domingo, 5 de fevereiro de 2023

Quando alguém nasce...

Uma técnica que eu uso para fazer coisas de que não gosto com algum gosto, é ouvir música e cantar a plenos pulmões. E era isto que eu hoje estava a fazer ao limpar a cozinha e a cantar ao som dos Resistência. E foi aí que veio a música do "nasce selvagem", tirada dos Delfins, enquanto eu descarregava a máquina da louça, arrumava tudo... E fiquei a pensar nela.

Foi a primeira vez que ouvi esta música enquanto pai e dei-me conta que nunca tinha notado como esta letra está errada! Quando penso na minha MM de 5 semanas penso em tudo menos em "selvagem". 

Pensemos nos animais à nossa volta. Um cavalo está a trotar ao lado da mãe ao fim de 1 hora; um pardal já esvoaça com duas semanas; com 2 meses um gato já começa a caçar...

Já o bebé humano é, provavelmente, o ser mais dependente e por mais tempo do grande mundo animal. A música diz-nos que "mais do que a (..) uma família, (...) tu pertences a ti, não és de ninguém", mas o que eu agora sinto é exatamente o contrário: um bebé nasce completamente dependente dos pais, da família, da tribo...

O que os pais procuram fazer é, ao longo das cerca de duas décadas que se seguem, tornar o bebé o mais livre (selvagem) possível. Que o bebé aprenda a comer sozinho, que aprenda a andar sem apoio, que aprenda a estudar, trabalhar... Mas ao nascer o bebé é tudo menos selvagem.

Mas, pronto, é uma boa música...




terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Ser pai com tempo

Tinha chegado há pouco tempo ao Zimbábue quando me foi proferido um ditado local: "os europeus são donos dos relógios e os africanos são donos do tempo." Vou confessar que, na altura, isto pareceu-me uma tentativa de desculpa romântica para os constantes atrasos dos africanos. Afinal de contas, pensei eu, o tempo é uma coisa que se partilha: quanto mais do "meu tempo" eu retiver, menos tempo eu concederei ao outro.

Ao fim de três anos e tal no Continente, começo a ver que não é bem como eu tinha inicialmente julgado. Não é fora de comum chegar a casa de amigos africanos à hora marcada e nada estar preparado. Para além disso, seremos os primeiros a chegar e esperaremos por todos os demais. No entanto, isso não é uma espécie de "egoísmo temporal" porque a chegada é só o início do muito tempo que estaremos juntos. Teremos mesmo tempo para conviver, debater, comer, beber... Tempo não faltará a ninguém.

Ser pai de um recém nascido põe toda a questão do tempo em perspetiva. Mais do que qualquer africano neste enorme continente, o recém-nascido é dono do tempo. O tempo de mamar é o seu tempo e pode demorar 15 como pode demorar 50 minutos. O tempo de adormecer também é seu: às vezes a questão está despachada em 10 minutos, outras vezes o primeiro endormecimento é apenas o primeiro de muitos. Nestes casos, os pais lá terão de voltar uma e outra vez a embalar até que este decida adormecer.

Mas não será isso uma intromissão no tempo dos pais? Qualquer mãe ou pai responderá a esta pergunta com outra pergunta: qual tempo dos pais? Eu prefiro perguntar: mas há alguma coisa mais importante neste momento que alimentar ou adormecer o bébé? E das profundezas da minha falta de experiência como pai, vem esta conclusão: não, nada é mais importante do que isso.

Pelo menos, por enquanto, durante a licença de paternidade. E sobre este ponto, há que louvar o legislador português que, recentemente, decidiu aumentar o tempo que os pais podem destinar aos filhos. Os pais agradecem poderem ter estes 25 dias úteis dedicados exclusivamente ao recém nascido (mais um mês no fim da licença da mãe, caso a mãe trabalhasse, o que não é o caso neste momento). Parece-me que as mães agradecerão tanto quanto os pais - francamente, não sei como seria possível a sucessão de períodos de amamentação, seguidos dos períodos de endormecimento sem descanso. Por último, parece-me que daqui a muitos anos, os agora recém nascidos também agradecerão a ligação aos pais, que as gerações que os precederam não tiveram direito.

E agora, tenho de ir dar tempo à MM, que acaba de acordar... Acaba-se o post!

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O que me ensinam estes 12 dias de paternidade

 Lições da paternidade:

1. Nem tudo o que faz sentido, é verdade

Leio que os bébés são fãs do banho, que os acalma e que até se deve dar antes de ir para a cama para estarem relaxados. O banho serviria, até, como momento de proximidade entre pais e filhos. Isto a mim fazia todo o sentido. A MM, todavia, DETESTA o banho. Já experimentámos dar antes e depois da mamada, ao acordar ou antes de mais uma sesta... Nada funciona! Já a parte final, em que eu a bezunto toda da vaselina, ela gosta. Água é que... Cruzes canhoto!

2. Quase todos os problemas de stress podem ser resolvidos com um par de maminhas

Sim, há aquelas ocasiões em que são gases ou aquelas em que a fralda está mesmo suja. Mas na maioria dos casos, só a maminha resolve um forte choro da MM.

3. Não interessa a afinação do pai

Sim, é verdade, a MM é a minha maior fã! Canto-lhe de tudo! Por vezes a Jana franze o sombrolho... Não achou o Sabão Crácrá, dos Mamonas Assassinas, uma música apropriada para uma recém nascida, por exemplo!

4. Todos os bébés são, mesmo, diferentes

Cada casal de pais mais experientes dá soluções diferentes para os mesmos problemas. "Com os meus resultava!" Pois, mas nem sempre resulta igual para todos os bébés. Se não fosse assim, eles não dariam soluções diferentes.

5. Adianta ler... E pôr as mãos à obra!

Para quem não sabe se deve ler para se preparar para a aventura da paternidade, a resposta é: sim! Quanto mais, melhor. Mas no final, é a prática que nos permite adaptarmos toda esta teoria ao nosso bébé.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Livros de 2022

No início do ano que passou, tomei a resolução de tomar nota de todos os livros que lia em 2022. A ideia era, mais ou menos por agora, fazer uma nota sobre o que tinha achado de cada um.

Não imaginava eu que o início de 2023 me iria apanhar no hospital. Pelos melhores motivos, há que dizer... 

A 30 de dezembro nasceu a miúda mais gira de que há memória na história da humanidade. Como essa miúda, por acaso, é a minha filha Madalena Maria, eu neste momento ando mais concentrado em assuntos como mamadas, troca de fraldas, fórmulas imaginativas para a adormecer, etc.

Não me sobra tempo para notas sobre os livros lidos! Mas, já que a lista está feita, aqui fica ela, sem as notas, que ficarão para quando os ciclos de sono e mamadas da MM estejam regulares...

Uma pergunta para pais mais experientes: quando é que isso acontece?

1. I will try - Legson Kayira

Um livro autobiográfico inspirador pela história de tenacidade do autor.

2. The cowards - Josef Skvoreck

Muito bem escrito sobre a reação das pessoas às invasões de que a Checoslováquia foi alvo. Li em Inglês porque não consigo ler em Checo.

3. Paciência com Deus - Tomás Halik

Não é fácil entrar na escrita de Halik, mas depois do 1o embate descobre-se um pensamento que vale bem a pena explorar.

4. Dead Aid - Dambisa Moyo

Esta economista zambiana oferece uma perspetiva refrescante sobre a ajuda ao desenvolvimento. 

5. The Joke - Milan Kundera

Muito bom! Gostei mesmo muito deste livro que descreve brilhantemente os sistemas repressivos da Checoslováquia socialista.

6. Contra mim - Valter Hugo Mãe

Algo difícil ler e pouco entusiasmante.

7. The third twin - Ken Follett

Depois de uma leitura difícil como a anterior, escolhi uma leitura mais fácil como esta. Livro entusiasmante que não queremos pousar.

8. A noite do confessor - Tomás Halik

Como já me tinha habituado à escrita de Halik, consegui entrar melhor neste e o autor não desapontou, com a sua profundidade.

9. Heads you win - Jeffrey Archer

Um dos meus autores preferidos. Nunca li um livro de Archer de que não tenha gostado muito.

10. Legacy of War - Wilbur Smith

Livro de ação no pós II Guerra Mundial.

11. Mhudi - Sol Plaatje

Ótimo livro sul africano! Bem escrito e dá uma boa ideia da sociedade e tempo em que a história se passa.

12. Vou ser Pai. E agora? - Mário Cordeiro

Se tiver que escolher o "livro do ano", não o farei pela sua qualidade literária mas sim pela sua utilidade atual, e será este. É um manual de instruções para os pais pela 1a vez. Para além deste, já li metade de um outro livro do mesmo autor, o Grande Livro do Bebé. Mas fiquei-me pela metade porque a certa altura já o bebé tinha uns 8 meses e eu decidi adiar o fim da leitura.

