O Império da Mediocridade e o Triunfo da Incompetência

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A ascensão do império dos medíocres

A contemporaneidade parece sucumbir a uma vaga implacável e silenciosa: a “pandemia da mediocridade”, tal como diagnosticada por Esther Peñas. Sob esta égide de nivelamento por baixo, assistimos à consolidação do “império dos medíocres”, um ecossistema social onde o talento, o virtuosismo e a destreza intelectual deixaram de suscitar assombro para se tornarem elementos de fricção. Vivemos a inversão absoluta do ideal platónico da Aristocracia — o governo dos melhores — em prol de uma estrutura que repele o brilho.

Neste novo paradigma, as ideias fulgurantes são remetidas ao ostracismo e o carisma pessoal carece de audiência. Como lapidarmente se afirma no texto de apoio, no império da mediania, “o seu talento, o seu virtuosismo, a sua destreza para qualquer disciplina não pontuam, nem assombram, nem fascinam: é a sombra da mediocridade”. Esta desvalorização do mérito não é um mero desvio estético, mas uma reconfiguração da própria autoridade política.

O princípio de Peter e a mecânica da incompetência

A suspeita de que os medíocres detêm as rédeas do mundo encontra o seu fundamento teórico no “princípio de Peter”, hipótese formulada pelo pedagogo Laurence J. Peter nos anos sessenta. A mecânica deste fenómeno é de uma simplicidade inquietante: «com o tempo, todo o posto acaba por ser desempenhado por alguém incompetente para as suas obrigações».

Este processo de degradação institucional ocorre porque o sucesso num determinado cargo é recompensado com a promoção para uma função de maior responsabilidade, para a qual o indivíduo pode não possuir as competências necessárias. O ciclo repete-se até que cada agente alcance o seu nível máximo de incompetência, onde permanece estagnado. O resultado é um sistema bloqueado, gerido por uma elite que, por definição, já não é capaz de exercer as funções que lhe foram confiadas, transformando a incompetência na norma de governação global.

Mediocracia: a conformidade como passaporte para o poder

O filósofo Alain Deneault, no seu ensaio Mediocracia: quando os medíocres tomam o poder, argumenta que a ascensão ao topo não depende da sabedoria, mas da mestria em navegar na mediania. Segundo Deneault, a esfera do poder é hoje reservada a quem adota uma de duas posturas: o acatamento acrítico das normas para salvaguardar a sua posição ou a manipulação invisível das regras que não se tem capacidade de cumprir.

Esta “mediocracia” infiltra-se em todos os poros da sociedade — do meio académico ao económico — garantindo que os argumentos que confirmam o status quo prevaleçam invariavelmente sobre a originalidade. A mediocridade triunfa pelas seguintes razões:

• Validação do existente: Favorecem-se argumentos que confirmem teorias e estruturas já estabelecidas.

• Aversão ao risco: Evitam-se sistematicamente críticas profundas ou soluções que possam comprometer a estabilidade do sistema.

• Esvaziamento espiritual: As propostas perdem a sua “relevância espiritual”, tornando-se meros instrumentos de manutenção burocrática.

• Neutralização do dissenso: O triunfo pertence a quem não questiona, garantindo que soluções originais e potencialmente desestabilizadoras nunca cheguem a ser implementadas.

Donald Trump e o dilema da história: acidente ou mudança estrutural?

A figura de Donald Trump serve de catalisador para a análise de José Ignacio Torreblanca sobre a natureza do poder contemporâneo. O debate divide-se entre uma visão estrutural, que interpreta o giro populista como uma resposta orgânica dos “perdedores da globalização” — trabalhadores do Rust Belt fustigados por perdas salariais —, e uma visão acidentalista, que atribui a sua vitória de 2016 a uma conjunção anómala de fatores, como a desinformação russa e o uso fraudulento de dados pela Cambridge Analytica.

