Por Que A Língua Portuguesa Não É Machista - PET Direito UnB
Por Que A Língua Portuguesa Não É Machista - PET Direito UnB
Por Que A Língua Portuguesa Não É Machista - PET Direito UnB
que a língua portuguesa não é machista – PET Direito UnB
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Programa de Educação Tutorial
REFLEXÕES
Por que a língua portuguesa não é machista
27/06/201215/07/2012
MARCONI LENZA
11 COMENTÁRIOS
São duas as coisas que me incomodam tanto quanto ouvir os sermões da minha mãe ou dos
meus antigos professores. A primeira delas é dar à linguagem um caráter metanarrativo, que é
diferente do meu discurso; a segunda, é negar minha individualidade, ou, em outras palavras,
fazer com que toda minha forma de pensar, que é diferente, ou apenas minha, seja restrita à
estrutura da língua e não ao modo como penso, embora concorde com um pensamento aqui e
outro ali, porque, convenhamos, é um pouco difícil ser totalmente original.
Como diz o título, estou me referindo à linguagem inclusiva. O nome remete à inclusão das
mulheres num discurso (ou metadiscurso?)[1] no qual elas eram desde sempre excluídas, de
acordo com essas próprias mulheres. Nossa língua, com quase nenhum resquício do gênero
neutro (como os pronomes “aquilo” e “isto”), sempre deu mais ênfase ao gênero masculino.
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acordo com essas próprias mulheres.
23/05/2016 Nossa língua, com quase nenhum resquício do gênero
Por que a língua portuguesa não é machista – PET Direito UnB
neutro (como os pronomes “aquilo” e “isto”), sempre deu mais ênfase ao gênero masculino.
Quando, por exemplo, nos referimos a um homem e a uma mulher, nós usamos o pronome
pessoal “eles”, mesmo se forem duas mulheres e apenas um homem.
(hᜂps://petdirunb.files.wordpress.com/2012/06/pet4.jpg)Uma
breve retomada ao aspecto histórico da língua pode nos
responder por que o português tem preferência sobre as
desinências masculinas às femininas. A língua portuguesa foi‑se
transformando a partir do latim (ou, especificamente, do latim
vulgar, conhecido como sermo vulgaris), que possui o gênero
neutro além dos outros dois. Quando declinamos os pronomes
pessoais is, ea, id (ele, ela, isso), temos no caso ablativo: eo, ea, eo
(para ele, para ela, para ele); no genitivo plural: eorum, earum, eorum (deles, delas, deles), sem
citar os casos genitivo singular e dativo, nos quais as três declinações de gênero são iguais (ejus,
ei, respectivamente).
No idioma holandês não existe essa diferença entre os pronomes pessoais relativos à maiorias
ou artigos masculinos e femininos (quando há um homem e duas mulheres, diz‑se “zij” –
pronuncia‑se zéi, sendo o contrário também verdadeiro). O verbete “de” é utilizado para se
referir tanto à “de man” (o homem) quanto à “de vrouw” (a mulher); do mesmo modo, “het”
relaciona‑se aos substantivos neutros, como em “het strand” (a praia). O plural de todas as
palavras, masculinas, femininas e neutras é representado por “de”, como em “de kinderen” (as
crianças) ou “de huizen” (as casas).
O bom de tudo isso é que, desde a criação do idioma holandês, o uso do mesmo artigo para o
singular e o plural, ou masculino e feminino, nunca foi sonoramente estranho a seus falantes
pelo simples fato de as pessoas não terem tido tempo de se acostumar com o contrário.
Poderíamos até pensar em usar outras vogais para nos referirmos a homens e mulheres no
português, mas soaria tão estranho que o bom senso me leva a acreditar que as pessoas nunca
se acostumariam com isso – em outras palavras, não daria certo.
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A Holanda foi, curiosamente, um dos primeiros países do mundo a conferir o direito de voto às
mulheres, em 1917. Apesar disso, a Rússia, cujo idioma se utiliza de pronomes diferentes para
o masculino (Он), feminino (Онa) e o plural (Oни), dando prioridade ao masculino, também o
fez logo no mesmo ano durante a Revolução Bolchevique. Nos Estados Unidos, a luta pelo
direito de voto das mulheres começou em 1848, tendo sido “concretizada” apenas em 1920,
quando foi aprovada a Emenda Constitucional nº 19 e 36 dos 48 estados americanos tiveram de
ratificá‑la. Estados conservadores como o Mississipi só a ratificaram décadas depois, em 1984.
E por que falar do voto? Ora, se o voto não é uma das expressões sociais mais significativas?