O que eu gostei nos dois livros é que o Dr. MC escreve para pais de hoje em dia, que querem e podem estar mais envolvidos na educação dos filhos. Eu tenho a sorte de ter tido um pai muito envolvido connosco, mas o que eu vejo em muitos pais dás gerações anteriores é que se refugiavam no argumento de "isso é lá com a mãe".

13. Mukiwa - Peter Godwin

Livro autobiográfico muito bem escrito e ideal para quem quiser entender por dentro a sociedade branca da Rodésia / Zimbabué dos anos 70 a 90.

14. Terrorism and counterterrorism studies - Edwin Bakker

Este livro não foi bem uma leitura, foi um estudo. Fiz um curso online com esse mesmo título e este era o "manual" do curso, por assim dizer. Todas as outras leituras do curso eram artigos disponibilizados online.

15. Rubainat - Omar Khayyám

Lindo! Em todos os sentidos... Um livro de poesia histórico da Pérsia antiga. A edição que eu tenho, dos anos 40, tem ilustrações lindíssimas.

16. A Porta da Europa - Uma História da Ucrânia - Serhii Plokhy

Ótimo livro para entender melhor o que está a acontecer na Ucrânia. Entender, já agora, não é aceitar.

17. Animal farm - George Orwell

Cheguei a esta proveta idade sem nunca o ter lido e tanto que vale a pena para entender o totalitarismo. 

18. Farmer Giles of Ham - J.R.R. Tolkien

Livro clássico para miúdos que agradou bastante a este graúdo. Uma horinha de leitura agradável. 

19. Diálogos Interditos (I) - Franco Nogueira

Vale muito a pena ler estas notas do Ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar nos anos 60. Permite entender quer a visão e vontade do governo da altura, quer as dos seus interlocutores.

O nascimento da MM apanhou-me a meio de um outro livro algo estranho: Les particules élémentaires, de Michel Houellebecq. Antigamente lia bastante em francês, mas já há algum tempo que não o fazia.  Estou a gostar de regressar a leituras francófonas, mas o livro em si é um bocadinho pesado pela forma como lida com personalidades complexas.

Para o hospital, de onde sairei hoje (fiquei cá com a Jana e a MM), decidi trazer uma leitura mais leve e cómica, The Spanish Ambassador's Suitcase, de Matthew Parris e Andrew Bryson. À conta deste livro, já tive que abafar muitas gargalhadas para não acordar a MM. Ideal para quem estiver a precisar de trabalhar os abdominais a rir.

Afinal, consegui fazer uma nota sobre cada livro! A MM já está a dormir há duas horas! Pelo meio até tomei o pequeno almoço e tudo... Que ela continue assim!

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Ser pai em tempos do Grande Irmão

Toda a gente já se apercebeu que este mundo virtual sabe mais das nossas vidas do que nós sabemos que ele sabe. Quantas vezes nos damos conta que, no seguimento de uma conversa, as aplicações de redes sociais no nosso telemóvel, que estava bem arrumadinho no nosso bolso durante a conversa, nos anunciam alguma coisa relacionada com essa conversa?

Ora, assim sendo, não é de espantar que o mundo virtual já esteja a par desta coisa de eu ser um pai à espera. Isto quer dizer que nos últimos tempos as minhas redes sociais têm sugerido tudo o que tem a ver com bébés. Começou com vídeos engraçados de bébés. Depois passou a publicidade de toda a enorme pararfenália de coisas que eu nunca precisei mas que o mundo virtual sabe que eu agora vou precisar. Agora vai nos vídeos com conselhos, desde mães a pediatras, toda a gente me quer aconselhar sobre como ser pai.

Isto não é necessariamente mau. Aliás, quem é o nosso conselheiro de maior confiança para tudo o que possamos precisar na vida, que não o google? Chega mesmo ao exagero de que eu, casado com uma médica, quando sinto algum desconforto que não é resolvido pelo tratamento milagroso que eu sigo há décadas para qualquer maleita (2 copos de água), vou antes ao google ver o que ele me sugere e só depois falo com a médica cá de casa!

Assim, dou por mim a "seguir" pessoas nas redes sociais que me querem dar conselhos de paternidade. São os tais "influencers" que também existem para o mundo dos bébés. 

O engraçado disto é a absoluta despersonalização da confiança. Antes davam-nos conselhos pessoas que nós conhecíamos e em quem confiávamos. E, por isso, aceitávamos os conselhos delas. Hoje dão-nos conselhos pessoas com quem nunca nos cruzámos. Como um homem que eu acredito ser pediatra (nunca vi o diploma nem ninguém mo recomendou mas confiei que ele era o que dizia ser), bem falante, com pronúncia do Porto, que eu ainda nem sei o nome mas que já sigo no instagram e de quando em vez lá me aparece a dar um conselho.

Não estou aqui a dizer que chegámos ao fim da tradição do conselho personalizado da família e amigos. Esse também o há... Estou a lembrar-me quando, há uns meses, nós estavamos preocupados com o tipo de carrinho (e anexos) a comprar e uma amiga do outro lado do mundo nos mandou todas as dicas que precisámos para tomar a decisão. Mas se a tradição desse conselho não chegou ao fim, pelo menos diversificou-se.

E não há que chorar por isso... Aproveitemos! Eu sempre gostei de ouvir opiniões e receber conselhos e agora tenho todo um mundo digital ansioso por mandar bitaites sobre a minha vida e as minhas decisões. Não irei desperdiçar esta oportunidade! Obrigado mundo digital!

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

CTT na altura do Natal

Já estou à espera desta encomenda chamada Madalena há 7 meses e ainda faltam mais 2 meses para a chegada! Isto é pior que os CTT na altura do Natal!

Imagino que as pessoas ligadas à agricultura, pessoas que estão habituadas a esperar meses para a altura certa para fazer isto ou aquilo, seja fácil esperar por um bébé, mas para um citadino como eu aespera torna-se dura. Estamos na era digital, tudo se consegue com um clique em frações de segundos. As mensagens substituiram os emails, que substituiram as cartas que nos últimos 200 anos já se tinham tornado muito mais rápidas. E com todas estas alterações na velocidade com que tudo é feito, continuamos nove meses à espera de um bébé!

Pensemos nos marinheiros portugueses dos Descobrimentos. Se deixassem a mulher grávida em Lisboa e fossem à Índia, quando regressassem já a criança andava. Hoje em dia as pessoas podem fazer distâncias bem maiores e apenas vão notar no regresso um ligeiro aumento da barriga.

Quem tem mais experiência no assunto diz-me para eu não ter pressa que quando a Madalena nascer, eu vou desejar pô-la de volta na barriga. É possível... Mas não vou saber se é mesmo assim nos próximos dois meses!

No entretanto as coisas vão-se compondo. Já marcámos a clínica para o dia ainda incerto em que ela decidir nascer, já temos a roupa, as fraldas, os produtos de higiene, o carrinho (que inclui o ovo e o assento para o carro), o kanguru... Só nos falta a cama que foi encomendada e que é feita cá no Zimbábue.

Aqui entre nós que ninguém nos lê, eu era daqueles que abria sempre os presentes de Natal mal eles apareciam na árvore... Com muito cuidado para depois fechar, claro está! Mas este é daqueles presentes que não dá para abrir e dar uma espreitadela e depois voltar a pôr lá dentro.

Quer dizer... Com aquela ecografia toda XPTO que fizemos em Lisboa deu para ver algumas coisas. Deu para ver que não tenho de ter medo de ser uma rapariga, porque estava sempre com a mão fechada, pelo que será forreta como o pai. Também me pareceu que tinha um nariz bem grande, característica também herdada deste lado. 

Mas para além de ser uma nariguda forreta como o pai, mais não sei! Vai ser elétrica ou calminha? Extro ou introvertida? Intelectual? Uma braza como a mãe? Coitadinha, vai mesmo ter de ter queda para as línguas, para falar com a mãe numa língua, com o pai noutra e ir à escola ainda noutra. Mas será que vai gostar mais de ciências, como a mãe, ou de humanidades como o pai? 

Tudo isto eu terei de esperar mais dois meses... E depois mais uns meses e anos... E passar o resto da minha vida a descobrir!

É mesmo pior que os CTT no Natal!

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Realidade virtual do género

Em agosto de 2018, em plena silly season de praias e banhos, foi publicada a Lei n.º 38/2018 sobre a identidade de género. Esta Lei veio determinar que as pessoas poderiam, mantendo as "características sexuais primárias e secundárias", escolher um outro género e até ser tratado por um nome diferente em conformidade.

