aos temas campestres e pastoris, que
são descritos como um ideal de vida.
Além disso, é comum no Arcadismo o tema da efemeridade da vida, isto é, a consciência de que a vida passa
e é curta.

Principais características
▪ Bucolismo: busca pelos valores da natureza;
▪ Nativismo: referências à terra e ao mundo natural;
▪ Tom confessional;
▪ Estado de espírito de espontaneidade dos sentimentos;
▪ Exaltação da pureza, da ingenuidade e da beleza.
▪ Influência da filosofia francesa;
▪ Mitologia pagã como elemento estético;
▪ O bom selvagem, expressão do filósofo Jean-Jacques Rousseau, denota a pureza dos nativos da terra
fazem menção à natureza e à busca pela vida simples, bucólica e pastoril;
▪ Tensão entre o burguês culto, da cidade, contra a aristocracia;
▪ Pastoralismo: poetas simples e humildes;

Alguns termos em latim são usados para descrever as principais características Árcades:

Inutiliatruncat: "cortar o inútil", referência aos excessos cometidos pelas obras do barroco. No arcadismo, os
poetas primavam pela simplicidade.
Fugereurbem: "fugir da cidade", do escritor clássico Horácio;
Locusamoenus: "lugar ameno", um refúgio ameno em detrimento dos centros urbanos monárquicos;
Carpe diem: "aproveitar a vida", o pastor, ciente da efemeridade do tempo, convida sua amada a aproveitar o
momento presente.

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Literatura

Bocage
Manuel Maria Barbosa du Bocage é o autor que mais se destaca no Arcadismo português. Sua composição
lírica é neoclássica, com todas as características da produção árcade. Além disso, Bocage tem uma vasta
composição satírica, o que lhe rendeu muita fama (chegou inclusive a ser expulso da Nova Arcádia, um grupo
de poetas árcades portugueses) e antecipa certa ironia romântica.

Já se afastou de nós o Inverno agreste

Já se afastou de nós o Inverno agreste


Envolto nos seus húmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste:

Varrendo os ares o subtil nordeste


Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros, e Amores,
E torna o fresco Tejo a cor celeste;

Vem, ó Marília, vem lograr comigo


Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo:

Deixa louvar da corte a vã grandeza:


Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

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Literatura

Exercícios

1. Já sobre o coche de ébano estrelado


Deu meio giro a noite escura e feia;
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!

Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,


O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado:

Só eu velo, só eu, pedindo à sorte


Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida me corte:

Consola-me este horror, esta tristeza;


Porque a meus olhos se afigura a morte
No silêncio total da natureza.
Bocage

Vocabulário: coche de ébano: carruagem de madeira escura


jaz: está ou parece morto
mocho: coruja
lânguida: doentia

Está presente no texto o seguinte traço característico da poesia de Bocage:


a) temática religiosa.
b) idealização do “locus amoenus”.
c) quebra dos padrões formais clássicos.
d) supremacia dos efeitos sonoros em detrimento da idéia.
e) linguagem emotivo-confessional.

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Literatura

2. Leia com atenção o texto de Manuel Maria Barbosa du Bocage, a seguir:

Chorosos versos meus desentoados,


Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vêde a luz, não busqueis, desesperados,


No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos- ão com ternura osdesgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia,


Da sátira mordaz o furor louco,
De maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;


Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.

Sobre esse soneto, é corretoafirmar:


a) o amor é apresentado de maneiracontrolada, de acordo com os princípios do racionalismo e
equilíbrio queorientavam a criação poética do Arca-dismo.
b) o texto demonstra que Bocage, apesar de pertencer à Arcádia Lusitana,ultrapassa os limites do
Arcadismo eantecipa características da inspira-ção poética do Romantismo.
c) o poeta se identifica com os bem-aventurados e solicita a piedade doleitor para com os seus
versos.
d) a emoção interfere na elaboração artística.
e) sabe-se que Bocage foi um árcaderebelde; pertenceu à Nova Arcádia,mas foi expulso dela. O
soneto em questão apresenta característicasformais neo-clássicas e, quanto aoconteúdo,
antecipa o sentimentalis-mo romântico.