A eleição de 2020 deveria ter funcionado como o “desempate” entre estas teorias. Contudo, os resultados mantiveram-se numa ambiguidade desesperante para os analistas. Apesar de enfrentar um escrutínio marcado por “20.000 mentiras documentadas” e um desrespeito frontal pela ética institucional, Trump obteve 71,3 milhões de votos. A fragilidade do sistema é evidenciada pelas margens ínfimas nos estados-chave, onde a presença da libertária Jo Jorgensen poderia ter alterado o destino do mundo se os seus votos tivessem sido canalizados estrategicamente.

Estado-chaveMargem em 2016 (Votos)Margem em 2020 (Votos)
Michigan10.794 (Vitória Trump)
Wisconsin22.738 (Vitória Trump)20.000 (Vitória Biden)
Pennsylvania44.292 (Vitória Trump)45.000 (Vitória Biden)
Arizona15.000 (Vitória Biden)
Geórgia11.000 (Vitória Biden)

A perversão do sistema: cultura, economia e uniformidade

A hegemonia do medíocre é sustentada por uma perversão económica e cultural. Deneault alerta para o facto de o dinheiro perverter a mente humana, obliterando a “consciência sensorial da diversidade do mundo”. Esta uniformização atinge o seu ápice na reflexão de Herbert Marcuse sobre o sistema onde patrão e operário consomem os mesmos conteúdos. A falha não reside apenas na dissolução das classes, mas no facto de ambos passarem a legitimar os princípios que sustentam o próprio sistema que os nivela.

Somerset Maugham captou a essência desta condição com uma ironia mordaz: “solo una persona mediocre está siempre en su mejor momento” (apenas uma pessoa medíocre está sempre no seu melhor momento). Este paradoxo explica por que a mediocridade é tão resiliente: ao não agir, o medíocre nunca erra; ao não contradizer, evita o conflito; e ao não julgar, limita-se a obedecer, mantendo uma performance constante de funcionalidade sem nunca atingir a excelência.

O perigo de destacar-se numa distopia de iguais

A sátira de Kurt Vonnegut, Harrison Bergeron (1961), oferece o espelho distópico desta realidade. Num futuro onde a Constituição impõe que ninguém seja mais inteligente, forte ou belo que o próximo, o Estado utiliza a violência para garantir a “igualdade”.

O exemplo de George é paradigmático: detentor de uma inteligência acima da média, é forçado a usar um dispositivo que, a cada vinte segundos, emite ruídos agudos para estilhaçar o seu pensamento. O objetivo é impedir que George — ou qualquer outro — tire “partido injusto” das suas capacidades. Esta narrativa ilustra a pressão contemporânea para a uniformidade, onde o destaque individual é visto como uma ameaça ao conforto da coletividade medíocre.

Conclusão: a absolvição da mediocridade

A mediocridade transcendeu a falha individual para se tornar o padrão de triunfo e o motor de preservação do sistema. Aqueles que recusam o pensamento original e abraçam a conformidade são os novos eleitos de uma estrutura que pune o brilho para proteger a sua própria incompetência.

Perante este cenário de resignação intelectual e política, resta-nos uma imagem melancólica. Se uma voz divina ressoasse hoje sobre o mundo, não clamaria pela excelência perdida nem pela reforma dos costumes. Em vez disso, num tom de aceitação resignada perante o triunfo definitivo do comum sobre o extraordinário, proferiria apenas a absolvição final: «Medíocres do mundo, eu vos absolvo!».

Tempo de ecrã na educação infantil: equilibrar a balança digital | Banco Mundial

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1. O dilema digital na primeira infância

Na última década, o ecrã tátil tornou-se o “pacote padrão” e o pacificador predefinido para milhões de crianças com menos de cinco anos. O que antes era uma raridade transformou cada sala de estar, fila de autocarro ou sala de espera num potencial centro de entretenimento digital. Esta mudança é impulsionada por uma conectividade sem precedentes: nas economias da OCDE, as assinaturas de banda larga móvel saltaram de 54 por 100 habitantes em 2012 para 115 por 100 em 2024.