Foi o voto que deu às mulheres maior possibilidade de serem ouvidas no âmbito político e
social, além de fazer valer suas vontades como as dos homens, ainda que de modo restrito, pois
as leis não abrangem de todo o pensamento das pessoas. O fato é que usei desse exemplo para
dizer que não, a estrutura da língua não pode limitar o modo de pensar de uma sociedade ou
de um indivíduo.
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(hᜂps://petdirunb.files.wordpress.com/2012/06/pet3.jpg)O
voto não diz que não haja machismos na sociedade pelo fato
de ter sido concedido o direito de voto às mulheres e sim que
há uma parte daquela sociedade que não é machista. Apesar
de lados diferentes contemplarem a mesma língua, há pessoas
que são machistas e pessoas que não o são. O caso se torna
mais explícito quando analisamos o aspecto da língua sobre as
colônias que receberam o idioma do país colonizador como
seu. Dentre elas está a Nova Zelândia, colônia inglesa e o
primeiro país do mundo a dar o direito de voto para as
mulheres, em 1893!
Tal como minha mãe e meus professores ao desconsiderarem o comportamento dos demais
alunos, dizer que a estrutura das palavras oprime pelo simples fato de dar relevância para as
desinências masculinas em prol das femininas (lembrando mais uma vez que o português não
possui desinências neutras e, mesmo se houvesse, elas se pareceriam bem mais com as
masculinas, pois “aquilo” ou “isto” terminam com “o”) é dizer que há um metadiscurso
específico por trás da fala de cada pessoa, um metadiscurso que exclui, mesmo sem querer, a
intenção do locutor.
Em outras palavras, é dizer que tudo o que eu penso ou acredito é condicionado pela forma
como a estrutura de uma frase se constrói e não pelo modo ou o contexto em que a uso. Se
assim o fosse, não poderíamos jamais dizer que alguém usou de algum contexto ironicamente,
embora eu não entenda muito de ironias, pois estaríamos analisando apenas a estrutura
semântica/sintática da frase, deixando de lado toda a intenção por trás do discurso.
Um dos meios criados para contornar essa “opressão” é citar as desinências femininas
separadas por algum sinal junto às masculinas, embora as femininas, na maioria das vezes,
estejam sempre a frente, como exemplo, dizer “as/os alunas/os” ou até usar “x” e “@”, como
“alunxs” e “alun@s”. O grande problema disso é que a maioria das pessoas não consegue
terminar de ler uma frase inteira assim sem se cansar, conquanto a maioria dos textos do
Direito consiga fazê‑lo sem ter que se utilizar de repetições desnecessárias, apesar de também
fazer uso dessas mesmas repetições.
Admito que a ideia por trás da linguagem inclusiva é das melhores, mas que é praticamente,
para não dizer de todo, intangível em nosso idioma. Nos acordos ortográficos que promovem
mudanças na língua portuguesa é sempre tomado bastante cuidado ao se suprimir acentos
gráficos, deixando a fonética quase sempre inalterada, uma vez que é de conhecimento geral
que a palavra começaria a soar de forma estranha e o termo logo cairia em desuso, podendo o
acordo ser, inclusive, desconsiderado por seus falantes.
contente com o transporte”, por uma simples questão de praticidade, como exemplo do
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contente com o transporte”, por uma simples questão de praticidade, como exemplo do
próprio manual – a mesma praticidade que transformou, sucessivamente, o “vossa mercê” em
“você”.
(hᜂps://petdirunb.files.wordpress.com/2012/06/pet2.jpg)
Por fim, podemos substituir palavras como “os juízes” por “poder judiciário” ou “os
assessores” por “a assessoria” sem quase nenhuma dificuldade. Talvez o fato demandasse
algum tempo para que as pessoas se acostumassem, mas, antes de tudo, devemos entender que
o discurso nunca é realmente neutro e que a linguagem nunca fala por si só, principalmente em
uma sociedade tão multicultural como o Brasil do século XXI. No caso americano, a sociedade
possuía costumes diametralmente opostos entre o norte e o sul, como no caso do Mississipi, e
ainda assim compartilhavam do mesmo idioma, que não faz distinção de desinências. Podemos
dizer, então, que o inglês retratava o machismo do sul nas regiões do norte? A resposta fica por
sua conta.