3.
I. “O momento ideológico, na literatura do Setecentos, traduz a crítica da burguesia culta, ilustrada,
aos abusos da nobreza e do clero.”
II. “O momento poético, na literatura do Setecentos, nasce de um encontro, embora ainda amaneirado,
com a natureza e os afetos comuns do homem”.
III. “Façamos, sim, façamos doce amada / Os nossos breves dias mais ditosos.” Estes versos
desenvolvem o tema do carpe diem.

a) só a proposição I é correta;
b) só a proposição III é correta;
c) todas as proposições são corretas;
d) só a proposição II é correta;
e) são corretas somente as proposições I e II.

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Literatura

4. Sobre a obra de Bocage, é correto afirmar que:


a) seus sonetos contêm o mais alto sopro de seu talento lírico, sendo considerado um dos maiores
sonetistas da língua;
b) basicamente se faz de anedotas, todas se aproximando da obscenidade grosseira;
c) a sátira ocupa o lugar de maior importância em seu desenvolvimento;
d) pode ser colocada como ponto máximo da poesia romântica portuguesa;
e) não supera regras e as coerções literárias ligadas ao movimento arcádico.

5. Aponte a alternativa cujo conteúdo não se aplica ao Arcadismo:


a) Desenvolvimento do gênero épico, registrando o início da corrente indianista na poesia brasileira.
b) Presença da mitologia grega na poesia de alguns poetas desse período.
c) Propagação do gênero lírico em que os poetas assumem a postura de pastores e transformam a
realidade em um quadro idealizado.
d) Circulação de manuscritos anônimos de teor satírico e conteúdo político.
e) Penetração de tendência mística e religiosa, vinculada a expressão de ter ou não fé.

6. Sobre Bocage, assinale a informação incorreta:


a) Além de produzir poesia culta, foi poeta popular e exímio improvisador.
b) Sob a linguagem grosseira, mas sempre divertida, com que representa situações escabrosas,
revela-se, muitas vezes, um moralismo bastante convencional, machista e preconceituoso.
c) A capacidade de representar o traço caricatural e ridículo de situações e pessoas, aliada à
versificação fluente e precisa, à linguagem próxima da oralidade, fazem-nos rir, até nas passagens
vulgares, mesmo quando discordamos da visão distorcida e encobertamente moralista.
d) Os alvos privilegiados de sua sátira foram os mulatos e os mestiços das colônias orientais. É
contra eles que mostra a presunção de superioridade do branco europeu, o racismo e o
preconceito.
e) A sátira bocagiana é superior à sua produção lírica, além de ser muito mais popular, autêntica e
original.

7. Quando o poeta neoclássico pinta uma paisagem como um “estado de alma”, podemos dizer que
estamos diante de uma paisagem:
a) tipicamente neoclássica.
b) sugestivamente simbolista
c) rebuscadamente barroca
d) prenunciadora do Parnasianismo
e) antecipadamente romântica.

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Literatura

8. Sobre Bocage, é incorreto afirmar que:


a) como poeta satírico, ironizou contemporâneos seus, o clero, a nobreza decadente;
b) houve, notada inclusive por ele mesmo em um famoso soneto, uma série de semelhanças entre
sua vida e a de Camões;
c) em sua obra lírica, o Arcadismo interessou apenas como postura, aparência, pois, no fundo, o
poeta foi um pré-romântico;
d) como abriu mão totalmente dos valores neoclássicos, desprezou o apuro formal, o bucolismo e a
postura pastoril;
e) o subjetivismo, a confidência de sua vida interior, a confissão foram elementos frequentes em sua
obra lírica.