Com isto, fez-se Lei aquela expressão contraditória da "realidade virtual" porque se uma coisa é real, não é virtual e vice-versa. Assim qualquer José Maria pode por efeito da sua vontade (e imaginação) passar a ser Maria José perante quaisquer autoridades sem necessidade de uma avaliação profissional sobre a sua condição. Curiosamente, já não é assim se a Maria José quiser voltar a ser o José Maria - apesar de ter mantido todas as tais características que tinha à partida, aí já será necessário que venha um juíz permitir a mudança.

E a Lei diz que ninguém tem nada a dizer sobre o assunto! Nem mesmo os contribuintes que pagam o Sistema Nacional de Saúde que, por sua vez, estará encarregue de levar a cabo "tratamentos e intervenções cirúrgicas, farmacológicas ou de outra natureza, destinadas a fazer corresponder o corpo à sua identidade de género". Ou seja, o contribuinte paga e cala. Sim, não foi chamado nenhum especialista para dizer que aquela pessoa, de facto, estava no corpo errado, mas depois são chamados e pagos os especialistas para produzir o corpo que aquela pessoa considera ser o certo.

Esta Lei da realidade virtual mesmo assim não foi ao ponto de permitir a alteração do género de menores a não ser os menores de 16 e 17 anos, que podem requerer a alteração de género através dos pais. Mesmo assim, a Lei vem dizer que as escolas devem proteger uma escolha que antes reconheceu que não poderia ser feita sem intervenção dos pais antes dos 18 anos. Ou seja, primeiro a alteração é feita na escola como teste de ensaio da realidade virtual.

E é isto que o tão badalado Projeto de Lei nº 332/XV vem agora desenvolver. Se o pequeno José Maria quer passar a ser tratado como Maria José, com ou sem consentimento dos pais, a escola terá de assim o reconhecer.

E isto leva-nos a questões mais filosóficas sobre o que é a educação, qual o papel dos pais e das escolas nela, etc. E são estas questões que, como homem a iniciar-se no caminho da paternidade mais me interessam. Quais serão as minhas obrigações para com a Madalena enquanto ela não for "maior e vacinada"? E se ela me disser que quer passar a ser o Madaleno?

Sempre achei que a realidade é complexa de mais para andarmos a brincar com ela. O mundo é o que é e nunca deveremos deixar de o tentar aperfeiçoar, mas também temos de o conhecer na sua realidade para tirarmos dele o melhor partido. Assim é também com as pessoas. Somos o que somos e devemos sempre tentar aperfeiçoar-nos ao longo da vida mas em tudo o que não podemos mudar, devemos aprender a aceitar, amar e tirar o melhor partido.

Um exemplo pessoal: sou baixote. Cheguei à idade adulta com complexos de ser baixote e isso prejudicava-me a auto-estima enquanto adolescente e jovem adulto. Aos poucos aprendi a aceitar e até a amar isso. Comecei a brincar com o facto de ser baixote, habituei-me a isso e hoje em dia tenho isso completamente integrado em mim. Não tomei hormonas de crescimento, com efeitos secundários terríveis, não fiz qualquer cirurgia que me imobilizaria quase um ano e, apesar disso, hoje tenho isso perfeitamente integrado em mim e até acho que dá muito jeito a quem viaja muito, dado o espaço cada vez mais reduzido nos aviões.

Ora, este aprender a amar-se na sua realidade pessoal é o que eu tentarei passar à Madalena. Tentarei que ela se ame como mulher, como luso-checa, como o que quer que seja que ela venha a ser e parecer... Até mesmo, caso ela saia aos pais, que se ame como baixota! Ninguém aprende verdadeiramente a amar os outros e o que o rodeia se não se ama em primeiro lugar a si mesmo. E como é que alguém há-de ser feliz sem amor?

Não tenho nada contra a imaginação. Esta é ótima, pode fazer-nos viajar por mundos nunca antes explorados e pode ajudar-nos a levar alegria aos outros através de histórias, pinturas, música, arquitetura... Espero mesmo que a Madalena seja muito imaginativa. Mas a realidade, por mais que lhe desagrade, tem de ser aceite para que ela possa ser feliz. E aceitarmo-se a ela própria como o que é, será o primeiro passo para uma vida feliz e plena de sentido.

E nisso eu gostaria de contar com a ajuda das escolas que a Madalena frequente. Gostaria que as escolas a ajudassem a a amar-se a si mesma como o que é e não como o que imagina que é. Quando ela aprender a aceitar-se e amar-se, saberá aceitar e amar também os outros. Não deveria ser isto que o Estado deveria promover nas escolas?

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Paternidade musical

 Ao aproximar-se a hora de ter a Madalena cá fora no meio de nós, eu decidi iniciá-la no maravilhoso mundo da música infantil portuguesa. Sim, diz que eles lá dentro da barriga ouvem e a malta vai nisso.

Vai daí escolhi no spotify um álbum de música infantil portuguesa... Ao fim de algumas músicas fiquei com uma dúvida existencial: como é que nós, que crescemos a ouvir aquilo batemos bem da cabeça? Ou será que não batemos bem da cabeça e que não o reconhecemos naquela onda de que os loucos sempre se julgam sãos?

Bem, o álbum começou com a incontornável música de se atirar o pau ao gato. Se há música que imediatamente me vem à cabeça da infância é essa... Mas... Longe de mim gostar de gatos, que não gosto, mas atirar-se-lhes paus, ficar-se triste porque os gatos não morrem (se calhar era só o 6º pau) e ainda se assustar velhas com o miado do bicho não me parece bem!

Pouco depois vieram as pombinhas da Catrina (não, não é Catarina). E por onde começar? Pela miúda pequenina que é mandada acartar água da fonte ou pela mãe que só não lhe bate de partir a cantarinha porque ela encontrou as pombas da outra?

Mas foi quando chegou a outra do barqueiro que eu desliguei a música... A Madalena não merece ouvir de uma mãe que não consegue sustentar os filhos mas que precisa tanto de atravessar o rio que deixa um dos filhos ao barqueiro! Barqueiro esse que nem é capaz de fazer uma borla a uma mãe em apuros!

Estou aqui a pensar se não será melhor a Madalena ouvir música Checa com a mãe. Mas tendo em conta que a mãe nasceu na República Socialista da Checoslováquia, tenho medo que a música de lá fale sobre os pequenos almoços daquela gente e isso ainda ia aterrorizar mais a criança.

Talvez seja melhor a Madalena passar diretamente para o fado e a bossa nova.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Retomar...

Retomar é daqueles verbos que parecem indesejados. Só precisamos de retomar quando perdemos alguma coisa. Às vezes damos por nós a trabalhar para retomar alguma coisa que tivemos mas que nem tínhamos desejado em primeiro lugar ou que nem valorizávamos enquanto a tínhamos.

Vendo as coisas assim, ficamos a pensar que a retoma está também ligada à valorização. Só queremos retomar algo que passámos a valorizar.

A pandemia em que vivemos faz-nos querer retomar tanto do que tínhamos antes. 

Na melhor das hipóteses, queremos retomar a liberdade que, entretanto, aprendemos a valorizar porque antes da pandemia a tomávamos por adquirida. A liberdade de sair de casa quando queremos, a liberdade de viajar, a liberdade de estar com as pessoas de quem mais gostamos, independentemente das idades delas. Isto nos sentirmos um perigo potencial para aqueles a quem mais bem queremos é uma prisão das piores que podemos ter.

Mas há casos piores do que apenas a liberdade. Há casos de perda de trabalho e rendimentos, por exemplo. Quantas pessoas não foram despedidas no último ano? Quantas pessoas tinham investido em negócios que estão agora parados e a dar prejuízo? O nosso trabalho é mais do que apenas aquilo que fazemos para nos sustentarmos, é também o nosso lugar na sociedade. Quando trabalhamos, somos aquela pequena peça na engrenagem que faz tudo funcionar melhor. Assim, há tanta gente agora a querer retomar o seu lugar.

Há também aqueles que querem retomar a saúde perdida para o COVID. Pessoas que querem voltar a fazer uma aula de yoga mas nem conseguem respirar fundo. Pessoas que querem voltar a correr 5 kms por dia, mas ficam exaustos ao fim dos primeiros 500 metros. Pessoas que levantavam 50 kgs e agora não conseguem mais que 5!

Por último, há, claro está, aqueles que querem retomar o que é impossível... A vida com aquelas pessoas mais queridas que morreram durante esta maldita pandemia. Nem é preciso terem morrido com o vírus, podem ter tido um ataque de coração. Mas tantas vezes são aqueles casos de pessoas com quem já não estavam há meses por causa do COVID ou a quem gostariam de dar um último adeus mas não puderem porque estas regras dos hospitais e das funerárias são feitas para nos proteger a todos. Nestes casos a retoma passa apenas por valorizar o exemplo que estas pessoas deixam e, quem sabe, por planear juntar toda a gente para celebrar a vida do que nos deixaram. Daqui a muitos meses, claro está!