Não podemos negar que existem prerrogativas em uma fala, embora elas não se refiram a um
contexto estranho ao conhecimento do locutor, mas, sim, a cada pessoa separadamente (com
todas as suas implicações históricas e sociais). Tomar tal premissa como certa é fazer
justamente o contrário do que a linguagem inclusiva propõe, que é descaracterizar a expressão
por trás da fala de cada pessoa, como as próprias leis o faziam ao tentar calar os anseios de
tantas mulheres, que foram pouco a pouco garantindo seus direitos através do voto,
principalmente o direito de poderem se expressar sem que suas falas estivessem ligadas a um
discurso característico daquela mesma sociedade machista que ainda deixa seus resquícios por
entre os tempos.
Marconi de Paiva Lenza
[1] Uso o termo “metadiscurso” no sentido de um discurso além do discurso. Um discurso que
é estranho ao meu, como dizer que minha fala é machista (metadiscurso) por usar “Bom dia,
alunos”, querendo me referir a todas as pessoas presentes na sala (meu discurso). Reparem que
minha intenção não foi negar o fato de que nossas ideias são condicionadas pela convivência no
mundo e com outras pessoas, mas tão somente criticar a premissa de que a estrutura de uma
língua pode falar por si própria conquanto a intenção do falante é desconsiderada.
[2] Declinar uma palavra significa flexioná‑la de acordo com a função que ela exerce numa
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[2] Declinar uma palavra significa flexioná‑la de acordo com a função que ela exerce numa
frase (caso). Por exemplo: regina (rainha) é escrito assim quando exerce a função de sujeito ou
predicativo do sujeito. Se fosse um objeto direto, seria escrito como reginam (regin – radical; am
– desinência do caso acusativo singular, que representa os objetos diretos). Nautae reginam
vocabant (Os marinheiros chamavam a rainha).
[3] Na linguagem do dia‑a‑dia, usa‑se comumente o pronome “loro” para se referir ao plural.
No entanto, a literatura italiana, principalmente tradicional, do mesmo modo que faz uso do
passato remoto no lugar do passato prossimo, apesar de possuírem o mesmo significado, também
se utiliza de pronomes como “egli” (ele) ao invés do “lui“, “ella” (ela) no lugar de “lei” e, por
fim, “essi” (eles) e “esse” (elas) ao invés do pronome “loro” (eles), que não faz distinção de
gênero na referência.
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11 thoughts on “Por que a língua portuguesa não
é machista”
Nayara Macedo diz:
27/06/2012 ÀS 09:49
Excelente texto, Marconi! De fato, muito bem escrito. Porém acredito que haja alguns
equívocos quanto ao objetivo geral da linguagem inclusiva e do feminismo de forma geral.
Em primeiro lugar, acredito que, na realidade, o objetivo maior da linguagem inclusiva não
é mudar a língua portuguesa, nem acusar as pessoas que usam a desinência masculina de
intencionalmente estarem oprimindo ou desclassificando o gênero feminino. Na verdade, a
proposta relaciona‑se com a concepção grega de “Espanto”, ou seja, espantar‑se com o
comum. E com que finalidade? Oras, é através do “espanto” que começamos a nos
questionar e é esse questionamento a intenção primordial de qualquer discurso que seja
essencialmente progressista. Assim, quando se diz “Boa noite a todas e todos”, a intenção
não é acusar aos outros de suprimirem as mulheres no todos, mas sim causar uma reflexão
geral acerca das relações de gênero. Incomoda? Sim, quase tudo que traz um
questionamento metafísico incomoda. É efetivo? Não sei, não me sinto na propriedade de
julgar. A origem da língua, como você mesmo mostrou, é machista, uma vez que data de
uma sociedade patriarcal e a reflexão, mesmo que sem resultados, já é algo positivo. Em 6/15
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uma sociedade patriarcal e a reflexão, mesmo que sem resultados, já é algo positivo. Em
segundo lugar, não considero o direito à voto suficiente. Embora tenha sido um avanço, o
pior tipo de preconceito ainda é aquele que está implícito no cotidiano… Aquele do tipo
“Eu não sou contra gays, mas se meu filho fosse…”. Quando uma mãe manda as filhas
lavarem a louça porque são mulheres, quando as amigas julgam que uma delas porque ela
ficou com mais de um na balada… esse tipo de comportamento é o que mata a igualdade de
gênero a cada dia, a cada hora, a cada minuto que se passa, lentamente e sem misericórdia.
As pessoas costumam exaltar a sociedade atual como se estivéssemos próximos de alguma
utopia, mas estamos bem longe disso e isso deve ser lembrado para que possamos
melhorar.
Por fim, acho que as últimas dicas no seu texto são bem plausíveis. Eu mesma sempre tento
substituir a designação das pessoas por “pessoal”, palavra que considero bastante inclusiva.