9. É só a partir do Arcadismo, que começa a surgir no país uma relação sistemática entre autor, obra e
público, que caracterizam um sistema literário. Aponte a alternativa que melhor descreve esse período.
a) Busca da simplicidade, racionalismo, imitação da natureza, caráter pastoril e imitação dos
clássicos.
b) Individualismo e subjetivismo, culto à Natureza, evasão, liberdade artística, culto à mulher amada,
sentimentalismo, indianismo, nacionalismo.
c) Subjetivismo, efeito de sugestão, musicalidade, irracionalismo, mistério.
d) Liberdade, de expressão, incorporação do cotidiano, linguagem coloquial, inovação técnica,
ambiguidade, paródia.
e) Racionalismo, incorporação do cotidiano, culto à mulher amada, imitação dos clássicos, contraste
entre fé e razão.

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10. Convite a Marília


“Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus úmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores,
O prado ameno de boninas veste:

Varrendo os ares o subtil Nordeste


Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros [vento brando] e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste;

Vem, ó Marília, vem lograr comigo


Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo:

Deixa louvar da corte a vã grandeza:


Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!”
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Sonetos. Lisboa: Europa-América, s. d. p. 38.

Acerca do soneto, é correto afirmar:

a) Observa-se, devido à presença de uma natureza agreste, um afastamento das convenções árcades
referentes ao “locus amoenus”.
b) O Pré-Romantismo, com sua valorização do sentimento, manifesta-se nas referências mitológicas,
como “Zéfiros” e “Amores”.
c) “Locus amoenus” é configurado, nos quartetos, por expressões como “a fértil Primavera”, “o prado
ameno”, “a cor celeste”, o que afasta o texto das paisagens noturnas do Pré-Romantismo.
d) A oposição entre “a vã grandeza” da corte e “as perfeições da Natureza” revela o conflito entre o
eu lírico e os valores da sociedade, numa antecipação pré-romântica do sentimento da paisagem.
e) No primeiro terceto, dada a presença do tema campestre, evidenciam-se o bucolismo e o
sentimento da natureza, típicos do Pré-Romantismo.

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Literatura

Gabarito

1. E
Apesar de Bocege se enquadrar no arcadismo, boa parte de sua lírica se configura como um prenúncio
do romantismo por adotar uma poética emotivo-confessional.

2. B
A tematização da tristeza e a linguagem confessional do poema fazem com que o soneto apresente
características que viriam a ganhar força posteriormente, no romantismo.

3. C
Todas são corretas pois, ao referir-se à literatura do setecentos, a questão evoca o arcadismo e são
características do arcadismo: a crítica à vida das grandes cidades, a busca pelo campo e o
aproveitamento do momento (carpe diem).

4. A
Bocage foi um dos maiores sonetistas da história da literatura de língua portuguesa.

5. E
A alternativa em questão se refere ao barroco, e não ao arcadismo.

6. E
A produção lírica de Bocage representa o ápice de sua produção, sendo, se não melhor, equiparável à
sua produção satírica.

7. E
As paisagens como “estado de alma” da questão são relativas a uma linguagem emotiva e interiorizada,
típica do romantismo.

8. D
Apesar de sua obra prenunciar o romantismo, Bocage escrevia sob influência dos valores neoclássicos
árcades.

9. A
Todas as características expressas dizem respeito ao arcadismo.

10. C
Todo o poema busca exaltar a natureza e, nos quartetos, essa exaltação se dá pela descrição de um
lugar calmo e ameno.

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Literatura

Cartas Chilenas

Teoria

Introdução
As Cartas Chilenas foram produzidas no contexto do Arcadismo, ao final do século XVIII, pouco antes da
Inconfidência Mineira. Sua autoria foi desconhecida por bastante tempo, visto que elas eram assinadas por
um pseudônimo, intitulado Critilo. Até o século XX, vários estudiosos investigaram sua linguagem e
compararam com obras da época, chegando à conclusão de que Critilo, na verdade, era Tomás Antônio
Gonzaga, poeta árcade.

Além disso, outros paralelos foram descobertos: da mesma forma que Critilo era Gonzaga, Santiago (a cidade
que é o cenário da obra) era Vila Rica (em Minas Gerais), e o Chile era o Brasil. A questão da importância da
autoria surge a fim de se compreender a intenção da obra: isso fica mais nítido quando se sabe quem escreve
e em qual contexto se escreve.