Dá ideia que o retomar é sempre o mais difícil. Voltar a fazer o caminho que antes fizemos já sem aquele saborzinho bom da novidade. A frustração de repisar as nossas pegadas.

Dei por mim a pensar isto da retoma quando fazia os primeiros exercícios desde que, há quase seis semanas fui operado. O meu médico disse-me que só agora poderia retomar e que teria de ser lentamente, porque as hérnias são o maior perigo do meu pós operatório. Vai daí, encontrei no youtube um vídeo de exercícios para quem foi operado. Foram apenas 10 minutos de exercícios tão leves que nem comecei a suar. 

E foi nesses 10 minutos que comecei a pensar em tantas retomas que agora ocorrem ou que ainda nem ocorrem porque as condições para tal pura e simplesmente não existem. E rezei por todos estes milhões de retomas individuais a acontecer ou à espera de acontecer... Por todos estes milhões de sentimentos individuais de frustração. 

Rezei que esta frustração se possa transformar em vontade de retomar e de ultrapassar o antes alcançado. E agradeci a Deus que a minha mini retoma me tenha ajudado compadecer-me mais de todos aqueles que estão a precisar de retomas muito maiores.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Cirurgia em Lisboa

 No primeiro post do ano comecei por dizer que este ano me apanhou em Lisboa porque no dia em que deveria ter regressado a Harare o meu apêndice decidiu que não queria regressar comigo. Enfim, foi um apêndice educado e considerado porque se manifestou na altura certa - um dia mais tarde e apanhar-me-ia em pleno voo...

Mas, mais do que a educação e consideração do meu apêndice, o que eu queria era elogiar a equipa que tratou de mim. Fui operado no Hospital de São Francisco Xavier mas por uma equipa de banco vinda do Hospital Egas Moniz. Esta era liderada pela Dra. Ana Alves Rafael e dela fazia também parte o Dr Miguel Fróis Borges. 

Antes de continuar, devo dizer que, de forma muito injusta não fiquei com os nomes do resto da equipa: médicos, enfermeiros e auxiliares. Estava ali eu estendido na maca, cheio de tempo para trocar cartões de visita, o que até me teria permitido desanuviar um pouco das dores, mas esqueci-me de o fazer! Há coisas em que sou incorrigível...

Mas voltando à equipa de cirurgia: foram absolutamente impecáveis! Aliás, o bom ambiente que se vivia no Hospital de São Francisco Xavier animava até um doente estendido na maca com apendicite. Ainda para mais, a operação não foi bem trigo limpo - a inflamação tinha-se estendido ao cego que não é uma pessoal invisual, é o fim do intestino grosso, pelo que eles tiveram ali três horas de muito trabalho. O desafio foi bem difícil mas a equipa portou-se lindamente!

Depois da cirurgia, foi a recuperação. Como a minha equipa era do Egas Moniz, foi para este hospital que fui recuperar. Também aqui a equipa de enfermeiros e auxiliares não podia ter sido melhor! Simpáticos, prestáveis, com humor... E a compreenderem as minhas excentricidades, o que é importante. Acho que não devem ter muitos pacientes a dizerem que são alérgicos à televisão e que precisam de uma sala silenciosa para lerem em paz, mas isso arranjou-se!

Na recuperação foi o Dr. Miguel Fróis quem me acompanhou e que, pacientemente, foi respondendo às listas de perguntas que eu ia escrevendo em lembretes do telemóvel para não me esquecer. Ainda para mais, era uma pessoa inteligente, de leituras interessantes, do género que eu até teria gostado de conhecer numa situação menos dolorosa para falar de assuntos bem mais interessantes do que sobre o meu apêndice.

Bem... Como podereis ter visto, serve este post como reconhecimento pelo ótimo trabalho e agradecimento sincero a todo o pessoal médico, de enfermagem e auxiliar que tão bem cuidaram de mim em São Francisco Xavier e Egas Moniz entre 26 e 30 de dezembro. Na pouca provável eventualidade de algum deles vir a ler este post: MUITO OBRIGADO! 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Energia Positiva

Sempre que acedo ao facebook, ele, muito simpaticamente vai-me dizendo quais os meus amigos que fazem anos. Infelizmente, não acedo todos os dias a esta muito útil plataforma pelo que se o prezadíssimo leitor deste humilíssimo post é meu amigo e não recebeu uma mensagem de parabéns, isso foi porque eu nesse dia não acedi ao facebook.

Mas é mesmo sobre mensagens de parabéns que eu queria falar. O facebook não sugere que eu envie uma mensagem de parabéns, sugere antes que eu envie energia positiva. 

Energia positiva...

Isto fez-me lembrar umas férias que passei na Praia Grande com uns primos que estavam viciados no Dragon Ball, o que me levava a também ver aquilo. De facto, a minha primeira ideia quando li isto da energia positiva é que eu me deveria transformar no Songoku e dar um salto daqueles improváveis, enquanto envio uns faixes de luz aos meus amigos ao mesmo tempo que grito: POOSIITIIVAAAAA! Infelizmente, aos 40 anos já posso começar a fazer contas aos cabelos que tenho e eu acho que me transformar numa personagem toda brilhante aos saltos e com feixes de luz mas pouco cabelo seria ridículo.

Vai daí, tenho-me sempre recusado a obedecer ao facebook e nunca mandei um watt que fosse de energia positiva a ninguém. Mas também me custa ser do contra, desobedecer ao facebook e não enviar nada disso da energia positiva a ninguém. 

Vai daí, hoje fiz um google para saber o que era energia positiva, para que a pudesse começar a enviar a pessoas. Não surpreendentemente, fui dar a um site brasileiro. Digo "não surpreendentemente" porque parece-me que os nossos irmãos do Hemisfério Sul gostam muito deste tipo de coisas que eu entendo pouco, tipo xacras, mantras, reiki e outras coisas tão energéticas como aquelas bebidas que ingerimos quando estamos numa maratona. 

Não obstante a minha pesquisa e a promessa do site de responder à minha resposta, fiquei sem saber bem o que era... Eles apenas diziam que quando se envia energia positiva ela vem de volta para nós. Ou seja, é uma espécie de boomerang. Mas como atirar para os outros algo difícil de explicar? Os nossos irmãos do outro lado da viagem de Sacadura Cabral explicam que para termos energia positiva, temos de ter em casa samambaias (fetos), muitas janelas, fotografias de pessoas queridas e muitas cores. Pelos vistos, depois de termos estas coisas em casa, vamos poder atirar com energia positiva à cara dos outros e eles responderão na mesma moeda.

E lá continuei sem saber o que isso da energia positiva era. Ainda para mais fiquei sem perceber porque é que o facebook quer que tenhamos fetos em casa! Mas, pensando bem, em altura COVID ninguém quer testar positivo. Toda a gente espera ansiosamente que o resultado de levarmos com zaragatoas pelo nariz acima seja negativo. Vai daí, está decidido: vou continuar a desobedecer ao facebook e a não enviar energia positiva a quem quer que seja.

domingo, 3 de janeiro de 2021

2020 em revista

É aquela semana em que toda a gente passa o seu ano em revista. Eu, que não gosto de ser exceção, decidi fazer o mesmo. Mentira... Eu gosto de ser exceção, mas decidi não sê-lo agora.

Entrei em 2020 em Harare a viver numa casa absolutamente vazia. Vazia, mesmo! Dentro da casa tinha uma cama e um mini-frigorífico, ambos emprestados, e na varanda tinha uma mesa e umas cadeiras desdobráveis, também emprestadas. Nessa altura a empresa de transportes que levou o meu contentor para África dizia-me que este estava atrasado... E como a minha mobília ia chegar, eu não ia começar a comprar mobília nova, pelo que, para me sentar a ler, por exemplo, sentava-me no chão e encostado à parede. Foram, certamente, os meses mais desconfortáveis da minha existência!

Passados dois meses, lá nos foi dito que o contentor estava perdido. Um contentor de 20 pés perdeu-se! Evaporou-se... Desapareceu sem ser notado do porto de Durban! Eu, que absolutamente detesto fazer compras, passei o ano a comprar coisas para ter uma casa minimamente apresentável. Esta necessidade constante de fazer compras já bastaria para me estragar o ano.

À medida que o novo ano ia entrando com mais força, cresceu o alarme com esta nova Pandemia vinda de Wuhan. Este alarme teve alguns aspetos positivos - um deles foi a OMS em Harare passar a precisar de uma consultora médica para questões epidimiológicas. E a Jana estava à procura de trabalho... As duas vontades casaram-se lindamente e desde fevereiro que a Jana se tornou uma OMSista em Harare.