Contudo, esta omnipresença criou um fosso preocupante. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite máximo de uma hora de ecrã para crianças de 2 a 5 anos, a média atual já atinge as duas horas diárias. O objetivo deste artigo, enquanto especialistas em desenvolvimento infantil, é transformar a “oportunidade digital” num aliado estratégico, garantindo que o tempo de ecrã não substitua as experiências biológicas fundamentais que moldam o cérebro nesta janela crítica.

2. A realidade global em números

Os dados globais indicam que exceder os limites recomendados não é a exceção, mas a regra. A análise de diversas geografias revela que a maioria das crianças pequenas vive imersa em estímulos digitais muito além do aconselhável:

• Selangor, Malásia: 91% das crianças excedem o limite de 1 hora diária.

• Ceará, Brasil: 69% das crianças ultrapassam as recomendações da OMS.

• Adis Abeba, Etiópia: 62% das crianças em contextos urbanos excedem o limite, contrastando drasticamente com apenas 15% em zonas rurais, onde o acesso e os espaços de lazer diferem.

• Istambul, Turquia: 49% das crianças entre os 25 e 36 meses ultrapassam as diretrizes.

• Estados Unidos: 47% das crianças excedem as 2 horas de lazer digital diário.

A pandemia de COVID-19 acelerou estas tendências, estabelecendo um “novo normal” de dependência digital que persiste mesmo após a reabertura de espaços físicos, exigindo agora uma intervenção consciente.

3. O fenómeno do “babysitter digital”

O uso de dispositivos como “babysitter digital” — entregar um telemóvel para substituir a atenção de um adulto — é uma resposta pragmática a realidades complexas. Pais exaustos utilizam os ecrãs para acalmar crianças em filas de supermercado ou para conseguir concluir tarefas domésticas e profissionais.

É essencial encarar esta prática com empatia. Muitas vezes, o ecrã é o único recurso disponível perante a falta de redes de apoio, o cansaço extremo ou a escassez de espaços de lazer seguros e programas de educação precoce acessíveis. No entanto, esta conveniência imediata colide com a necessidade biológica de exploração prática e interação social. O desafio não é demonizar a tecnologia, mas criar guardas-corpos que protejam as trocas humanas insubstituíveis.

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4. O que a ciência diz sobre o impacto no desenvolvimento

A exposição excessiva aos ecrãs nos primeiros cinco anos de vida altera a trajetória do desenvolvimento de formas mensuráveis e profundas:

Tecnoferência: o ruído nas interações humanas

Este termo descreve como a tecnologia interrompe as trocas de “serviço e retorno” (interações de ida e volta) entre cuidadores e crianças. Quando os pais estão “absorvidos” pelos seus próprios dispositivos, a qualidade do contacto visual e a resposta emocional diminuem, prejudicando o vínculo seguro e a aprendizagem social.

Aquisição da linguagem: a arquitetura do cérebro em risco

Estudos de neuroimagem indicam que o tempo excessivo de ecrã está associado a uma menor integridade da substância branca, especificamente nos tratos que suportam as competências emergentes de literacia. O ecrã desloca as oportunidades de conversação real, resultando numa redução direta do vocabulário expressivo.

Atenção e autorregulação: o impacto dos estímulos acelerados

O ritmo frenético dos conteúdos digitais pode condicionar o sistema de recompensa do cérebro. Estudos revelam que crianças que excedem duas horas de ecrã têm uma probabilidade cinco vezes maior de apresentar problemas de comportamento e uma probabilidade quase seis vezes maior de sofrer de problemas de atenção (Tamana et al., 2019). O uso de media interativos ativa vias dopaminérgicas e esquemas de recompensa variável que tornam a sala de aula real, com o seu ritmo natural, menos estimulante e mais difícil de tolerar.

