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Noite Na Taverna

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Noite na Taverna (1855)

Autor: Álvarez de Azevedo (sob o pseudônimo Job Stern)

How now, Horatio? You tremble, and look


pale. Is not this something more
than phantasy? What think you of it?

(E então, Horácio? Você treme, e parece pálido. Não é mais que fantasia? O que acha
disso?)
Hamlet. Ato I. Shakespeare

I UMA NOITE DO SÉCULO [Prólogo, Moldura narrativa]

Bebamos! nem um canto de saudade!

Morrem na embriaguez da vida as dores!

Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores!

José Bonifácio
[Personagens/Narradores na taverna:

Solfieri – Bertram – Gennaro – Claudis Hermann – Johann

Personagens na taverna: Archibald, Arnold]

[Johann] — Silêncio, moços! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres
dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro
naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?

[...]

[Archibald] A verdadeira filosofia é o epicurismo. Hume bem o disse: o fim do homem


é o prazer. Daí vede que é o elemento sensível quem domina. E pois ergamo-nos, nós
que amanhecemos nas noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a ciência é falsa
e esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher.
— Bem! muito bem! é um toast de respeito!
[Archibald] — Quero que todos se levantem, e com a cabeça descoberta digam-no: Ao
Deus Pã da natureza, aquele que a antigüidade chamou Baco o filho das coxas de um
deus e do amor de uma mulher, e que nós chamamos melhor pelo seu nome — o
vinho!...
— Ao vinho! ao vinho!
Os copos caíram vazios na mesa.
[Archibald] — Agora ouvi-me, senhores! entre uma saúde e uma baforada de fumaça,
quando as cabeças queimam e os cotovelos se estendem na toalha molhada de vinho,
como os braços do carniceiro no cepo gotejante, o que nos cabe é uma história
sanguinolenta, um daqueles contos fantásticos como Hoffmann os delirava ao clarão
dourado do Johannisberg!
[Solfieri] — Uma história medonha, não, Archibald? falou um moço pálido que a esse
reclamo erguera a cabeça amarelenta. Pois bem, dir-vos-ei uma história. Mas quanto a
essa, podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. Não é
um conto, é uma lembrança do passado.
— Solfieri! Solfieri! aí vens com teus sonhos!
— Conta!
Solfieri falou: os mais fizeram silêncio.