Acho a linguagem inclusiva um tanto cansativa sim, mas acho importante colocá‑la em
alguns casos e não me incomoda utilizá‑la, a não ser que venha com “x” e “@”, porque
assassinar o português também já é demais.
RESPONDER
Marconi Lenza diz:
27/06/2012 ÀS 12:59
Nay, muito obrigado pelo comentário! Essa questão do “espanto” é realmente
interessante e acho que ela mostra a que se propõe quando é falada, ao contrário da
forma escrita. Eu já vi muitos casos em que, não só eu, mas várias outras pessoas mal
conseguiam terminar um texto cheio de barras e x’s. É realmente muito cansativo…
No mais, devo ressaltar uma coisa: eu não coloquei mesmo o direito de voto como
condição suficiente. Na verdade, só quis mostrar que, pelo direito de voto, havia
disparidades dentro das sociedades. Então, como que uma língua (ou sua estrutura)
pode condicionar o modo de pensar de uma sociedade inteira se todas as línguas vieram
de sociedades machistas, mas, ao contrário do português, o inglês não dá preferência ao
gênero masculino em prol do feminino, usando o “they”, que mais se assemelha ao
neutro?
O centro da minha defesa foi que as línguas possuem uma construção/passado
linguístico diferente, o que não tem nada a ver com falta/excesso de machismo na
sociedade – uma vez que AMBAS vieram de sociedades machistas.
Ou seja, dizer que o português é machista porque dá preferência à “eles” quando há
duas mulheres e um homem é uma premissa das mais falsas. Eu mostrei,
historicamente, como o português se assemelha ao latim, língua de que se deu sua
origem. Em Roma, eles realmente não tinham essa preocupação de incluir as mulheres
nos discursos, tanto porque elas não participavam da política, mas no Brasil, a questão é
completamente estilística.
Não há um gênero neutro no português porque ele foi suprimido (mostrei que ainda há
resquícios dele). Então, ao invés de usar o neutro para plurais coletivos, como seria o
sensato, usa‑se o masculino porque, como mostrei nos vários exemplos do latim, ele é o
mais próximo do gênero neutro e acabou tomando seu lugar.
É isso! Grande abraço!
RESPONDER
Marconi Lenza diz:
28/06/2012 ÀS 22:14
Vou fazer um comentário resguardando a ideia geral do texto, que é: a intencionalidade do
locutor é o que importa num discurso e não uma meta‑intencionalidade supostamente
presente na língua que reflete o machismo da História.
Eu vi em um site dizendo que a língua era machista porque:
“Cachorro: o melhor amigo do homem
Cachorra: puta
Bonequinho: brinquedo
Bonequinha: puta”
Dentre muitos outros.
Ora, quando falamos em tom pejorativo, é claro que “cachorra” soará como “puta”, esse foi
um dos significados dados a palavras dentre os tempos.
Se alguém quer dizer para ofender: “Sua cachorra!”, certamente soará pejorativo.
Se alguém disser: “Minha cachorra mordeu todos os móveis de casa”. Ninguém, em sã
consciência, pensaria que uma garota de programa mordeu os móveis da casa da pessoa.
Do mesmo modo, se alguém disser: “Minha filha está brincando com sua bonequinha”. Por
favor, não pensem que ela está brincando com uma prostituta.
Enfim, a intencionalidade vem antes da palavra. A palavra é um meio para expressar essa
intencionalidade. A imaginação nunca é limitada pela linguagem, nem a forma como vemos
o mundo. Se assim o fosse, todo e qualquer pintor/escritor/poeta estaria fadado, pois não
poderia mais criar.
A questão psicanalítica sobre a linguagem do consciente e do inconsciente (Carl G. Jung)
afirma não apenas que essas linguagens são diferentes, mas também tem tempos e espaços
diferentes. Como exemplo, como descrever perfeitamente um sonho?
Esse é o único exemplo que consigo pensar sobre como a linguagem pode limitar nossa
expressão, jamais nosso mundo.
O plano do simbólico deve ser considerado a partir da intenção do locutor, nunca fora dela.
RESPONDER
Caique diz:
29/06/2012 ÀS 19:37
Só mais um comentário, agora em relação à seu adendo aqui embaixo: Além disso,
“cachorro” também pode ter uma conotação negativa. Do mesmo jeito que se um
indivíduo vocifera “Sua cachorra!” para uma mulher a ideia transmitida pelo vocábulo é
negativa, se esse mesmo indivíduo berrar “Seu cachorro!” para um homem a ideia seria
bem distante da de “Você é o melhor amigo do homem!”. Nesse caso, a conotação
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bem distante da de “Você é o melhor amigo do homem!”. Nesse caso, a conotação
também seria negativa e se aproximaria bastante do sentido de palavras como
“cafajeste” e mesmo da conotação negativa de “cachorra”.