Perante o aumento de casos da COVID no Zimbábue, o Governo decidiu entrar em lockdown em março. Os dois meses em que  a Jana e eu trabalhámos a partir de casa até foram bons. Por exemplo, tivemos mais tempo para estar juntos, para delinearmos o que gostamos de fazer como casal (omelete ao pequeno-almoço, passeio ao fim do dia, etc.). Apesar de ter muitas reuniões online, escrever muitas análises e atender muitos telefonemas de cidadãos a querer regressar a Portugal, desses dois meses guardo a recordação de que tinha tempo para fazer tudo! O facto de termos alguns amigos a viver no mesmo condomínio, o que nos permitia continuar a ter alguma vida social, apesar de não podermos sair à rua, também ajudava.

O pior da COVID estava mesmo para vir... O nosso casamento estava marcado para se realizar na Chéquia em Abril e logo no início de março vimos que a pandemia não ia deixar. Remarcámos para Outubro porque não havia outras datas disponíveis até lá, mas também essa data foi cancelada. Estes adiamentos "até mais nunca" deixaram-nos aos dois tristíssimos mas de certa forma até nos aproximou como casal.

Desde o fim do lockdown, que a Jana e eu aproveitámos para conhecer o Zimbábue. Até porque não podíamos ir a mais lado nenhum. Mas isso valeu mesmo a pena! É um país lindíssimo e com muito para oferecer em termos de natureza. Infelizmente, os preços são tão caros que torna incomportável à comum pessoa lá ir passar umas férias. Nós conseguimos aproveitar os preços terem sido cortados por causa da Pandemia, chegando os hoteis a fazer 1/3 dos preços originais.

Este ano teve a particularidade de ser a minha entrada nos entas. Ah pois é, nascido em 1980... Entrei da melhor forma! A Jana organizou-me uma festa com muitos amigos de Harare lá em casa. Não apenas é uma casa com jardim, pelo que estávamos todos ao ar livre, como nessa altura os números de novas transmissões estavam longe de alarmantes.

Infelizmente, os planos para outras viagens em África tiveram de ser adiados até um pós-COVID que o permita.

O ano acabou em Portugal. Não era suposto ter acabado cá, porque devíamos voar no dia a seguir ao Natal . No entanto, à hora do dito regresso estou eu estendido numa maca no Hospital de São Francisco Xavier à espera de uma cirurgia urgente! Foi o meu apêndice que não quis regressar a África... Não posso deixar de ver a mão de Deus em que esta situação macaca se tenha passado em Lisboa e não no voo ou até em Harare! Claro que preferia que o meu apêndice nunca se tivesse manifestado mas, se ele tinha que dizer alguma coisa, ao menos deixou-me viver o Natal mas não me deixou viajar!

Assim, a poucos dias do fim do ano vi-me nas mãos de uma equipa de absoluta excelência a ser operado em Lisboa. Mas isso já é matéria para um post futuro.

Bom ano novo a todos!

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Regras para viver num mundo psicótico

Cada vez mais parece que estamos a viver num mundo psicótico. Num estado de psicose, alguém não consegue distinguir o que é real ou fruto de delírios. Ora, o que acontece hoje em dia é que podemos ler histórias tão diferentes sobre os mesmos eventos escritas por pessoas tão convictas (e convincentes) da sua razão que ficamos sem saber o que é a realidade. Tal como Pilatos, ficamo-nos a interrogar, "quid est veritas"?

Este estado de coisas tem muito a ver com o atual papel que as redes sociais têm na informação das pessoas. Num período anterior às redes sociais, as notícias eram difundidas por meios de comunicação social. Estes podiam ter muitas falhas, mas os jornalistas eram regidos por um código de ética e na maior parte dos países democráticos havia algum órgão independente de supervisão da comunicação social.

No mundo das redes sociais, qualquer um pode lançar as notícias que entender e estas difundem-se com uma enorme rapidez. Para além disso, estas notícias são eivadas de preconceitos ideológicos e apresentados com uma enorme agressividade - estas características seriam mal vistas num profissional mas são toleradas num comentador leigo.

Vai daí, decidi compilar algumas regras para viver neste mundo psicótico.

1. Se parece um disparate é porque, muito provavelmente, é mesmo.

Uma das primeiras notícias virais que se difundiam ainda antes das redes sociais era de que havia gente a deixar seringas com SIDA nas cadeiras dos cinemas para infetarem a população. Era estúpido, parecia inverosímil mas, na realidade, passei a olhar bem para os sofás dos cinemas antes de me sentar. O medo vende bem... O senso comum, quando em conflito com o medo, normalmente perde. O que nos faz falta é mesmo ter mais senso comum e menos medo.

2. Confiar na boa fé das pessoas, mesmo dos políticos.

Boa fé parece  uma coisa fora de moda - o que está na moda é a desconfiança. O primeiro grupo de que se desconfia é o dos políticos - só a palavra soa hoje a insulto. Mas esses não são os únicos: desconfia-se dos professores (que querem fazer lavagem cerebral às criancinhas), dos médicos (que estão feitos com as grandes farmacêuticas para nos tirar o dinheiro), dos padres (aquilo do celibato provoca perturbações)... Os exemplos podiam-se multiplicar e pensar o contrário é visto como ingenuidade e até alguma patetice. No entanto, confiar na boa fé dos outros faz-nos bem e faz-nos fazer bem. Ao contrário de patetice, é a atitude mais racional porque permite-nos adotar comportamentos que nos fazem bem e que, caso contrário, serão reprimidos.

3. Multiplicar a nossa experiência empírica.

Isto é quase voltar à primeira regra, mas tem algo de novo. Se as pessoas que conhecemos dão-nos causa para pensar que são boas pessoas, podemos presumir que as que não conhecemos também o são. Peguemos nos exemplos anteriores. Já conheci muitos políticos (de diferentes tendências políticas), muitos professores (de diferentes disciplinas), muitos políticos (de diferentes especialidades) e muitos padres (de diferentes ordens e nenhuma)... Ora, a maioria dos políticos que conheci apenas via na política uma forma de promover o bem comum; a maioria dos professores viam no ensino uma forma de melhoria de vida dos seus alunos; a maioria dos médicos estava empenhada em tratar os pacientes; e a maioria dos padres queria ajudar as pessoas a viver mais perto de Deus. Se assim é com as pessoas que eu conheço, porquê desconfiar tanto dos que não conheço? Porquê inventar motivações escondidas para as suas ações?

4. Check, and check, and check again... E, em caso de dúvida e falta de tempo, não reenviar.

A tentação de reenviar aquela notícia exclusiva que recebi é sempre grande. Mas, se algo me faz desconfiar da sua veracidade, deverei verificar antes de enviar. E, se a fonte de verificação não nos parece segura, verificar de novo. Caso não tenha tempo, apenas não reenviar a notícia.

5. Pensar...

O que nos faz falta hoje em dia é mesmo pensar nas coisas. Pensar longamente... Pesar os prós e contras, avaliar as coisas com a razão e (porque não?) o instinto ou coração. Não nos lançarmos numa opinião insensata apenas porque é a primeira que nos vem à cabeça e procurar ver as consequências dos nossos atos. E estudar... Estudar o que nos vem à mão, desde que com qualidade. Estudar ciências, história, filosofia, arte, política... Não nos ficarmos nas nossas áreas de formação académica e procurar sempre aprender mais.

Estas cinco regras, que me tenho esforçado por praticar, têm-me ajudado a viver de forma que, julgo eu, é um bocadinho mais sã neste mundo psicótico das notícias falsas e das verdades alternativas.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Global Peace Index 2020

Portugal mantém-se este ano em 3º lugar no Índice Global de Paz.
Quando se vê os motivos para tal, nota-se que muitos dos indicadores que contribuem para tal têm a ver com as opções da diplomacia Portuguesa que se mantém constantes nas últimas décadas. Estas opções primam pela colaboração com as missões de manutenção de paz das Nações Unidas, pela sua relação com os países vizinhos (Marrocos também conta, não é só Espanha) e pela sua conformidade ao Direito Internacional, nomeadamente no que diz respeito às armas de destruição maciça.
Assim sendo, a Diplomacia Portuguesa também está de parabéns...

Sem ter nada a ver com a minha altamente isenta palmadinha nas costas à diplomacia portuguesa... Achei estranho que a Chéquia descesse de posição quando todos os que estão acima dela se mantiveram iguais. Ora, achei que de algum lugar ela deveria ter descido. Fui ver e em 2019 a Chéquia estava em 10º lugar, logo ultrapassou os países que estavam acima de si: Eslovénia (que passou de 8º para 11º) e Japão, que se manteve em 9º. Aquilo das setinhas não está muito fiável! Mas lá que Portugal se mantém em 3º lugar, isso mantém-se...