Vejamos, a seguir, elementos relacionados à vida deste autor.

Tomás Antônio Gonzaga


Tomás Antônio Gonzaga (Porto, 1744 – Moçambique, 1810) foi um dos principais nomes do Arcadismo
brasileiro. Apesar de ter produzido a maior parte de suas obras em Minas Gerais, o autor em questão possuía
nacionalidade portuguesa. Gonzaga, em 1782, foi nomeado Ouvidor em Vila Rica e, além disso, apresentava
relações de amizade com Cláudio Manuel da Costa, o introdutor do movimento árcade no país. Durante o
contexto da Conjuração Mineira, Tomás Antônio Gonzaga foi preso e, depois, exilado em Moçambique, onde
viveu até a sua morte.

Durante o contexto do fim do século XVIII, especificamente a partir de 1783, Vila Rica é governada por Luís da
Cunha Meneses. Essa figura é satirizada nas Cartas Chilenas como um fanfarrão (por isso a necessidade de
as cartas serem anônimas e recorrerem a pseudônimos), visto que, na realidade, Luís da Cunha coloca o
estado de Minas em crise durante o contexto do ouro: afinal, ele toma a frente da exploração, a fim de
enriquecer o reino de Portugal.

Porém, antes de adentrarmos mais nas características das Cartas, vamos relembrar as obras de Tomás
Antônio Gonzaga, que o qualificam como um autor árcade. O autor foi conhecido por suas liras, especialmente
Marília de Dirceu. Essas Liras dividem-se em duas etapas: a que recebe maior atenção por dialogar,
diretamente, com os aspectos árcades, que são os dramas de amor em clima pastoril; e a que representa a
prisão e o exílio do autor em Moçambique.

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Literatura

Características das Cartas Chilenas


Tais cartas foram publicadas apenas no século XIX e, de acordo com os estudos mais recentes realizados,
pressupõe-se que foram produzidas entre 1788 e 1789, um pouco antes da Inconfidência. Para ter acesso
completo à obra, acesse o site do Domínio Público clicando aqui.

● Teor extremamente satírico e crítico


● 13 cartas com versos decassílabos e brancos
● Versos no limiar entre o poético e prosaico (sem os exageros do Barroco, que veio antes, ou do
Romantismo, que vem depois)
● Caráter extremamente irônico, pautado em:
o Escritas em castelhano por Critilo e traduzidas em português por um anônimo
o Pseudônimos
o Nomes dos locais alterados (Chile = Brasil; Santiago = Minas Gerais...)
● Imitação do bem
● Indignação com o mal

Para refletir: quais os limites da sátira?


Muitos podem deduzir que, considerando o caráter crítico das Cartas Chilenas em relação ao governo tirano,
tal obra assume um caráter mais revolucionário; no entanto, não é bem o caso. Ainda que houvesse críticas
claras à tal governante, a fundamentação seguida é mais conservadora: a lei e o sistema são bons, o único
‘errado’ seria o governante.
Além disso, nota-se, no texto (como apontado no segundo texto de apoio abaixo), um discurso machista.
Somado a isso, há também a presença de um caráter elitista e que naturaliza a escravidão, sem mencionar a
hipocrisia, a violência e o abuso de autoridade em determinadas passagens. Logo, é preciso tomar bastante
cuidado antes de considerar tal obra ‘revolucionária’, porque, especialmente, ao olharmos com os olhos
atuais, veremos que não é bem o caso.