RESPONDER
Caique diz:
29/06/2012 ÀS 19:38
a seu adendo*, sem a ocorrência da crase, haha. (:
Caique diz:
29/06/2012 ÀS 19:32
Muito bom texto, Marconi! Esse é um assunto do qual eu tenho pouco conhecimento, então
seu artigo me ajudou a ver a situação com mais clareza e menos parcialidade, já que somos
constantemente bombardeados por informações que apenas glorificam a linguagem
inclusiva, não levando em conta a falta de praticidade dela. Poucos são os que se aventuram
a ir contra aquilo que é supostamente “inclusivo” e, muitas vezes, esses poucos acabam
edificando argumentos mais sólidos do que aqueles cuja opinião baseia‑se tão‑somente
numa ideia de que há um preconceito (que pode existir de fato ou não) a ser combatido.
Talvez nunca saibamos qual dos lados tem mais razão neste caso específico, mas
argumentos bem‑estruturados como o seu fomentam o diálogo produtivo e contribuem
para a descoberta de soluções. Como disse, não conheço muito o tema, mas seu texto me
ajudou a refletir mais sobre ele e a questionar ambos as linhas de argumentação. Parabéns!
RESPONDER
Marconi Lenza diz:
30/06/2012 ÀS 05:29
Realmente, Caique. Você levantou dois pontos interessantes. Não há como a linguagem
inclusiva possuir efetividade, já que um homem com um discurso machista pode muito
bem se usar dela (uma linguagem pretensamente neutra) e continuar com um discurso
agressivo e excludente – depois dizem que não se separa discurso/linguagem de
estrutura/palavra. Até você fazer quem pensa o contrário entender isso… (nem tente!).
Além de incluir só quem está disposto a ler aquelas frases maix qux chatxs (e iss@ nã@ é
uma @pinião @penxs minhx), ela exclui, por consequência, quem não está. Não lembram
que a língua é uma questão prática! Se o preconceito com a mulher se manifesta, com
certeza não é na palavra, mas na forma que a palavra é veiculada. As feministas têm é
que mudar a mentalidade das pessoas, não a nossa língua! mas não sei como pretendem
isso já que nem elas são abertas ao diálogo (apesar de dizerem o contrário). A outra é a
questão do “cachorro”, muito bem colocada, que só reafirma a primeira ideia. Há pouco
vêm discordando da minha explicação dizendo que eu ignoro o plano do simbólico, o
que não é verdade. Um símbolo tem vários significados – afinal, a palavra também é um
símbolo e sabemos que ela não guarda apenas um significado. Agora como saber o seu
significado de fato? Ora, analisando o contexto, o conteúdo, a intenção do locutor e por
aí vai. Para entender isso é necessário apenas uma coisa: estar aberto ao diálogo (que
pressupõe convencimento). Eu mesmo ouvi pessoas que só leram o título e me disseram,
de pronto, “vou discordar”. Não se entra numa discussão assim… A não ser para
reafirmar o ego. No mais, obrigado pelo comentário!
RESPONDER
Diego Nardi diz:
02/07/2012 ÀS 01:48
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02/07/2012 ÀS 01:48
Marconi,
Em nenhum momento o movimento feminista nega que é necessário mudar a
mentalidade das pessoas. Ninguém discorda que linguagem inclusiva pode ser
utilizada para veicular concepções nada inclusivas.
A questão da luta está mais ligada ao desvelamento de situações que se encontram
normalizadas ou ocultadas também pela língua, e, além disso, ao anseio das
mulheres de se referenciarem de forma autônoma e livre dentro da linguagem
através da qual constroem suas narrativas, comunicam‑se e discutem no espaço
público.
A linguagem é elemento constituinte do discurso e, como você disse, o discurso está
sempre dentro de um contexto, havendo uma relação entre ele e a estrutura social.
Citando um autor, pois acho muito pertinente, ele diz: “O discurso contribui para a
constituição de todas as dimensões da estrutura social que a moldam e a restringem
direta ou indiretamente: suas normas e convenções, assim como as relações,
identidades e instituições que se encontram por trás destas. O discurso é uma prática
não apenas de representar o mundo, mas de fazê‑lo significar, constituindo e
construindo o mundo com base em significados” (Fairclough).