II – SOLFIERI

...Yet one kiss on your pale clay


And those lips once so warm — my heart! my heart!
Cain. Byron

Sabeis-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote


dorme a gosto a amásia; no leito da vendida se pendura o crucifixo lívido. É um
requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio à convulsão do amor, o beijo lascivo
à embriaguez da crença.
Era em Roma. Uma noite, a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu
morno. O fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia
bela. Eu passeava a sós pela ponte de ***. As luzes se apagaram uma por uma nos
palácios, as ruas se faziam ermas e a lua de sonolenta, se escondia no leito das nuvens.
Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca.
- A face daquela mulher era como de uma estátua pálida à lua. Pelas faces dela, como
gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.
Eu me encostei à aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela...
e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um
como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do
vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.
Depois, o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia
alguém nas ruas. Não viu ninguém: saiu. Eu segui-a.
A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu e a chuva caía às gotas
pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem grossas lágrimas de água, como sobre um
túmulo prantos do órfão.
Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim, ela parou; estávamos num
campo.
Aqui, ali, além, eram cruzes que se erguiam entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se.
Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.
Não sei se adormeci: sei, apenas, que quando amanheceu achei-me a sós no
cemitério. Contudo, a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-
santo estavam quebradas junto a uma cruz.
O frio da noite, aquele sono dormido à chuva, causaram-me uma febre. No meu
delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo
aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo...
Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres, nada me saciava; no sono
da saciedade me vinha aquela visão...
Uma noite e após uma orgia, eu deixara dormida no leito a bela condessa Barbara.
Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia
nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. Saí.
Não sei se a noite era límpida ou negra; sei apenas que a cabeça me escaldava de
embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu
bebera até à última gota do vinho do deleite...
Quando dei acordo de mim, estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus
raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num
caixão entreaberto. Abri-o. Era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas
da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal-
apertados... Era uma defunta! E aqueles traços todos me lembraram uma idéia perdida...
Era o anjo do cemitério! Cerrei as portas da igreja que, ignoro porque, eu achara abertas.
Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo...
Sabeis a história de Maria Stuart degolada e do algoz, "do cadáver sem cabeça e
do homem sem coração", como a conta Brantôme? - Foi uma idéia singular, a que eu
tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim. Rasguei-lhe
o sudário, despi-lhe o véu e a capela, como o noivo os despe à noiva. Era mesmo uma
estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que
lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso - cevei-lhe em perdição aquela vigília.
A madrugada passava já frouxa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus
lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito, abriu os
olhos empanados. Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa, apertou-
me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados... Não era já a morte:
era um desmaio. No aperto daquele abraço havia, contudo, alguma coisa de horrível. O
leito de lajes, onde eu passara uma hora de embriaguez, me resfriava. Pude, a custo,
soltar-me naquele aperto do peito dela... Nesse instante, ela acordou...
Nunca ouvistes falar de catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao
acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros
tolhidos e as faces banhadas de lágrimas alheias, sem poder revelar a vida!
A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar, desmaiara. Embucei-me na capa e
tomei-a nos braços coberta com seu sudário, como uma criança. Ao aproximar-me da
porta, topei num corpo. Abaixei-me e olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja,
que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta...
Saí. Ao passar a praça encontrei uma patrulha.
- Que levas aí?
A noite era muito alta: talvez me cressem um ladrão.
- É minha mulher, que vai desmaiada...
- Uma mulher? Mas, essa roupa branca e longa? Serás, acaso, roubador de
cadáveres?
Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte: era fria.
- É uma defunta
Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida, ainda.
- Vede - disse eu.
O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos da moça. Se eu
sentisse o estalar de um beijo... o punhal já estava nu em minhas mãos frias...
- Boa-noite, moço. Podes seguir - disse ele.
Caminhei. Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo e eu sentia que a moça
ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais esforço...
Quando eu passei a porta, ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi
um grito de medo...
Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos, meus
companheiros, que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.
Fechei a moça no meu quarto e abri.
Meia hora depois eu os deixava na sala, bebendo ainda. A turvação da embriaguez
fez que não notassem a minha ausência.
Quando entrei no quarto da moça, vi-a erguida. Ria de um rir convulso, como a
insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor ouvi-la.
Dois dias e duas noites levou ela de febre, assim.
Não houve sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas
noites e dois dias de delírio.
À noite, saí. Fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente em cera e
paguei-lhe uma estátua dessa virgem.
Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto e, com as
mãos, cavei aí um túmulo. Tomei-a, então, pela última vez nos braços, apertei-a a meu
peito, muda e fria, beijei-a e cobri-a, adormecida no sono eterno, com o lençol de seu
leito. Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele,
Um ano, - noite a noite - dormi sobre as lajes que a cobriam... Um dia, o estatuário
me trouxe a sua obra. Paguei-lha e paguei o segredo...
- Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo
véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te disse que era uma virgem que dormia?
- E quem era essa mulher, Solfieri?
- Quem era? Seu nome?
- Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho queima assaz os
lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormiu e sentiu morrer a seus
beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?
Solfieri encheu uma taça e bebeu-a. Ia erguer-se da mesa, quando um dos
convivas tomou-o pelo braço.
- Solfieri, não é um conto, isso tudo?
- Pelo inferno, que não! Por meu pai, que era conde e bandido! Por minha mãe
que era a bela Messalina das ruas! Pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei
aquela mulher com meus pés na sua cova de terra, eu vo-lo juro! - guardei-lhe como
amuleto a capela de defunta. Ei-la!
Abriu a camisa e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.
- Vedes-la? Murcha e seca, como o crânio dela.

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