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Literatura

Textos de apoio - Trechos extraídos das Cartas Chilenas

Texto I
Carta 1ª Texto II
Amigo Doroteu, prezado amigo, (…) As longas calças pelo umbigo atadas,
Abre os olhos, boceja, estende os braços Amarelo colete e sobre tudo
E limpa, das pestanas carregadas, Vestida uma vermelha e justa farda
O pegajoso humor, que o sono ajunta. De cada bolso da fardeta, pendem
Listadas pontas de dois brancos lenços;
5 – Critilo, o teu Critilo é quem te chama;
90 – Na cabeça vazia se atravessa
Ergue a cabeça da engomada fronha
Um chapéu desmarcado, nem sei como
Acorda, se ouvir queres coisas raras. Sustenta o pobre só do laço o peso.
"Que coisas, ( tu dirás ), que coisas podes Ah ! tu, Catão severo, tu que estranhas
Contar que valham tanto, quanto vale O rir-se um cônsul moço, que fizeras
10 – Dormir a noite fria em mole cama, 95 – Se em Chile agora entrasses e se visses
Quando salta a saraiva nos telhados Ser o rei dos peraltas quem governa ?
E quando o sudoeste e outros ventos Já lá vai, Doroteu, aquela idade
Em que os próprios mancebos, que subiam
Movem dos troncos os frondosos ramos?"
À honra do governo, aos outros davam
É doce esse descanso, não te nego.
100 – Exemplos de modéstia, até nos trajes.
15 – Também, prezado amigo, também gosto Deviam, Doroteu, morrer os povos
De estar amadornado, mal ouvindo Apenas os maiores imitaram
Das águas despenhadas brando estrondo, Os rostos e os costumes das mulheres
E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras, Seguindo as modas e raspando as barbas.
Que então me pintam os ligeiros sonhos. 105 – Os grandes do país, com gesto humilde
20 – Mas, Doroteu, não sintas que te acorde; Lhe fazem, mal o encontram, seu cortejo;
Ele austero os recebe, só se digna
Não falta tempo em que do sono gozes:
Afrouxar do toutiço a mola um nada,
Então verás leões com pés de pato,
Ou pôr nas abas do chapéu os dedos.
Verás voarem tigres e camelos,
110 – Caminha atrás do chefe um tal Robério
Verás parirem homens e nadarem Que entre os criados tem respeito de aio;
25 – Os roliços penedos sobre as ondas. Estatura pequena, largo o rosto,
Porém que têm que ver estes delírios Delgadas pernas e pançudo ventre,
Co'os sucessos reais, que vou contar-te? Sobejo de ombros, de pescoço falto;
Acorda, Doroteu, acorda, acorda; 115 – Tem de pisorga cores e conserva
As bufantes bochechas sempre inchadas.
Critilo, o teu Critilo é quem te chama.
Bem que já velho seja, inda presume
30 – Levanta o corpo das macias penas;
De ser aos olhos das madamas grato
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
E o demo lhe encaixou que tinha pernas
Estranhos casos, que jamais pintaram 120 – Capazes de montar no bom ginete
Na idéia do doente, ou de quem dorme Que rincha no Parnaso. Pobre tonto!
Agudas febres, desvairados sonhos (…) Quem te mete em camisas de onze varas!
Tu só podes cantar, em coxos versos
E ao som da má rebeca, com que atroas
125 – Os feitos do teu amo e os seus
despachos.(…)

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Literatura

Texto III
CARTA 9ª
Em que se contam as desordens que Fanfarrão obrou no governo das tropas.
Agora, Doroteu, agora estava
Bamboando, na rede preguiçosa
E tomando, na fina porcelana,
O mate saboroso, quando escuto
5 – De grossa artilharia o rouco estrondo.
O sangue se congela, a casa treme,
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E pesada porção de estuque velho,
A violência do abalo despegada
Da barriguda esteira, faz que eu perca
10 – A tigela esmaltada, que era a coisa
Que tinha, nesta casa, de algum preço.
Apenas torno em mim daquele susto,
Me lembra ser o dia em que o bom chefe,
Aos seus auxiliares, lições dava
15 – Da que Saxi chamou pequena guerra.
Amigo Doroteu, não sou tão néscio,
Que os avisos de Jove não conheça.
Pois não me deu a veia de poeta,
Nem me trouxe, por mares empolados,
20 – A Chile, para que, gostoso e mole,
Descanse o corpo na franjada rede.
Nasceu o sábio Homero entre os antigos,
Para o nome cantar, do grego Aquiles;
Para cantar, também, ao pio Enéias,
25 – Teve o povo romano o seu Vergílio:
Assim, para escrever os grande feitos
Que o nosso Fanfarrão obrou em Chile,
Entendo, Doroteu, que a Providência
Lançou, na culta Espannha, o teu Critilo.
30 – Ora pois, Doroteu, eu passo, eu passo
A cumprir, respeitoso, os meus deveres
E, já que o meu herói, agora, adestra
Esquadras belicosas, também, hoje,
Tomarei por empresa só mostrar-te
35 – Que ele fez, na milícia, grandes coisas.
Ha, nesta capital, um regimento
De tropa regular, a quem se daga.(…)