É através dela que interagimos no mundo e, para além de uma estrutura funcional
entre vocábulos, a linguagem é uma construção social, e as palavras sempre possuem
um conteúdo que encontra referência nesse contexto e há, evidentemente, um
conteúdo que é compartilhado entre os membros da sociedade, mesmo quando há
diferenças entre indivíduo sobe esses significados.Ou seja, a palavra pode ter
inúmeros significados, mas há um que prevalece para cada contexto na qual ela é
utilizada. Assim, sabemos que cachorro e cachorra podem tão somente se referir ao
animal, como podem ter conotação negativa quando se referem às pessoas. Mas,
vejamos outro exemplo: pegador/pegadora. Quando falamos que um homem é
pegador, para a maior parte das pessoas, isso é positivo; porém, ao falarmos que
uma mulher é pegadora, ela com certeza será chamada ou de cachorra ou de galinha
pela maior parte das pessoas. Essa interpretação é inata à língua? Certamente que
não. Mas as palavras, a linguagem, não existem fora do contexto social e seus
significados fazem parte de sua estrutura. Aí está não apenas a função representativa
da linguagem, bem como sua função constitutiva, a atribuição de significado ao
mundo.
Nessa dupla função de elemento que representa/constitui é legítimo que as mulheres
queiram dentro de seus anseios se fazer representadas, possibilitando que nessa
atuação de construção de significados ao mundo ela possam estar também
representadas. Para além disso, não vejo sentido em fazer uma análise linguística da
questão e tentar separá‑la da questão social que subjaz: é natural que não basta
mudar a linguagem, é preciso mudar várias outras coisas. Porém, as próprias regras
linguísticas são fruto de decisões políticas, e você questiona a questão do inglês,
afirmando reiteradamente que ele não é machista. As feministas já encamparam
várias lutas e conquistaram algumas: o pronome de tratamento Ms., que substituiu
Miss/Mrs., a mudança nos substantivos referentes às profissões (policeman passou a
ser police officer), pregam a utilização do termo herstory ao invés de history, enfim,
há várias pautas do movimento feminista por lá que, sinceramente, acho que
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há várias pautas do movimento feminista por lá que, sinceramente, acho que
merecem ser consideradas, afinal, ninguém melhor que as sujeitas da opressão para
determinar se uma língua é ou não um reflexo/barreira da luta por igualdade.
Por não ser possível desvincular linguagem e sociedade, não há como pensá‑la
estática. Já na década de 90 a pauta da linguagem inclusiva era levantada, e, mesmo
após todo esse tempo, os pontos não foram considerados por aqui quando da
reforma ortográfica. Mero preciosismo linguístico? Acredito que não.
A linguagem como meio do discurso, pode tanto reproduzir a sociedade ou
promover mudanças. Mudar uma simples palavra pode ter um efeito revolucionário:
a luta para que o problema de violência doméstica fosse debatido na esfera pública
enquanto um problema social, público, foi alcançado a partir da mudança do termo
que identificava tal conduta – o que era antes “bater na esposa” passou a ser “lesão
corporal contra a mulher”. Ou seja, associando um termo ligado às condutas
criminais iniciou‑se o movimento que retirou a questão da arena de assuntos
privados para a arena de discussão de assuntos públicos.
Não se esqueça que a linguagem não está apenas na fala entre interlocutores: ela está
nas narrativas históricas, em documentos oficiais e em diversos outros textos e
discursos onde não é possível essa análise casual que você propõe, sobretudo em
relação aos textos oficiais, sejam eles decretos, normas, diretrizes, ou qualquer outro
diploma administrativo/legal.
Por fim, acho que é necessário lembrar que a linguagem não é autônoma, ela
depende de nós para que exista. Ela por si só não faz diferença alguma, mas ela pode
abrir caminho para que transformações ocorram.
A própria preocupação de linguistas homens (nunca vi um texto de uma linguista
mulher se opondo à linguagem inclusiva) em defender que a língua não é machista
com base em argumento “técnicos” oriundo do campo da linguagem talvez seja um
reflexo das relações simbólicas que não aceitam/suportam/compreendem a luta das
mulheres para alcançarem a igualdade também na linguagem e elas nem pedem
muito. Pedem que a discriminação de gênero seja eliminada das línguas, e não
obrigam, e nem mesmo pedem, para que as pessoas utilizem x, @, is: é uma sugestão,
o que elas pedem é que, no mínimo, as pessoas tenham consciência da questão e
considerem o movimento, nem que seja por uma nota de rodapé, dizendo que
reconhecem que há discriminação de gênero mas que, por questões estéticas
(menores) irão utilizar esse ou aquele gênero ao longo do texto, da fala, ou vão
alternar aleatoriamente.