Arquitetura do sono: o efeito persistente da luz azul

A luz azul suprime a melatonina de forma mais potente em crianças do que em adultos. Em crianças de 3 a 5 anos, essa supressão pode atingir os 99%. Crucialmente, este efeito não desaparece assim que o ecrã se desliga; a supressão da melatonina pode persistir por 50 minutos após o fim da exposição (Akacem et al., 2018), atrasando o início do sono e prejudicando a consolidação da memória.

5. A ciência dos hábitos: porque é que a informação não basta

Saber que o tempo de ecrã é excessivo raramente conduz à mudança. Existe o chamado “fosso entre intenção e ação”: as intenções explicam apenas 20% a 30% da mudança real de comportamento. Os hábitos são ciclos automáticos de Pista (gatilho), Rotina e Recompensa, muitas vezes gravados por gratificações imediatas.

A ciência dos hábitos ensina-nos que comportamentos novos demoram, em média, 66 dias para se tornarem automáticos. A mudança exige substituir a rotina digital por alternativas prontas a usar, retirando o peso da decisão da força de vontade, que é um recurso limitado.

6. Cinco princípios para uma mudança sustentável

Para transformar a teoria em rotina, propomos cinco princípios práticos:

1. Identificação e substituição de pistas: Mapeie os momentos de gatilho (ex: tédio no restaurante) e tenha sempre preparado um “kit de espera” com livros, autocolantes e pequenos brinquedos.

2. Intenções de implementação: Utilize planos “Se… então”. Exemplo: “Se começar a preparar o jantar, então tiro o tapete de puzzles para o chão da cozinha”. Esta técnica duplica a probabilidade de sucesso.

3. Reestruturação ambiental: Torne a escolha saudável a mais fácil. Crie zonas livres de tecnologia (mesa de jantar, quartos) e mantenha os ecrãs num posto de carregamento central fora da vista imediata.

4. Metodologia de pequenos hábitos: Comece com mudanças minúsculas, como dois minutos de dança após desligar a TV ou uma leitura curta após o pequeno-almoço.

5. Responsabilidade social: Crie sistemas de compromisso com outros pais. O apoio de grupo aumenta significativamente a persistência nos novos padrões digitais.

7. Estratégias práticas e tecnologia aliada

Intervenções baseadas em evidências mostram caminhos eficazes para as famílias:

• Kits de jogo e bibliotecas de brinquedos: O ensaio clínico PLUMS na Índia demonstrou que o uso de “PlayKits” (kits de jogo) associado a coaching parental reduz significativamente o tempo de ecrã.

• Leitura dialógica (Método PEER): Não se limite a ler. Use a sequência Sugerir (pedir para identificar algo), Avaliar (confirmar a resposta), Expandir (adicionar informação) e Repetir. Esta ferramenta clínica é uma das formas mais potentes de acelerar o desenvolvimento da linguagem.

• Acordos de media familiar: Documentos visíveis e co-criados que definem regras claras para todos os membros da família, incluindo os adultos.

A tecnologia também pode ser parte da solução. Assistentes de parentalidade via inteligência artificial (em plataformas como o WhatsApp) podem fornecer apoio personalizado no momento exato da decisão, enquanto sistemas operativos concebidos com princípios de desenvolvimento ajudam a terminar sessões de forma natural e menos stressante.

8. Conclusão: um apelo à ação coordenada

O objetivo final não é a eliminação total dos ecrãs, mas sim o estabelecimento de padrões saudáveis. Os primeiros cinco anos de vida são uma janela crítica para a arquitetura cerebral que não pode ser recuperada.

Proteger este período é uma responsabilidade partilhada. Decisores políticos, educadores, profissionais de saúde e criadores de tecnologia devem colaborar para garantir que as interações humanas, o jogo livre e o sono reparador permaneçam no centro da infância. Ao equilibrar a balança digital, estamos a construir os alicerces para o bem-estar duradouro das gerações futuras.