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O QUE É AMAR UM PAÍS

- Discurso do Cardeal Dom Tolentino Mendonça - X.VI.MMXX
Agradeço ao senhor Presidente o convite para presidir à Comissão das comemorações do dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estas comemorações estavam para acontecer não só com outro formato, mas também noutro lugar, a Madeira. No poema inicial do seu livro intitulado Flash, o poeta Herberto Helder, ali nascido, recorda justamente «como pesa na água (...) a raiz de uma ilha». Gostaria de iniciar este discurso, que pensei como uma reflexão sobre as raízes, por saudar a raiz dessa ilha-arquipélago, também minha raiz, que desde há seis séculos se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal.
É uma bela tradição da nossa República esta de convidar um cidadão a tomar a palavra neste contexto solene para assim representar a comunidade de concidadãos que somos. É nessa condição, como mais um entre os dez milhões de portugueses, que hoje me dirijo às mulheres e aos homens do meu país, àquelas e àqueles que dia-a-dia o constroem, suscitam, amam e sonham, que dia-a-dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja: no território continental ou nas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, no espaço físico nacional ou nas extensas redes da nossa diáspora.
Se interrogássemos cada um, provavelmente responderia que está apenas a cuidar da sua parte - a tratar do seu trabalho, da sua família; a cultivar as suas relações ou o seu território de vizinhança - mas é importante que se recorde que, cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele. Pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade. E quando pomos no mar a nossa embarcação não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes.
Camões e a arte do desconfinamento
Pensemos no contributo de Camões. Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos em herança a poesia. Se, à distância destes quase quinhentos anos, continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu, em concreto, o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia. A poesia é um guia náutico perpétuo; é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida; é uma cosmografia da alma. Isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mar até à India, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios; conduz-nos, com uma lucidez veemente, a representações que nos definem como indivíduos e como nação; faz-nos aportar – e esse é o prodígio da grande literatura - àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto, um ser humano sobre a terra, não se pode isentar.
Se é verdade, como escreveu Wittgenstein, que «os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo», Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento. Porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço comunitário, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente; poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania. Desconfinar é sentir-se protagonista e participante de um projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito. É não conformar-se com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo. Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para ousar sonhos grandes. E isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época.
Que a crise nos encontre unidos
Gostaria de recordar aqui uma passagem do Canto Sexto d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição portuguesa à India. Os marinheiros, dependurados na gávea, avistam finalmente «terra alta pela proa» e passam notícia ao piloto que, por sua vez, a anuncia vibrante a Vasco da Gama. O objetivo da missão está assim cumprido. Mas o Canto Sexto tem uma exigente composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção. É que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima que Camões sabiamente se empenha em descrever, com impressiva força plástica. Digo sabiamente, porque não há viagem sem tempestades. Não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação. Não há itinerário histórico sem crises. Isso vem-nos dito n’Os Lusíadas de Camões, mas também nas Metamorfoses de Ovídio, na Eneida de Virgílio, na Odisseia de Homero ou nos Evangelhos cristãos.
No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles.
Mas à observação realística que Camões faz da tempestade, gostaria de ir buscar um detalhe, na verdade uma palavra, para a reflexão que proponho: a palavra «raízes». Na estância 79, falando dos efeitos devastadores do vento, o poeta diz: «Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/ As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas». A leitura da imagem em jogo é imediata: as velhas árvores reviradas ao contrário, arrancadas com violência ao solo, expõem dramaticamente, a céu aberto, as próprias raízes. A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há super-países, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo.
O que é amar um país
O Dia de Portugal, e este Dia de Portugal de 2020 em concreto, oferece-nos a oportunidade de nos perguntarmos o que significa amar um país. A pensadora europeia Simone Weil, num instigante ensaio destinado a inspirar o renascimento da Europa sob os escombros da Segunda Grande Guerra, de cujo desfecho estamos agora a celebrar o 75º aniversário, escreveu o seguinte: um país pode ser amado por duas razões, e estas constituem, na verdade, dois amores distintos. Podemos amar um país idealmente, emoldurando-o para que permaneça fixo numa imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou podemos amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos. São dois amores diferentes. Podemos amar pela força ou amar pela fragilidade. Mas, explica Simone Weil, quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.
O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre - e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais. Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.
Nestes últimos meses abateu-se sobre nós uma imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas e cujas consequências estamos ainda longe de mensurar. A pandemia que principiou como uma crise sanitária tornou-se uma crise poliédrica, de amplo espetro, atingindo todos os domínios da nossa vida comum. Sabendo que não regressaremos ao ponto em que estávamos quando esta tempestade rebentou, é importante, porém, que, como sociedade, saibamos para onde queremos ir. No Canto Sexto d’Os Lusíadas a tempestade não suspendeu a viagem, mas ofereceu a oportunidade para redescobrir o que significa estarmos no mesmo barco.
Reabilitar o pacto comunitário
O que significa estar no mesmo barco? Permitam-me pegar numa parábola. Circula há anos, atribuída à antropóloga Margaret Mead, a seguinte história. Um estudante ter-lhe-ia perguntado qual seria para ela o primeiro sinal de civilização. E a expectativa geral é que nomeasse, por exemplo, os primeiríssimos instrumentos de caça, as pedras de amolar ou os ancestrais recipientes de barro. Mas a antropóloga surpreendeu a todos, identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado. No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse. A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética.
É interessante escutar o que diz a etimologia latina da palavra comunidade (communitas). Associando dois termos, cum e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um múnus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais atual.
Celebrar o Dia de Portugal significa, portanto, reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte. Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos. Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem o Covid19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade. No contexto do surto pandémico, foi, por exemplo, um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. O desafio da integração é, porém, como sabemos, imenso, porque se trata de ajudar a construir raízes. E essas não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade. Lembro-me de um diálogo do filme do cineasta Pedro Costa, «Vitalina Varela», onde se diz a alguém que chega ao nosso país: «chegaste atrasada, aqui em Portugal não há nada para ti». Sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes.
Fortalecer o pacto intergeracional
Reabilitar o pacto comunitário implica robustecer, entre nós, o pacto intergeracional. O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a cada momento um todo inseparável: velhos e jovens, reformados e jovens à procura do primeiro emprego, avós e netos, crianças e adultos no auge do seu percurso laboral. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros.
A tempestade provocada pelo Covid19 obriga-nos como comunidade, a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e nesta Europa da qual somos parte. Por um lado, eles têm sido as principais vítimas da pandemia, e precisamos chorar essas perdas, dando a essas lágrimas uma dignidade e um tempo que porventura ainda não nos concedemos, pois o luto de uma geração não é uma questão privada. Por outro, temos de rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor. A vida é um valor sem variações. Uma raiz de futuro em Portugal será, pelo contrário, aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações. Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar nesse momento foi a da minha avó materna, uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Quando era criança, pensava que as histórias que ela contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da nossa cultura.
Robustecer o pacto intergeracional é também olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos; geração que, praticamente numa década, vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave. Jovens adultos, muitos deles com uma alta qualificação escolar, remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam sucessivamente a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem.
Implementar um novo pacto ambiental
A pandemia veio, por fim, expor a urgência de um novo pacto ambiental. Hoje é impossível não ver a dimensão do problema ecológico e climático, que têm uma clara raiz sistémica. Não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta, ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão. Num dos textos centrais deste século XXI, a Encíclica Laudato Sii’, o Papa Francisco exorta a uma «ecologia integral», onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum. Está tudo conectado. Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.
Uma viagem que fazemos juntos
Camões n’Os Lusíadas não apenas documentou um país em viagem, mas foi mais longe: representou o próprio país como viagem. Portugal é uma viagem que fazemos juntos há quase nove séculos. E o maior tesouro que esta nos tem dado é a possibilidade de ser-em-comum, esta tarefa apaixonante e sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres, onde todos são necessários, onde todos se sentem - e efetivamente são - corresponsáveis pelo incessante trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição ampla e esperançosa do futuro. Portugal é e será, por isso, uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor. Uma viagem assim - explica Maria Gabriela Llansol, uma das vozes mais límpidas da nossa contemporaneidade -, não se esgota, nem cancela na fugaz temporalidade da história, mas constitui uma espécie de «rasto do fulgor» que exprime a ardente natureza do sentido que interrogamos.
Cardeal José Tolentino de Mendonça
Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, 10 de junho de 2020