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Literatura

Exercícios

1. Gregório de Matos, no texto em questão, traz a sua faceta lírica, com a temática amorosa ganhando
destaque. Já o texto de Tomás Antônio Gonzaga, Cartas Chilenas, conforme estudado neste material,
possui um caráter satírico e irônico, buscando criticar o governo mineiro.
Poema satírico sobre os desmandos administrativos e morais imputados a Luís da Cunha Menezes,
que governou a Capitania das Minas de 1783 e 1788:
a) Marília de Dirceu
b) Vila Rica
c) Fábula do Ribeirão do Carmo
d) Cartas Chilenas

2. Leia o fragmento abaixo, extraído de Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga:


[...]
Ora pois, doce amigo, vou pintá-lo
da sorte que o topei a vez primeira;
nem esta digressão motiva tédio
como aquelas que são dos fins alheias,
que o gesto, mais o traje, nas pessoas
faz o mesmo que fazem os letreiros
nas frentes enfeitadas dos livrinhos,
que dão do que eles trazem boa ideia.
[...]

Sobre o livro Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, e sobre o filme O Aleijadinho, de Geraldo
Pereira dos Santos, é INCORRETO afirmar:
a) O poema foi escrito para satirizar as arbitrariedades de um governador da Vila Rica Colonial.
b) As narrativas, com linguagens específicas, representam um importante momento da evolução
histórica do Brasil.
c) O poeta vale-se de textos históricos para criar uma poesia de inquestionável valor documental.
d) O título do poema é uma simulação do autor para deslocar de Vila Rica os acontecimentos daquele
momento histórico.

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Literatura

3. (UPE – 2013) Ora pois, doce amigo, vou pintá-lo

Anjo no nome, Angélica na cara Da sorte que o topei a vez primeira;

Isso é ser flor, e Anjo juntamente, (...)

Ser Angélica flor, e Anjo florente, Tem pesado semblante, a cor é baça

em quem, senão em vós se uniformara? O corpo de estatura um tanto esbelta


Feições compridas e olhadura feia;

Quem veria uma flor, que a não cortara Tem grossas sobrancelhas, testa curta,

De verde pé, de rama florescente? Nariz direito e grande, fala pouco

E quem um Anjo vira tão luzente, Em rouco, baixo som de mau falsete;

Que por seu Deus, o não idolatrara? Sem ser velho, já tem cabelo ruço,
E cobre este defeito e fria calva

Se como Anjo sois dos meus altares, À força de polvilho, que lhe deita.

Fôreis o meu custódio, e minha guarda, Ainda me parece que o estou vendo

Livrara eu de diabólicos azares. No gordo rocinante escarranchado!


As longas calças pelo umbigo atadas,

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda, Amarelo colete e sobre tudo

Posto que os Anjos nunca dão pesares, Vestida uma vermelha e justa farda.

Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda. De cada bolso da fardeta pendem

Gregório de Matos Listadas pontas de dois brancos lenços


(Cartas Chilenas)

