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Gerhard Richter, Ema, 1966.
Porque escolhi esta pintura de Gerhard Richter, que teve como referência uma fotografia que ele tirou? Há aqui uma mulher, Ema, na altura sua mulher, grávida de sete meses, que desce nua uma escada. Além disso, a tela está coberta por uma espécie de nevoeiro com várias intensidades, correspondendo a outras tantas variações cromáticas (variadíssimos tons de castanho donde ressalta o acetinado da pele, sombras negras nas escadas, mostrando que a luz vem do lado esquerdo da mulher, cinzentos claros e luminosos). Todavia, o punctum da pintura, para utilizar um termo que Barthes, em La chambre claire, usa a propósito da fotografia, aquilo que nos prende de imediato o olhar é o triângulo que encobre o sexo, o púbis, deslizando, depois, pelo corpo até à mancha negra do cabelo e, daí, ao topo da escada, espécie de quadr(ad)o negro (como o Quadrado Negro (1915) de Malevich), configurando mulher e espaço envolvente (degraus, corrimão, paredes, etc.).
Antes, em 1912, Marcel Duchamp pinta um Nu, descendo uma escada (nº 2), súmula de des-figuração e movimento, que esboços de círculos embrionários acentuam. (Já 1882, Étienne-Jules Marey faz uma cronofotografia intitulada Man Walking.
E Eadweard Muybridge, que colaborou com Marey, faz em 1887 uma curta-metragem intitulada Woman Walking Downstairs. A influência sobre Duchamp é evidente). Diga-se, entretanto, que Richter prestava, então, particular atenção à obra de Duchamp, assim como a dois nomes da pop art: Warhol e Lichtenstein.
Entretanto, eventualmente nos finais dos anos 1990, devendo pertencer à série Nus, surge esta fotografia de Thomas Ruff:
É de uma figura fugidia, quase mutante, que se trata, sugada pela parede que reflete a sua sombra, parte do rosto visível assemelhando-se a uma máscara. Nada a prende, pois, à Ema de Richter. Enquanto na fotografia de Ruff a figura está imóvel, tendo sido trabalhada por processos digitais (como as figuras de Warhol e de Lichtenstein), Ema é uma figura movente. Todavia, esta fotografia de Ruff parece querer evocar um trabalho seminal de Rauschenberg, em que este quase apaga um desenho de de Kooning, um dos nomes do expressionismo abstracto, com um título significativo: Erased de Kooning Drawing (1953):
Note-se que este trabalho de Rauschenberg foi executado em diálogo com de Kooning, que, aliás, cedeu o desenho, um diálogo entre duas fases do expressionismo abstracto. O que abre novas perspectivas às neo-vanguardas surgidas a partir de 1950, isto é, a partir da segunda fase do expressionismo abstracto: pop art, nouveau réalisme, minimal art, conceptual art, arte povera, performance interagiam - mesmo ao declarar a morte da pintura.
Voltando a Richter. Outras questões andam em torno da sua obra. Com educação escolar na RDA, onde fez fundamentalmente pintura mural segundo as premissas do realismo socialista, pouco antes da construcção do muro vai para a RFA. Antes tinha começado a fazer o Atlas: uma colecção de fotografias tiradas dos mais variados media (jornais, revistas, etc.) - que vai crescendo, agora já sem a censura, e onde escolhe matéria para determinados conjuntos de trabalhos a partir da fotografia ou para os quadros abstractos, sempre com a tinta raspada, onde predominam o amarelo-ouro, o vermelho, o azul e, por vezes, o verde.
Todavia, há no Atlas quatro reproduções de fotografias clandestinas de pilhas de mulheres gazeadas e atiradas para valas comuns, impedindo assim qualquer testemunho, tiradas em Auschwitz-Birkenau por Sonderkommandos. Depois, fotografias do bombardeamento de Dresden, onde tinha vivido, pelos aliados em 1944. Como viver com estas memórias? E como as transpôr para o seu trabalho?
Mais. Como, apesar do manifesto interesse pelo trabalho de Duchamp ou de Warhol (o Atlas evidencia-o sobejamente) e Lichtenstein, figurar uma mulher nua, grávida, num enquadramento manifestamente sexual, e expondo um contexto familiar (Richter tinha fotografias de vários membros da sua família, desde o tio vestido com uniforme das SS à tia esquizofrénica, morta num campo nazi, às duas futuras mulheres, fotografadas por si)? Há algo que parece entrar em choque entre DADA e a pop, por um lado, e Richter, por outro. Será mesmo assim? Acaso não haverá um encontro subterrâneo com L'origine du monde (1866, Musée d'Orsay) de Courbet, um dos quadros mais dessexualizados da história da pintura e, simultaneamente, anúncio do nascimento de uma pintura outra, neste caso o realismo, pintura outra essa que irá permitir que, mesmo ao lado, usando uma outra matriz, Manet prepare o modernismo?








