Crueza bruta
11.1.26
Efeitos da sublimação do Mal
29.12.25
Não herdar, desconectar a situação
28.12.25
Mostrar a vida como aparece no sonho
25.12.25
Não somos fantasmas
23.12.25
Gaza e a consciência funcional
8.12.25
Dobra implosiva: o modernismo
Pés-feridos
7.12.25
Carta de Europa
O silêncio de Nan Goldin
4.12.25
Depois da paciência
Como uma canção
3.12.25
Bisonte
2.12.25
Cães num presépio
30.11.25
Apocalipse Left Wing
28.11.25
Sinto-me frequentemente comovido sem me mover

8.11.25
Tribunal universal
1.11.25
Pasteurizado com merda

O que faz ejacular Netanyahu?
14.10.25
Elegia de um burro
13.10.25
Shayma Abualatta
11.10.25
Nossa Senhora das coisas impossíveis que procuramos em vão
A chegada de Irimiás à vila.
É um momento narrativo importante. Personagens menores — ainda que autoinvestidos de um messianismo capitalista — chegam para extorquir pequenas poupanças a um par de camponeses. Os bufos de serviço contam em detalhe a vida dessas pessoas, a câmara vai ficando para trás, um inseto pousa e passeia pela lente.
A câmara desinteressa-se dos homens, persegue, nos seus longos e lentos trackings shots, qualquer outra coisa que converge com a nossa intimidade ferida e metafísica. Segue por paisagens depostas pelo frio e pelo vento. E ainda a noite se junta, que tudo agrega, Nossa Senhora das Coisas Impossíveis, uma possível reconciliação, uma pílula ontológica para o esquecimento. Béla Tarr coloca-nos a História à frente com desinteresse, a privatização das cooperativas húngaras com os seus mafiosos de esquina. Sempre a mesma avidez, a mesma pilhagem moral, a mesma vaidade. Parece que foge dos homens, mas ir pelo lugar é ainda inquirir a pesadez dos corpos, é ainda investigar os seus medos.
Reencontra-os mais à frente no tasco onde todos os fragmentos se congregam, como que por acaso.