O texto 7 é um poema de Gregório de Matos, pertencente à estética barroca; já o texto 8 faz parte das
Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, essas produzidas no período literário do Arcadismo
brasileiro. Considerando os fragmentos citados, bem como os aspectos estéticos e históricos dessas
cartas, e do poema, analise as afirmações abaixo e assinale a alternativa CORRETA.
a) Gregório de Matos, por se submeter aos padrões estéticos barrocos, afastou-se da tradição
poética satírica, que marcou o século XVI, já Tomás Antônio Gonzaga se aproximou da sátira
barroca por seguir a mesma linha de Gregório, que criticava apenas os religiosos baianos do século
XVI.
b) Gregório e Gonzaga revelam, nesses textos de caráter religioso, um comportamento conflitante
idêntico àquele manifestado por Gil Vicente em seu Auto da Barca do Inferno, texto dramático
representante da lírica renascentista espanhola.
c) Teocêntrico convicto, Gregório nega os valores antropocêntricos do Renascimento brasileiro,
endossando os princípios da Contra-Reforma. Gonzaga, por sua vez, como fiel antropocêntrico,
critica o homem, tal como se vê nos versos do poema em questão.
d) A poesia lírico-amorosa, de Gregório, compõe uma expressão literária multifacetada, reflexo dos
contrastes ideológicos que marcaram o século XVII. Já a poesia de Gonzaga utiliza-se de um forte
teor irônico-satírico para traçar o perfil de Cunha Meneses, governo de Minas Gerais à época
árcade.
e) Gregório de Matos foi o divulgador, aqui no Brasil, da mais alta expressão da lírica trovadoresca
ao produzir não só cantigas satíricas como também cantigas de amor e de amigo, e Gonzaga foi
seu fiel seguidor nesse processo.

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Literatura

4. Ornemos nossas testas com as flores,


e façamos de feno um brando leito;
prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
gozemos do prazer de sãos amores (...)
(...) aproveite-se o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças
e ao semblante a graça.
(Tomás Antônio Gonzaga)

Nos versos acima:


a) O eu-lírico, ao lamentar as transformações notadas em seu corpo e alma pela passagem do tempo,
revela-se amoroso homem de meia-idade.
b) Que retomam o tema e estrutura de uma “canção de amigo”, está expresso o estado de alma de
quem sente a ausência do ser amado.
c) Nomeia-se diretamente a figura ironizada pelo eu-lírico, a mulher a quem se poderiam fazer
convites amorosos mais ousados.
d) Em que se notam diálogo e estrutura paralelística, o ponto de vista dominante é o do amante que
vê seus sentimentos antagônicos refletidos na natureza.
e) A natureza é o espaço onde o amado se sente à vontade para expressar diretamente à amada suas
inclinações sensuais.

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Literatura

5. O tom satírico verificado em Cartas chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga, também está presente na
seguinte estrofe de Gregório de Matos (1636-1696):

a) Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,


Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro:

b) Ardor em firme coração nascido;


Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

c) Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,


É verdade, Senhor, que hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

d) Senhor Antão de Sousa de Meneses,


Quem sobe a alto lugar, que não merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.

e) À margem de uma fonte, que corria,


Lira doce dos pássaros cantores
A bela ocasião das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.

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Literatura

Gabarito

1. D
As cartas chilenas marcaram o cenário de Minas Gerais, uma vez que, de modo anônimo, criticaram o
sistema governamental vigente.

2. C
As cartas chilenas, na verdade, estabelecem uma releitura da realidade brasileira e possuem caráter
satírico. Sendo assim, é incorreto alegar que o texto é pautado em fatos históricos que servem como
documento.

3. D
No primeiro texto, nota-se uma das faces presentes na poética de Gregório de Matos, sendo a temática
lírica/amorosa. No poema, observamos o paralelo estabelecido entre uma figura amada e um anjo. Já
no texto seguinte, extraído das Cartas Chilenas, a temática é diferente: carregadas de um teor irônico e
satírico, as cartas em questão procuram trazer uma crítica ao governo vigente em Minas Gerais.

4. E
No Arcadismo, o ambiente natural é utilizado, muitas vezes, como cenário para a expressão do
convencionalismo amoroso. Nesse sentido, o eu lírico usufrui desse cenário para expressar à amada
suas inclinações amorosas, a fim de aproveitarem o presente enquanto os amantes ainda são jovens.

5. D
O tom satírico e, inclusive, ofensivo, está presente nos versos da alternativa D. O eu lírico traz alguns
xingamentos direcionados, como em ‘asno vai, burro parece’.

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