Grande Reforma Do Alto Forno 2 Da VM Do Brasil

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GRANDE REFORMA DO ALTO-FORNO 2 DA V&M DO

BRASIL1

Charles Sóstenes Assunção, MSc 2


Edson Geraldo de Miranda3

Resumo
Este trabalho apresenta algumas etapas do desenvolvimento da grande reforma do
Alto-Forno 2 da V&M do Brasil ocorrida em 2008, e aborda os seguintes aspectos:
equipe de trabalho, principais atividades do escopo, controle do orçamento,
sistemática de acompanhamento dos prazos e lições aprendidas. Na fase de
execução estiveram envolvidas cerca de 500 pessoas por dia, de diversas
disciplinas, tais como mecânica, hidráulica, refratário, elétrica, automação e civil,
realizando atividades tanto no Alto-Forno quanto em seus periféricos. Durante toda a
reforma ocorreram 5 acidentes com afastamento. Nenhum evento de grave impacto
ambiental foi registrado. Um rigoroso controle das despesas foi realizado antes e
durante a parada proporcionando uma economia de 6% do valor total previsto. O
acompanhamento detalhado das diversas frentes de trabalho bem como ações
rápidas de correção permitiram que o tempo de parada fosse reduzido de cinqüenta
e cinco para cinqüenta e três dias. Estes dois dias de antecipação significaram um
retorno da ordem de um milhão e seiscentos mil reais em termos de margem de
contribuição.
Palavras-chave: Grande reforma; Alto-forno; Controle; Acompanhamento.

GREAT REVAMPING OF BLAST FURNACE 2 OF V&M DO BRASIL

Abstract
This paper presents some development steps concerning the great revamping of
Blast Furnace 2 of V&M do Brasil that took place in 2008, and approaches the
following aspects: teamwork, main activities, budget control, schedule follow-up and
important lessons. During the stoppage about 500 people work daily of several
disciplines such as mechanic, hydraulic, refractory, electric, automation and civil,
executing activities both at the blast furnace and at the auxiliary systems. Five
personal accidents happened and no environment damage was detected during the
revamping. A rigorous expenses control was implemented and it resulted in a saving
of 6% of the budget. A detailed follow-up of the several work fronts as well quick
correction actions decreased the total shutdown in two days, which meant a gain
about R$ 1,7 million of contribution margin.
Key words: Great revamping; Blast furnace; Control; Follow-up.

1
Contribuição técnica ao 64° Congresso Anual da ABM, 13 a 17 de julho de 2009, Belo Horizonte,
MG, Brasil.
2
Engenheiro, V&M do Brasil S.A.
3
Coordenador Técnico, V&M do Brasil S.A.
1 INTRODUÇÃO

A V&M do Brasil S.A., situada em Belo horizonte, tem produção anual de aço
em torno de 670 mil toneladas. Seus principais produtos são tubos de aço sem
costura, especialmente voltados para a indústria petrolífera, a indústria automotiva, e
a indústria mecânica.
Para a obtenção do ferro gusa, matéria-prima na produção do aço, a V&M do
Brasil possui dois altos-fornos a carvão vegetal, o alto-forno 1 com capacidade de
1200 t/dia e o alto-forno 2 com capacidade de 600 t/dia.
O alto-forno 2 foi fabricado em 1985 pela Mannesmann Demag LTDA e iniciou
a operação em 06/01/1986, tendo as seguintes características técnicas:
o Capacidade anual = 216.000 t
o Produtividade: ,4 t/m³.d
o Diâmetro do cadinho: 4,2 m
o Diâmetro da goela: 3,52 m
o Altura útil: 16,0 m
o Volume útil: 249 m³
o Volume total: 290 m³
o Número de ventaneiras:10
o Vazão de ar: 36.000 Nm³/h
o Sistema de aquecimento do ar de sopro: 3 regeneradores tipo Glendon
o Topo: duplo cone
o Sistema de carregamento: correia transportadora
Nos vinte e dois anos de operação o Alto-Forno 2 produziu um total de 2.506.273
toneladas de ferro gusa, conforme Figura 1, e foi submetido a três grandes reformas.

