A ascensão do império dos medíocres
A contemporaneidade parece sucumbir a uma vaga implacável e silenciosa: a “pandemia da mediocridade”, tal como diagnosticada por Esther Peñas. Sob esta égide de nivelamento por baixo, assistimos à consolidação do “império dos medíocres”, um ecossistema social onde o talento, o virtuosismo e a destreza intelectual deixaram de suscitar assombro para se tornarem elementos de fricção. Vivemos a inversão absoluta do ideal platónico da Aristocracia — o governo dos melhores — em prol de uma estrutura que repele o brilho.
Neste novo paradigma, as ideias fulgurantes são remetidas ao ostracismo e o carisma pessoal carece de audiência. Como lapidarmente se afirma no texto de apoio, no império da mediania, “o seu talento, o seu virtuosismo, a sua destreza para qualquer disciplina não pontuam, nem assombram, nem fascinam: é a sombra da mediocridade”. Esta desvalorização do mérito não é um mero desvio estético, mas uma reconfiguração da própria autoridade política.
O princípio de Peter e a mecânica da incompetência
A suspeita de que os medíocres detêm as rédeas do mundo encontra o seu fundamento teórico no “princípio de Peter”, hipótese formulada pelo pedagogo Laurence J. Peter nos anos sessenta. A mecânica deste fenómeno é de uma simplicidade inquietante: «com o tempo, todo o posto acaba por ser desempenhado por alguém incompetente para as suas obrigações».
Este processo de degradação institucional ocorre porque o sucesso num determinado cargo é recompensado com a promoção para uma função de maior responsabilidade, para a qual o indivíduo pode não possuir as competências necessárias. O ciclo repete-se até que cada agente alcance o seu nível máximo de incompetência, onde permanece estagnado. O resultado é um sistema bloqueado, gerido por uma elite que, por definição, já não é capaz de exercer as funções que lhe foram confiadas, transformando a incompetência na norma de governação global.
Mediocracia: a conformidade como passaporte para o poder
O filósofo Alain Deneault, no seu ensaio Mediocracia: quando os medíocres tomam o poder, argumenta que a ascensão ao topo não depende da sabedoria, mas da mestria em navegar na mediania. Segundo Deneault, a esfera do poder é hoje reservada a quem adota uma de duas posturas: o acatamento acrítico das normas para salvaguardar a sua posição ou a manipulação invisível das regras que não se tem capacidade de cumprir.
Esta “mediocracia” infiltra-se em todos os poros da sociedade — do meio académico ao económico — garantindo que os argumentos que confirmam o status quo prevaleçam invariavelmente sobre a originalidade. A mediocridade triunfa pelas seguintes razões:
• Validação do existente: Favorecem-se argumentos que confirmem teorias e estruturas já estabelecidas.
• Aversão ao risco: Evitam-se sistematicamente críticas profundas ou soluções que possam comprometer a estabilidade do sistema.
• Esvaziamento espiritual: As propostas perdem a sua “relevância espiritual”, tornando-se meros instrumentos de manutenção burocrática.
• Neutralização do dissenso: O triunfo pertence a quem não questiona, garantindo que soluções originais e potencialmente desestabilizadoras nunca cheguem a ser implementadas.
Donald Trump e o dilema da história: acidente ou mudança estrutural?
A figura de Donald Trump serve de catalisador para a análise de José Ignacio Torreblanca sobre a natureza do poder contemporâneo. O debate divide-se entre uma visão estrutural, que interpreta o giro populista como uma resposta orgânica dos “perdedores da globalização” — trabalhadores do Rust Belt fustigados por perdas salariais —, e uma visão acidentalista, que atribui a sua vitória de 2016 a uma conjunção anómala de fatores, como a desinformação russa e o uso fraudulento de dados pela Cambridge Analytica.
A eleição de 2020 deveria ter funcionado como o “desempate” entre estas teorias. Contudo, os resultados mantiveram-se numa ambiguidade desesperante para os analistas. Apesar de enfrentar um escrutínio marcado por “20.000 mentiras documentadas” e um desrespeito frontal pela ética institucional, Trump obteve 71,3 milhões de votos. A fragilidade do sistema é evidenciada pelas margens ínfimas nos estados-chave, onde a presença da libertária Jo Jorgensen poderia ter alterado o destino do mundo se os seus votos tivessem sido canalizados estrategicamente.
| Estado-chave | Margem em 2016 (Votos) | Margem em 2020 (Votos) |
|---|---|---|
| Michigan | 10.794 (Vitória Trump) | – |
| Wisconsin | 22.738 (Vitória Trump) | 20.000 (Vitória Biden) |
| Pennsylvania | 44.292 (Vitória Trump) | 45.000 (Vitória Biden) |
| Arizona | – | 15.000 (Vitória Biden) |
| Geórgia | – | 11.000 (Vitória Biden) |
A perversão do sistema: cultura, economia e uniformidade
A hegemonia do medíocre é sustentada por uma perversão económica e cultural. Deneault alerta para o facto de o dinheiro perverter a mente humana, obliterando a “consciência sensorial da diversidade do mundo”. Esta uniformização atinge o seu ápice na reflexão de Herbert Marcuse sobre o sistema onde patrão e operário consomem os mesmos conteúdos. A falha não reside apenas na dissolução das classes, mas no facto de ambos passarem a legitimar os princípios que sustentam o próprio sistema que os nivela.
Somerset Maugham captou a essência desta condição com uma ironia mordaz: “solo una persona mediocre está siempre en su mejor momento” (apenas uma pessoa medíocre está sempre no seu melhor momento). Este paradoxo explica por que a mediocridade é tão resiliente: ao não agir, o medíocre nunca erra; ao não contradizer, evita o conflito; e ao não julgar, limita-se a obedecer, mantendo uma performance constante de funcionalidade sem nunca atingir a excelência.
O perigo de destacar-se numa distopia de iguais
A sátira de Kurt Vonnegut, Harrison Bergeron (1961), oferece o espelho distópico desta realidade. Num futuro onde a Constituição impõe que ninguém seja mais inteligente, forte ou belo que o próximo, o Estado utiliza a violência para garantir a “igualdade”.
O exemplo de George é paradigmático: detentor de uma inteligência acima da média, é forçado a usar um dispositivo que, a cada vinte segundos, emite ruídos agudos para estilhaçar o seu pensamento. O objetivo é impedir que George — ou qualquer outro — tire “partido injusto” das suas capacidades. Esta narrativa ilustra a pressão contemporânea para a uniformidade, onde o destaque individual é visto como uma ameaça ao conforto da coletividade medíocre.
Conclusão: a absolvição da mediocridade
A mediocridade transcendeu a falha individual para se tornar o padrão de triunfo e o motor de preservação do sistema. Aqueles que recusam o pensamento original e abraçam a conformidade são os novos eleitos de uma estrutura que pune o brilho para proteger a sua própria incompetência.
Perante este cenário de resignação intelectual e política, resta-nos uma imagem melancólica. Se uma voz divina ressoasse hoje sobre o mundo, não clamaria pela excelência perdida nem pela reforma dos costumes. Em vez disso, num tom de aceitação resignada perante o triunfo definitivo do comum sobre o extraordinário, proferiria apenas a absolvição final: «Medíocres do mundo, eu vos absolvo!».