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

Luís de Camões

terça-feira, 9 de junho de 2020

Contar o tempo em isolamento

De um momento para o outro, ia ter tempo para tudo! Quando foi decidido que eu ia trabalhar a partir de casa, ainda para mais tendo em conta o panorama de isolamento social em que se vivia, eu achei que era agora que ia por a leitura em dia, que ia começar a escrever mais neste blog, que ia começar a escrever mais em geral, que ia estudar mais Checo...
O isolamento não aconteceu exactamente assim...
Já há mais de um mês que voltei a ir à Embaixada quase todos os dias e já olho para o período de isolamento como pertencendo ao passado. E, como balanço, em isolamento não fiz metade do que queria fazer.
De facto, li bastante mais, mas foram principalmente coisas sobre o Zimbábue. Li mais notícias, artigos de fundo, comentários, etc. que não tenho tempo para ler quando ando a correr de um lado para o outro na Embaixada e da Embaixada para reuniões.
Para além disso, as reuniões de trabalho multiplicaram-se! Ele é zoom, ele é webex, ele é google groups... De um momento para o outro, passou a ser necessário discutir tudo e mais um par de botas! E que bem que soube poder ver e falar com tantas pessoas! Mas agora, já chega! Esta coisa de não no encontrarmos fisicamente, de não trocarmos umas impressões antes da reunião ou na pausa do café, de não combinarmos a seguir ir almoçar... Não é bom!
Outra coisa que se multiplicou foi o tempo na cozinha! Os pequenos almoços cada vez mais sofisticados, os almoços e jantares quase a merecerem estrelas michelin...
E ler coisas que não sejam de trabalho? Li alguma coisa, mas menos do que esperava.
E estudar Checo? Eish... Lá ia investindo uns minutos por dia no duolingo mas vontade? Nenhuma!
Quanto a escrever no blog. Não preciso de dizer nada... Basta ver que dois meses completos se passaram sem nenhum post! Nem unzinho! Abril e Maio foram para este blog um vazio de matéria!
E assim se passou um período de isolamento... Talvez no próximo!

sábado, 28 de março de 2020

Sous l'oeil de l'ange

Comecei a prestar atenção à letra de uma música de um CD que a Jana tinha no carro. Não a tinha entendido bem ao princípio porque é cantada muito rápido mas fui percebendo cada vez melhor e a letra parecia-me linda! Hoje cheguei a casa e fui googlar a música para a entender melhor. Não podia fazer mais sentido nestes dias de medo e de isolamento!
Traduzi-a em baixo na esperança que faça sentido a mais gente. E que fiquem sob o olhar de um anjo...





Ele disse-me um dia, escuta, pequeno
Vai depressa, aproveita a tua sorte
Vive o teu sonho, a vida sorri-te
Em um segundo, um sim, um não

Passas ao lado
Não penses no vento da coragem
Vai em frente
Serás recebido por aqueles que te amam

Aqueles que no fundo de um olhar
Em silêncio te entendem
E eles compartilharão as mesmas tristezas, as tuas
Essas centenas da raiva, quando falas demais

As vezes que nada dizes, nada fazes
Quando sentes que vives
Sempre o mesmo quotidiano
Não baixes os braços, não desistas

Aproveita o tempo para te dizer
Que existe um anjo atrás de ti
Levanta-te e encontra o mais forte de ti no fundo de ti
A felicidade está ao alcance dos dedos, não a esqueças

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que soube permanecer forte
Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que eles ainda não nada viram 

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que encontrei a paz
Sob o olhar do anjo
Soube perdoar e soube cantar

Terás de saber
O que se esconde numa derrota e
Encontra a porta no escuro que daí brotar
E recomeçar a sonhar

É nos sonhos que se esconde
A porta para o eterno conto de fadas
Moldarás a tua vida com tuas mãos
O suor na tua testa

Será o pão para o teu amanhã
Vai e sê o melhor no que fizeres
Não desistas e Deus te guardará
Ele vai falar contigo sobre tudo e nada

Ele tem as melodias, as chaves do mal e do bem
Ele fará a tua história, Ele escreverá o amanhã
Ele terá as tuas memórias na palma da Sua mão
Vai e sabe que tens tudo o que é necessário
E bem mais do que é necessário
Mas dá-te a ti mesmo o tempo necessário, olha para cima

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que soube permanecer forte
Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que eles ainda não nada viram 

Sob o olhar do anjo
Vim para te dizer que encontrei a paz
Sob o olhar do anjo
Soube perdoar e soube cantar




sábado, 14 de março de 2020

O que estaria disposto a fazer para proteger uma minoria?

A pergunta do título é muito simples: o que é que o leitor deste blog estaria disposto a fazer, com sacrifício do seu dia-a-dia, para proteger a integridade física e até a vida de uma minoria da população?
Há tempos em que a uma minoria é pedido que proteja a maioria. É o caso das guerras, em que os militares são chamados a proteger um povo. Ou dos incêndios, em que os bombeiros se põem ao serviço de toda a população de uma determinada zona.
Mas, será bom de observar, estas pessoas optaram por este estilo de vida. Eles optaram por fazer estes sacrifícios por todos os outros quando a ocasião chegasse.
A pergunta agora é diferente. É uma questão de teoria política, que testa a capacidade de um Povo de viver em Democracia. Tal como uma corrente, um Povo é tão forte quanto o seu elo mais fraco. E este elo mais fraco varia de acordo com as circunstâncias.
No presente momento, em que a vida pública é dominada pelo COVID-19, o elo mais fraco são as pessoas mais idosas, as pessoas com saúde frágil e, potencialmente, as grávidas. Enquanto que no resto da população, com umas semanas em casa a coisa deverá estar resolvida, as pessoas que fazem parte deste elo mais fraco deverão precisar de assistência médica para sobreviver.
O problema da assistência médica, neste momento, é a sua escassez. Não é novidade para ninguém que os corredores de muitos hospitais portugueses estão, numa situação normal, cheios de macas com doentes que não conseguem ter cama. Isto acontece porque Portugal é o país da UE com menos camas de internamento por mil habitantes. Também não é novidade para ninguém que há no país uma enorme escassez de médicos e enfermeiros dado que estes são aliciados para ir trabalhar para outros países da UE que reconhecem a sua excelência e lhes proporcionam melhores condições de vida e trabalho.
Estes problemas, que são os do dia-a-dia dos Portugueses agudizam-se numa altura como a presente. Se muita gente for contagiada, aquela minoria de risco será em maior número. Para além do mais, mesmo com todos os cuidados, os médicos e enfermeiros estão na linha da frente, pelo que a probabilidade de ficarem fora de serviço é alta, tornando a habitual escassez ainda mais séria. E não nos esqueçamos que médicos e enfermeiros também têm famílias: pais idosos, filhos sem escola, etc.
Neste cenário, regresso à pergunta inicial. Por muito que o leitor seja totalmente saudável, parte da maioria que, de acordo com a estatística, não deverá sofrer muito com a doença, o que é que está disposto a fazer para não ser infectado e não se tornar, assim, mais areia na engrenagem?

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A propósito dos "leaks"

Rui Pinto tornou-se no último ano no mais controverso de todos os prisioneiros portugueses. E controverso, precisamente porque amado por uns e detestado por outros.
Os que o amam dizem que o "Futebol Leaks" foi um ato justiceiro que irá pôr termo à corrupção generalizada no mais popular desporto do mundo. Os que o detestam dizem que a ilegalidade dos seus atos põe em causa os mais básicos direitos, liberdades e garantias.
Como em muitas reações emotivas, ambas estão certas e estão erradas ao mesmo tempo, vendo a situação por apenas um prisma.
A questão da proteção dos segredos é uma questão fundamental. Sem algum segredo, não se consegue fazer negócios. Para além disso, o segredo de justiça é uma garantia judiciária fundamental para proteger os arguidos.
Mas será justo guardar segredo de negócios ilegais?
O problema desta pergunta aparentemente óbvia de se responder é que para se conhecer da ilegalidade de um negócio, tem de se revelar o segredo. E se este não for ilegal, será na mesma prejudicado pela revelação do segredo que se pretendia manter.
Outra questão centrar-se-á na proteção do segredo dos Advogados. Ao invadir as bases de dados de duas grandes sociedades de advogados portuguesas, Rui Pinto terá tido acesso aos mais variados segredos protegidos por lei, desde relações de negócios a relações de família passando por questões criminais.
O resultado até pode satisfazer muita gente. De facto, ficou-se a ter uma noção mais exata do quão corrupto o mundo do futebol é. Se isso dará em qualquer processo penal ou não é outra questão. Mas o problema está nos meios usados. Se qualquer meio de obtenção de prova for legitimado pelo seu resultado, então talvez faça sentido regressarmos à tortura como forma de aceder a informação.
O melhor a fazer neste momento deverá ser aproveitar-se este caso, bem como o "Luanda Leaks", para uma reflexão sobre o valor do segredo na justiça. Isto pode ser analisado por filósofos, juristas, economistas, etc. E, depois de uma análise cuidada e de um debate abrangente, analisar-se a legislação em vigor a ver se esta ainda serve da melhor forma o bem público. Se não servir, altera-se. Se servir, mantém-se. Sem grandes amores e ódios...