Catalogação, metadados e inteligência artificial generativa: o novo paradigma documental | Gino Roncaglia

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1. Introdução: o despertar do oráculo no mundo dos metadados

O campo bibliotecário enfrenta actualmente uma transformação sem precedentes, impulsionada pela ascensão da inteligência artificial generativa (IA). Segundo a perspectiva de Gino Roncaglia (2026), esta tecnologia não constitui apenas uma ferramenta incremental, mas um catalisador que redefine a convergência entre a criação de metadados e as arquiteturas formais de organização do conhecimento.

Durante a redacção do seu estudo fundamental, o autor adoptou a IA como um “sparring partner”, interagindo com modelos de linguagem de grande escala (LLMs) como o ChatGPT (nas versões 4o e o3 com Deep Research), o Manus (plataforma baseada no Claude Sonnet 4) e o modelo chinês Kimi K2. Contudo, Roncaglia destaca uma observação crucial para a prática profissional: o uso destas ferramentas não resultou num ganho de tempo. Pelo contrário, a exigência de uma verificação humana rigorosa e a necessidade de validar cada sugestão tornaram o processo mais moroso do que os métodos tradicionais. O objectivo deste texto é analisar como estes LLMs podem suportar a catalogação perante as exigências de rigor das estruturas bibliográficas, equilibrando a inovação com a responsabilidade técnica.

2. A evolução dos paradigmas: da rigidez do MARC à fluidez dos dados ligados

A história da catalogação é marcada pela transição de sistemas de regras estritas para ecossistemas de dados interconectados. Este percurso consolidou-se no século XIX com as 91 regras de Antonio Panizzi (1839/1841). É neste período que Giuseppe Fumagalli (1887) introduz uma visão epistemológica essencial, definindo as fichas catalográficas como “segni rappresentativi dei libri” (sinais representativos dos livros), estabelecendo a base para o entendimento do carácter semântico dos metadados.

A revolução informática chegou em 1966 com o formato MARC (Machine-Readable Cataloguing), criado por Henriette Avram na Library of Congress, transpondo a lógica da ficha para o registo digital. Todavia, a rigidez do “registo” isolado cedeu gradualmente lugar a modelos semânticos baseados em entidades e relações, um movimento impulsionado pela tese de Barbara Tillett (1987) e pela posterior aprovação do modelo FRBR (1998). A modernização bibliográfica actual fundamenta-se nos seguintes pilares:

• Resource Description Framework (RDF): Modelo que utiliza triplas (sujeito-predicado-objecto) para formalizar metadados no ambiente da Web Semântica.

• Linked Open Data (LOD): Paradigma que preconiza a abertura e interconexão de dados, permitindo a integração de ontologias e o reuso global da informação.

• Library Reference Model (LRM) da IFLA (2017): Consolidação conceptual que substitui definitivamente a visão do registo individual por uma rede de dados semanticamente ricos.

3. O conflito epistemológico: o arquiteto versus o oráculo

Para descrever a tensão entre os sistemas tradicionais e a IA, Roncaglia propõe a metáfora do “Arquiteto” contra o “Oráculo”.

Arquiteto representa os sistemas de organização do conhecimento herdados da tradição biblioteconómica: determinísticos, baseados em regras formais explícitas e rigorosamente estruturados. Em oposição, o Oráculo personifica a IA generativa, cujo funcionamento assenta em redes neurais profundas e processos probabilísticos. Esta natureza oracular é intrinsecamente “obscura” e não-determinística, o que gera um conflito directo com a necessidade de precisão bibliográfica. O risco de “alucinações bibliográficas” — a invenção plausível de referências, autores ou datas — constitui o desafio central na integração destas tecnologias em fluxos de trabalho que exigem verdade factual e autoridade documental.