Não é uma questão meramente estilística. Está se reproduzindo uma situação de
opressão secular, e, mesmo quando há um debate público sobre a questão, há
insistência de afirmá‑la apenas como uma preferência linguística, já que o gênero
masculino foi utilizado para marcar o gênero neutro, se aproximando dele. Mero
acaso? Claro que não.
Acho que o ponto fraco da sua argumentação é querer justificar que o inglês, oriundo
de uma sociedade machista, não possui traços de machismo e, partindo daí, afirmar
que o português não o seria, sendo mero acaso linguístico a utilização do masculino
como neutro. (“O centro da minha defesa foi que as línguas possuem uma
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como neutro. (“O centro da minha defesa foi que as línguas possuem uma
construção/passado linguístico diferente, o que não tem nada a ver com falta/excesso
de machismo na sociedade – uma vez que AMBAS vieram de sociedades
machistas.”)
Desde as primeiras discussões sobre o texto venho olhando websites de movimentos
feministas em países de língua inglesa. As mulheres possuem várias reivindicações e
lutas no contexto da linguagem inclusiva nesses países, alcançando várias vitórias. E,
como disse, nada melhor que as sujeitas da opressão para apontar se há ou não
opressão.
Sobre a questão da psicanálise e intencionalidade, acho que falei tudo que tinha para
falar no grupo de e‑mails. Fica até a sugestão do texto que o Argolo lembrou, do
Walter Benjamin, que fala sobre a situação dos soldados que retornavam da primeira
guerra.
Enfim, não sou especialista em linguagem, mas tá ae minha opinião.
Abraços
Marconi Lenza diz:
02/07/2012 ÀS 02:46
Muito pertinentes seus comentários, Diego. Isso que você falou me confunde: o que o
movimento quer não é impor o uso de x, @ etc. O problema é que o movimento é por
demais descentralizado. Quando eu critico uma parte, vem outra me dizendo que o
movimento não diz isso, mas alguns integrantes. Por fim, isso me deixa confuso.
Mas deixa eu responder aqui, gostei muito do seu comentário.
Eu concordo com quase tudo que você disse! mas isso só reforça minha ideia de que temos
que mudar a mentalidade das pessoas e não a língua. Temos que fazer as pessoas tirarem
esses significados pejorativos que !elas colocaram! nas palavras por preconceito. Quando o
preconceito não mais existir, nem precisaremos nos remeter a esses significados, deixando
as palavras intocáveis.
Dois destaques: “Não é uma questão meramente estilística. Está se reproduzindo uma
situação de opressão secular, e, mesmo quando há um debate público sobre a questão, há
insistência de afirmá‑la apenas como uma preferência linguística, já que o gênero masculino
foi utilizado para marcar o gênero neutro, se aproximando dele. Mero acaso? Claro que
não.”
Não é mesmo mero acaso. “(…) a razão pela qual usamos o gênero masculino para nos
referir a homens e mulheres não é ideológica, mas fonética. Em latim, havia três gêneros –
masculino, feminino e neutro –, cujas terminações mais frequentes eram ‑us, ‑a e ‑um. O
chamado gênero complexo, que agrupa substantivos de gêneros diferentes, era indicado em
latim pelo neutro.
Quando, por força da evolução fonética, as consoantes finais do latim se perderam, as
terminações do masculino e do neutro se fundiram, resultando nas desinências portuguesas
‑o e ‑a, características da maioria das palavras masculinas e femininas, respectivamente. Ou
seja, o nosso gênero masculino é também gênero neutro e complexo. Portanto, não há nada
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23/05/2016 Por que a língua portuguesa não é machista – PET Direito UnB
seja, o nosso gênero masculino é também gênero neutro e complexo. Portanto, não há nada
de ideológico, muito menos de machista, na concordância nominal do português.” (Aldo
Bizzocchi)
Além do mais eu mostrei no meu texto porque elas se fundiram – devido a sua enorme
semelhança. Apesar de não conhecer de todo, mas comparando o que já conheço, nos textos
latinos não se referia a duas mulheres e um homem, eles nem tinham essa preocupação. A
ideia de indivíduo nem existia nessa época.
E, Diego, sobre seus argumentos de inglês. Não sei onde você procurou, mas não sei se elas
são muito confiáveis. Veja:
Origin:
1795–1805; police + ‑man
Related forms
po∙lice∙man∙like, adjective
Origin:
1850–55; police + ‑woman (nessa época o movimento feminista nem sequer existia e o
número de mulheres na polícia devia ser tão pequeno ou inexistente que era totalmente fora
de prática dar um nome a elas).
police officer
noun
1.
any policeman or policewoman; patrolman or patrolwoman.