1000000
890894 897376

800000
Produção [t]

600000
443625

400000
274378

200000

0
1º 2º 3º 4º
Campanha

Fonte: Technical Specification – Refractory Lining – Blast Furnace 2


Figura 1. Produção do Alto-Forno 2 por campanha

A última grande reforma do Alto-forno 2 ocorrera em 2000 quando foram


implantadas a injeção de finos de carvão e a injeção de gás natural, sendo que a
vida útil mínima esperada era de seis anos. Ao longo da campanha, vários pequenos
reparos foram realizados em paradas de manutenção de rotina com duração
máxima de 7 dias, tendo como atividades principais a troca e/ou o reparo de
periféricos e a projeção de massa refratária no interior do alto-forno.
A partir de 2004, uma nova grande reforma começou a ser planejada com
execução prevista para 2006. Paralelamente ao planejamento da grande reforma,
um plano de extensão de vida útil sendo elaborado e implantado pelas equipes de
operação e manutenção, permitindo que a grande reforma do Alto-Forno 2 fosse
programada para 2008.
O objetivo a ser alcançado com a grande reforma é proporcionar uma vida útil
de 8 anos ao refratário do Alto-Forno, o que equivale à uma produção de 1,7 milhões
de toneladas de ferro gusa, ocorrendo projeções de massa refratária nos 4º e 6º
anos de campanha. Durante este período, apenas pequenas paradas com duração
de até 7 dias serão necessárias.
Devido à sua dimensão e por se tratar de serviço por fim de vida útil do
equipamento, a grande reforma do Alto-Forno 2 foi tratada como um investimento e
todos os processos característicos de um projeto foram executados como
gerenciamento de escopo, tempo, custos, qualidade, recursos humanos,
comunicação, riscos, contratos e integração.
Em seguida, são abordados alguns aspectos da grande reforma do Alto-Forno
2, como equipe de trabalho, escopo, controle de prazo e custo, meio ambiente e
segurança do trabalho, e finalmente as lições aprendidas.

2 EQUIPE DE TRABALHO

Em função da extensão e complexidade do serviço, uma equipe


multidisciplinar composta por pessoas das áreas de manutenção, engenharia,
compras, operação, logística, segurança do trabalho, meio ambiente e
planejamento, foi dedicada para trabalhar na preparação e no planejamento da
grande reforma.
Ao todo, foram 25 pessoas trabalhando no período que antecedeu a
execução da reforma. Durante a execução das atividades em campo estiveram
envolvidas 500 por dia das disciplinas mecânica, elétrica, instrumentação,
automação, refratário, civil e utilidades, que trabalharam em 2 turnos de 11 horas por
dia e 7 dias por semana. Para a execução das atividades da grande reforma, foram
contratadas 15 empresas e foi feito um controle diário do efetivo de cada uma delas,
conforme Figura 2.
A partir deste controle, foi possível corrigir desvios rapidamente. Por exemplo,
nos primeiros dias a empresa 5 estava com o número de profissionais abaixo do
previsto no turno noturno, mas o motivo não era a falta de pessoas e sim o
remanejamento de pessoal para o turno diurno. Por outro lado, a empresa 1 havia
subestimando a quantidade necessária de profissionais no dia 12/05, mas logo
aumentou o seu efetivo no dia 13/05 para que o prazo fosse cumprido.
CONTROLE DIÁRIO DE EFETIVO - AF2 MAIO 2008
Empresa 12/05/2008 13/05/2008 14/05/2008 15/05/2008
Noite Dia Noite Dia Noite Dia Noite Dia
Previsto 24 26 24 26 24 26 24 26
Empresa 1
Real 21 29 51 31 24 24 22 28
Previsto 0 25 0 25 0 25 0 25
Empresa 2
Real 0 25 0 25 0 25 0 25
Previsto 0 33 0 33 6 33 0 33
Empresa 3
Real 0 33 0 33 6 33 0 33
Previsto 0 220 120 220 120 220 120 220
Empresa 4
Real 0 221 120 220 120 199 116 184
Previsto 0 16 12 17 13 19 12 18
Empresa 5
Real 0 16 3 19 6 19 6 25
Fonte:Relatório de controle de efetivo
Figura 2. Controle diário de efetivo

3 ESCOPO

O escopo de serviços da grande reforma compreendeu atividades no corpo


do Alto-Forno e em equipamentos e sistemas periféricos. A definição do escopo foi
realizada a partir do levantamento das necessidades operacionais e técnicas,
utilizando ferramentas de simulação computacional estrutural e térmica;
desenvolvimento de engenharia, contando com a expertise do pessoal interno e de
especialistas contratados, buscando não somente a reforma como também a
melhoria de performance de diversos componentes e equipamentos. Em seguida,
algumas atividades são resumidamente apresentadas.

3.1 Topo do Alto-Forno

Foram realizadas a desmontagem e a montagem completa do topo do Alto-


Forno e a substituição de alguns componentes, tais como acionamento dos sinos
superior e inferior, bacia superior e inferior, sino superior e inferior, haste dos sinos,
tremonhas fixas e giratória e a reconstituição de toda a tubulação de utilidades.

a) b)
Figura 3. a) montagem da do sino superior; b) montagem da tremonha giratória
3.2 Área de Corrida e Sistema de sopro

A área de corrida foi totalmente demolida e as estruturas foram trocadas.