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Davos 2026: Discurso especial de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá

O Fim de uma Ilusão: O Apelo à Autonomia Estratégica para as Potências Intermédias

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1. Introdução: O Despertar para uma Nova Realidade

Senhoras e senhores, encontramo-nos hoje num momento de viragem, um ponto de inflexão que definirá a ordem global para as gerações vindouras. O que vivemos não é uma mera transição, mas sim uma “rutura na ordem mundial”. Chegou ao fim o que poderíamos descrever como uma “ficção agradável”, dando lugar a uma “dura realidade” onde a geopolítica das grandes potências parece não conhecer limites nem constrangimentos. Esta é uma realidade que temos o dever de enfrentar com honestidade e determinação.

O dilema que se impõe a todas as nações é tão antigo como a própria história. Por um lado, somos confrontados com a lógica brutal descrita por Tucídides, segundo a qual “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. Por outro, observamos uma forte tendência por parte de muitos países para a acomodação, para seguir o fluxo na esperança de que a complacência lhes possa comprar segurança.

Contudo, a acomodação não garante segurança. As potências intermédias, como o Canadá e tantas outras aqui representadas, não estão impotentes perante esta nova era de rivalidade. Pelo contrário, temos a capacidade e a responsabilidade de construir uma nova ordem, alicerçada nos nossos valores de respeito pelos direitos humanos, soberania e integridade territorial. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade, e o primeiro passo é reconhecer a mentira sistémica em que vivemos durante demasiado tempo.

2. A Ilusão da Ordem Baseada em Regras: Viver na Mentira

Para compreendermos a nossa situação atual, é fundamental analisar a complacência que caracterizou a antiga ordem internacional. Os sistemas não se perpetuam apenas pela força bruta, mas sim pela participação tácita daqueles que, mesmo reconhecendo as suas falhas, optam por não as confrontar.

O dissidente checo e futuro presidente, Václav Havel, ilustrou este fenómeno de forma brilhante no seu ensaio O Poder dos Sem Poder. Ele descreve um merceeiro que, todas as manhãs, coloca um letreiro na sua montra com o lema “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. O merceeiro não acredita na mensagem, nem os seus clientes, nem ninguém. Ele fá-lo simplesmente para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se integrar. E porque todos os outros comerciantes na sua rua fazem o mesmo, o sistema persiste, não pela sua verdade, mas pela disponibilidade de todos em participar em rituais que, em privado, sabem ser falsos. Havel chamou a isto “viver na mentira”. A fragilidade de tal sistema reside precisamente na mesma fonte do seu poder: basta que uma pessoa retire o letreiro para que a ilusão comece a quebrar.

Esta analogia aplica-se perfeitamente à política externa de muitas potências intermédias. Durante décadas, nações como o Canadá prosperaram sob a chamada “ordem internacional baseada em regras”. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Sabíamos, no entanto, que esta narrativa era parcialmente falsa. Sabíamos que os mais fortes se isentavam das regras quando lhes era conveniente, que as normas comerciais eram aplicadas de forma assimétrica e que o direito internacional era aplicado com um rigor variável. Mesmo assim, esta ficção era útil. A hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos globais: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas de resolução de conflitos. Em troca destes benefícios, decidimos “colocar o letreiro na janela”.

Hoje, essa barganha chegou ao fim.

3. A Realidade da Rutura: Quando a Integração se Torna Subordinação

A mudança que testemunhamos não é uma transição suave, mas uma “rutura” fundamental. Ao longo das últimas duas décadas, crises sucessivas nos setores financeiro, da saúde, da energia e na geopolítica expuseram os riscos profundos de uma integração global extrema. Mais recentemente, assistimos a um desenvolvimento ainda mais alarmante: as grandes potências começaram a usar a interdependência económica como uma arma.

Esta instrumentalização da integração manifesta-se de várias formas:

• Pautas aduaneiras são usadas como ferramentas de alavancagem para extrair concessões.