2.
a person having officer rank on a police force.
Origin:
1790–1800
O termo police officer é inclusive anterior ao termo “policeman”! Cheque suas fontes
(provavelmente deve ser alguma feminista que escreveu isso, tenho certeza – e depois você
diz que não é sensato procurar a raiz das palavras =P)
Fonte: Dictionary.com
Agora observe isso:
her∙sto∙ry [hur‑stuh‑ree, hurs‑tree]
noun, plural her∙sto∙ries.
history (used especially in feminist literature and in women’s studies as an alternative form
to distinguish or emphasize the particular experience of women).
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23/05/2016 Por que a língua portuguesa não é machista – PET Direito UnB
to distinguish or emphasize the particular experience of women).
Origin:
1975–80
O uso da palavra é recente e foi um neologismo criado pelas próprias feministas para
enfatizar uma forma de experiência própria das mulheres (não estou vendo homens aí
também).
Agora o termo History:
his∙to∙ry [his‑tuh‑ree, his‑tree]
noun, plural his∙to∙ries.
1.
the branch of knowledge dealing with past events.
2.
a continuous, systematic narrative of past events as relating to a particular people, country,
period, person, etc., usually wriᜂen as a chronological account; chronicle: a history of
France; a medical history of the patient.
3.
the aggregate of past events.
4.
the record of past events and times, especially in connection with the human race.
5.
a past notable for its important, unusual, or interesting events: a ship with a history.
(não vejo nenhuma referência a mulher ou homens aí… o termo “herstory” quer
individualidade, o “history” nem com isso se preocupa)
Origin:
1350–1400; Middle English historie < Latin historia < Greek historía learning or knowing by
inquiry, history; derivative of hístōr one who knows or sees (akin to wit, video, veda)
O termo ʺhistoryʺ data de 1350! E ainda vem do grego. Essas feministas que disseram isso
realmente pensavam que não era necessário estudar línguas (nem precisava dizer). História
significa ʺpesquisaʺ em grego e, nem em latim, o prefixo ʺhisʺ tem qualquer menção ao sexo
masculino. Isso foi a coisa mais absurda que eu já ouvi na vida (com todo respeito). Só falta
elas virem dizer que ʺhistologyʺ não estuda os tecidos, mas os homens.
No caso de “Ms.” você está certo.
“Ms. came into use in the 1950s as a title before a woman’s surname when her marital status
was unknown or irrelevant. In the early 1970s, the use of Ms. was adopted and encouraged
by the women’s movement, the reasoning being that since a man’s marital status is not
revealed by the title Mr., there is no reason that a woman’s status should be revealed by her
title. Since then Ms. has gained increasing currency, especially in business and professional
use.”
Essa questão me incomoda muito, mas vou deixar de comentar porque não tenho
conhecimento suficiente. Enfim…
A língua vai mudando e não é por causa do machismo! Olhe, tenho datas a provar!
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23/05/2016 Por que a língua portuguesa não é machista – PET Direito UnB
A língua vai mudando e não é por causa do machismo! Olhe, tenho datas a provar!
man∙kind [man‑kahynd for 1; man‑kahynd for 2]
noun
1.
the human race; human beings collectively without reference to sex; humankind.
2.
men, as distinguished from women.
Origin:
1250–1300; Middle English;
hu∙man∙kind [hyoo‑muhn‑kahynd, ‑kahynd or, often, yoo‑]
noun
human beings collectively; the human race.
Origin:
1635–45; (a sociedade ainda era machista! lembra‑te! nem preciso dizer que não havia
feminismo nessa época)
No mais, eu sempre aprecio seus comentários! Me fizeram pesquisar e aprender bastante
(além do seu próprio comentário). Vê se aparece terça‑feira quando formos discutir meu
artigo sobre democracia lá na sala do PET, por favor!!! Agora vou ler o ʺDeath in Veniceʺ do
Thomas Mann que você tinha recomendado. Abraços!
RESPONDER
plurais diferenciados – a farpa diz:
25/01/2016 ÀS 23:38
[…] colectivo como sendo masculino, não por falta de respeito a uma suposta minoria
feminina – ou porque a língua portuguesa é Machista ‑, mas porque a sua génese vem do
latim e do sujeito […]
RESPONDER
Diᜂo Cunha diz:
30/01/2016 ÀS 22:33
E os coletivos “turma”, “equipe”, “galera” não contam? Por que ninguém luta pelo
feminino de “monstro”? Um homem pode ser uma vítima e uma pessoa porque essas duas
palavras são femininas.
A linguagem inclusiva me soa como mais uma demagogia esquerdista.
RESPONDER
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