Além disso, foram trocados o canal de corrida, a bica de escória. O canhão e a
perfuratriz foram trocados e refeita toda parte elétrica e hidráulica, bem como os
painéis de comando.

a) b)

Figura 4. a) demolição da plataforma da área de corrida; b) montagem das novas vigas da plataforma
da área de corrida

3.3 Refratário

O refratário do alto-forno foi completamente demolido e substituído, desde a


soleira até o topo. O perfil do material refratário foi definido levando-se em
consideração o histórico de temperatura nas regiões do cadinho e da soleira. O
esgotamento da salamandra e a demolição do “bode” no interior do Alto-Forno
também foram coordenados pela equipe responsável pelo refratário.

a) b)

Figura 5. a) durante o esgotamento da salamandra b) montagem dos blocos de carbono na região


das ventaneiras

3.4 Melhorias nos Glendons

As melhorias nos aquecedores de ar tipo Glendon tiveram como objetivo


aumentar a eficiência energética do equipamento e, consequentemente, aumentar a
temperatura do ar de sopro. Este aumento do ar de sopro possibilitará a redução do
enriquecimento do ar com oxigênio. As alterações consistiram em substituição dos
queimadores e das válvulas de controle, e montagem de placas no interior do
equipamento para aumento da turbulência dos gases da combustão e de um
exaustor na chaminé de cada Glendon.

a) b)

Figura 6. a) novos queimadores; b) instalação das placas no interior do Glendon;

3.5 Carcaça

A metade inferior da carcaça do Alto-Forno foi substituída sem que a metade


superior fosse desmontada. Esta atividade era inédita na história da V&M do Brasil e
demandou o reforço do prédio do Alto-Forno e a preparação da nova carcaça antes
de ser montada no corpo do Alto-Forno. A nova carcaça foi divida em três anéis que
foram montados ao lado do Alto-Forno antes do início da parada. Em seguida, foi
montada uma plataforma para que a nova carcaça fosse arrastada de uma só vez
para debaixo da metade superior, que ficou imóvel. Após a translação da nova
carcaça, as duas metades foram soldadas.

1
1 Carcaça (parte superior)
2 Carcaça (parte inferior)
3 Base Civil do AF
4 Prédio do AF
4 5 Estrutura de apoio da carcaça

5
3

Figura 7. Esquema de montagem da nova carcaça do Alto-Forno


a) b)
Figura 8. a) Carcaça nova montada fora do corpo do Alto-Forno; b) plataforma usada para transladar
a carcaça nova para o Alto-Forno

4 CONTROLE DE PRAZO E CUSTO

Dois fatores de sucesso deste empreendimento foram a economia de 6% do


orçamento disponível e a antecipação de 2 dias do término da parada.
Para que a economia no orçamento fosse alcançada um rigoroso controle de
gastos foi implantado, especialmente na fase de planejamento, e adequações no
escopo foram necessárias. Os valores desembolsados foram acompanhados e
atualizados diariamente, conforme Figura 9.

REALIZADO+COMPROMISSO A REALIZAR

Figura 9. Acompanhamento do orçamento da grande reforma do Alto-Forno 2

Semelhantemente, para que o prazo fosse cumprido foi feito um rigoroso


acompanhamento das atividades críticas com atualizações diárias das folgas e/ou
atrasos em relação ao cronograma possibilitando ações de correção, conforme
Figura 10. A antecipação de 2 dias representaram 1,6 milhões de reais em margem
de contribuição.
Figura 10. Relatório diário de acompanhamento

5 LIÇÕES APRENDIDAS

Apesar dos bons resultados obtidos na reforma do Alto-Forno no que diz respeito ao
orçamento, ao prazo de execução, à qualidade, sempre existem aspectos que
podem ser melhorados. Como conclusão deste trabalho, são registrados alguns
pontos positivos e de atenção e deixadas algumas recomendações para projetos
semelhantes.
Pontos positivos
o Montagem do anel de vento na carcaça no período de preparação.
o Preparação de 2 anos
o Reunioes estratégicas visando melhorias no projeto
o Planejamento da troca da carcaça
o Bebedouros distribuídos pelas plataformas
o Distribuição dos ficais por turno ( mão de obra própria e contratada ).
o Criação do Grupo de testes com reuniões específicas
o Elaboração do FMEA antes da parada.
o Envolvimento da manutenção da área quando houve a necessidade de
redução de escopo em função dos custos
o Utilização de ferramentas de gestão de custos
o Definição dos critérios de aceitação antes da parada.
Pontos de atenção
o 5 acidentes com afastamento
o Divergências de opiniões entre as equipes de manutenção, projeto e
operação
o Uso de conexões com roscas paralelas nas tubulações de água.
o Vários ocorrências de queda de peças e ferramentas
o Melhor estudo do esgotamento da Salamandra
o Falta de detalhamentos das atividades de investimento na parte de utilidades
o Falha na execução dos aterramentos das maquinas de solda, queima de
equipamentos eletroeletrônicos.
o Mobilização insuficiente de maçariqueiros no inicio da Parada
Recomendações para outros projetos
o Máquinas de soldas portáteis e identificação das maquinas por empresa
o Contratar equipe especifica para limpeza
o Definir claramente o que é investimento o que é manutenção
o Tratar para que o clima entre as pessoas envolvidas seja melhorado
o AS-BUILT dos desenhos elétricos, mecânicos e civis.
o Providenciar para que os equipamentos fabricados sejam pré-montados no
fornecedor antes da aceitação final

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