• Infraestruturas financeiras são convertidas em instrumentos de coerção para impor vontades.

• Cadeias de abastecimento são tratadas não como fontes de eficiência, mas como vulnerabilidades a serem exploradas.

A conclusão é inescapável: não se pode viver na mentira do benefício mútuo através da integração, quando a integração se torna a fonte da sua subordinação. Esta nova realidade ameaça a própria arquitetura da resolução de problemas coletivos — desde a Organização Mundial do Comércio, às Nações Unidas e à COP — impulsionando um movimento global em direção a uma maior autonomia estratégica.

É compreensível que, quando as regras já não o protegem, cada um procure proteger-se a si mesmo. No entanto, devemos estar cientes dos perigos. Um “mundo de fortalezas”, onde cada nação se fecha sobre si mesma, será inevitavelmente mais pobre, mais frágil e menos sustentável. O isolacionismo é estrategicamente ineficiente. A colaboração entre potências intermédias não é um ideal, mas uma necessidade pragmática. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades geram resultados positivos para todos. Precisamos de uma abordagem mais ambiciosa, que partilhe o custo da autonomia estratégica.

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Competências fundamentais para um futuro imprevisível: a visão de Yuval Noah Harari

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1. Introdução: o desafio da imprevisibilidade educativa Pela primeira vez na história da humanidade, o pacto de estabilidade que sustentava a educação foi unilateralmente rescindido pela tecnologia. Durante milénios, a educação baseou-se numa premissa de continuidade: as gerações mais velhas sabiam que aptidões seriam necessárias para a sobrevivência das mais novas, pois o mundo mudava de forma incremental. Hoje, vivemos numa era de transformações tão aceleradas que perdemos essa bússola. Como sublinha Yuval Noah Harari, não temos qualquer ideia de como será a economia, a política ou o mercado de trabalho daqui a 20 ou 30 anos. Enfrentamos um contexto de urgência absoluta onde o maior desafio educativo é, paradoxalmente, preparar os jovens para um mundo cujas estruturas básicas ainda não conseguimos sequer imaginar.

2. O risco da especialização precoce e o papel da inteligência artificial Investir cegamente no ensino de competências técnicas demasiado específicas, como a programação, é atualmente o que Harari classifica como uma “péssima ideia”. Embora pareça um porto seguro, é uma aposta de alto risco. A inteligência artificial de última geração já demonstra uma capacidade de programar que evolui exponencialmente, sugerindo que, em duas décadas, os programadores humanos poderão ser totalmente prescindíveis. A educação deve, por isso, desviar o foco da técnica efémera para a adaptabilidade profunda.

A instabilidade radical do futuro é moldada por três eixos fundamentais:

• A rapidez da evolução tecnológica: O ritmo das ferramentas digitais ultrapassa a capacidade de resposta de qualquer currículo académico tradicional.

• A obsolescência de profissões atuais: Muitas funções que hoje definem a nossa identidade social podem simplesmente desaparecer do mapa laboral em 20 anos.

• O surgimento incerto de novas funções: Novas ocupações surgirão, mas o facto é que a sua natureza e as aptidões necessárias para as exercer permanecem um enigma completo.

3. O fim do modelo de vida em duas etapas O modelo tradicional de existência, estruturado numa fase de aprendizagem na juventude seguida por uma fase de aplicação produtiva na idade adulta, está morto. Antigamente, o conhecimento adquirido aos 15 anos servia de alicerce para uma carreira de décadas. No novo paradigma, a validade do conhecimento expirará múltiplas vezes ao longo de uma vida.

“Aos 30 ou aos 50 anos, o indivíduo enfrentará a obsolescência do seu próprio ‘eu’. O conhecimento da juventude deixará de ser uma ferramenta para passar a ser um fardo, exigindo que a pessoa tenha a capacidade de reaprender tudo num mundo que se tornou radicalmente distinto.”

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