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Mistério - Florbela Espanca


Mistério - Florbela Espanca

Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
Dizendo coisas que ninguém entende!
Da tua cantilena se desprende
Um sonho de magia e de pecados.

Dos teus pálidos dedos delicados
Uma alada canção palpita e ascende,
Frases que a nossa boca não aprende,
Murmúrios por caminhos desolados.

Pelo meu rosto branco, sempre frio,
Fazes passar o lúgubre arrepio
Das sensações estranhas, dolorosas…

Talvez um dia entenda o teu mistério…
Quando, inerte, na paz do cemitério,
O meu corpo matar a fome às rosas!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Realeza

A três semanas do Brexit, os jornais Britânicos quase não falam sobre o assunto - estão todos focados no anúncio dos Duques de Sussex. Estes disseram que queriam passar a ser Realeza a tempo parcial e ser "financeiramente independentes" da Rainha. Na humilíssima opinião deste blogador a tempo parcial, ser Realeza a tempo parcial não deveria ser uma possibilidade...
Mas antes de ir tão à frente, é conveniente dar um passo atrás.
Ser um membro da Realeza não é fácil. Deste lado das notícias, apenas vemos os Reais sempre bem vestidos e sorridentes... Dá mesmo a ideia de que é tudo fácil por aqueles lados. Eu, francamente, acho que não é nada fácil.
Ser um membro da Realeza é, antes de mais, ser membro de uma Família Real. Parece que estou a fazer de Mr. de La Palice, mas não é tanto assim. Entre aqueles que são como eu, simples plebeus, é-se filho de alguém até certa idade mas depois começa-se a ser mais conhecido individualmente como a engenheira não sei quantas, que trabalha com fulano, ou o professor sicrano que ensina naquela escola, etc. Um Real não tem esta individualidade. Um Real não pode escolher o que fazer independentemente, tem de consultar essa instituição que é a Família Real da qual ele é apenas um membro.
Ou seja, um Real não é tanto um indivíduo, é mais um membro de uma instituição.
Esta é uma ideia um bocado estranha aos olhos do mundo de hoje, um mundo muito pautado pelo individualismo, em que cada um quer singrar na vida por si. Mesmo naqueles casos em que alguém trabalha num negócio da família, fá-lo por decisão individual e, muitas vezes, até gosta de trabalhar uns anos noutros ramos para se afirmar individualmente e não ser filho como o filhote o resto da vida.
Numa Família Real, nasce-se e é-se educado para trabalhar no "negócio da família". E esse negócio é a defesa e promoção do Estado. Do mesmo modo que o membro da Família se submete aos interesses dela, esta submete-se aos interesses do Estado. Assim sendo, um membro da Realeza é educado para representar o Estado nas mais diversas instâncias políticas e económicas, para trabalhar com obras de protecção social, cultural ou artística, etc. Em cima de tudo isto, ainda tem de saber gerir aqueles o património herdado de muitas gerações (terras, património artístico, etc) que permitem que a Família, servindo o Estado, seja independente dos governos do momento.
Regresso, então, ao início - não me parece que se possa ser membro da Realeza a tempo inteiro. Um membro da Realeza tem de viver uma vida totalmente altruísta - a Família em primeiro e último lugar. Os títulos que lhe são atribuídos refletem essa pertença e servem para realizar o trabalho da Família. Trabalhar "por conta própria", fora do negócio de família, enquanto se usa esses títulos não apenas não faz sentido, como também coloca questões de probidade - está-se a usar parte do património da Família (os títulos) para outros fins.
Sendo assim, e mais uma vez, isto é apenas a minha opinião, quando um membro de uma Família Real quer passar a ser "independente", deve poder fazer essa escolha mas abdicando de tudo o que implica fazer parte dessa Família por inteiro - posição na sucessão ao trono, títulos, etc. Continua a ser parte da família em sentido humano mas não da instituição que é a Família Real.
É duro ser Realeza! Pela minha parte, nado e criado plebeu, é assim que prefiro continuar. Mas se a alguém, nado e criado plebeu como eu, lhe for dada a oportunidade, por casamento, de integrar uma Família Real, que o faça por inteiro ou não o faça de todo - peça ao seu amor Real para abdicar ou encontre um outro amor mais plebeu.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Da História à Filosofia

Acabei agora de ler o Sapiens - Uma breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari. E breve, sem dúvida que é: 463 páginas para 70 mil anos dá uma média de 151 anos por página. Por ser breve, não procura ser completa - foca-se principalmente e como nós, membros da única espécie de humanos que sobrevive até aos dias de hoje, fomos evoluindo até aos dias de hoje.
O engraçado é que comecei a ler este livro logo após acabar de ler o Armas, Germes e Aço - Uma Breve História de Todos nos Últimos 13.000 anos, de Jared Diamonds. Neste livro explica-se a influência da geografia na evolução das diferentes sociedades humanas partindo de uma questão engraçada: porque é que foram os Europeus a desenvolver uma sociedade que lhes permitiu colonizar a Papua-Nova-Guiné e não o contrário?
Posso já dizer que não foram, de todo, mais do mesmo. Para começar, são dois livros sensivelmente do mesmo tamanho mas que analisam dois períodos bem diferentes: o primeiro, toda a evolução do Sapiens e o segundo "apenas" os últimos 13 mil anos. Para além disso, enquanto Harari tem uma perspetiva muito abrangente, não se focando em diferentes civilizações, Diamond vai mostrando como diferentes elementos combinados levaram a que certas civilizações se tornassem dominantes sobre outras. Por último, Harari tem no final a preocupação de refletir sobre o futuro enquanto Diamond está mais preocupado em corrigir métodos historiográficos.
Têm em comum o muito que se aprende e o tanto que nos fazem pensar sobre o homem enquanto indivíduo e em sociedade. E ambos deixam-nos questões muito interessantes.
Pela minha parte, um Português que já viveu na China e na Escócia, agora a viver no Zimbábue, fico com a sensação de que muito ainda há a pensar sobre o modo de vida e das diferentes sociedades. Fico a pensar, por exemplo, no conceito de Direitos Humanos, de Estado, de Família e de propósito para a nossa existência. Bem sei que são todos conceitos muito filosóficos, muito controversos e que podem gerar grandes discussões. Mas, se é assim, porque é que não temos essas discussões? Estaremos nós tão ocupados nos nossos trabalhos que nos esquecemos ou fugimos de pensar como é que os indivíduos e as sociedades humanas devem ser tratados? Questões  epistemológicas, éticas e políticas devem hoje merecer a nossa atenção tanto ou mais que na época de Sócrates e Confúcio.
Darei apenas dois exemplos tirados de artigos que li recentemente que merecem que se pense a sério no sapiens e nas suas sociedades. Um era relativo ao grande crescimento de Suecos a viver sozinhos e nas repercussões sociais disso. O outro era sobre enormes campos de reeducação para Uigures na China, destinados a fazer destes cidadãos Chineses "modelares". Ambos os artigos me deixaram a pensar na relação entre indivíduos, famílias e Estado e como necessitamos de pensar no nosso dia-a-dia em questões éticas e políticas, não as deixando reféns da bolha universitária.
Estes dois livros (e, com certeza, muitos mais) dão-nos, precisamente, os instrumentos para pensar em questões como estas. Se não conhecemos o homem e a sociedade inseridos na sua história, como é que podemos pensar nos desafios que a estas se colocam?
Sendo assim, recomendo vivamente a leitura destes dois livros. Serão desafiantes, se os lermos com seriedade. E, obviamente, não teremos que concordar com tudo nestes livros - quem já leu o Sapiens, por exemplo, terá a noção de que eu não concordei com muitas análises feitas pelo autor sobre religião, por exemplo. A questão é que apenas lermos obras que escrevem o que nós já pensamos, como é que podemos pôr em questão as nossas ideias para, eventualmente reafirmá-las, pô-las de parte ou, no meio termo, refiná-las?

sábado, 26 de outubro de 2019

Festival de Cinema Europeu

Que barrigada de cinema! Cinco dias de Festival de Cinema Europeu, 5 filmes que eu vi de diferentes nacionalidades. Infelizmente, também 5 filmes a que faltei... O tempo não dá para tudo.
O festival abriu em grande com um filme Espanhol genial - Campeones. Conta a história verídica de um treinador de basquetebol que é condenado em tribunal a trabalho comunitário - treinar uma equipa de pessoas com deficiência mental. Foi um filme ao mesmo tempo verdadeiramente emocionante mas também leve e engraçado. Não há dúvida que "nuestros hermanos" já há umas boas décadas que conseguem fazer filmes com grande qualidade e sem perderem a sua identidade.
Logo de seguida, no mesmo dia, veio o Beside Me, da Roménia. Trata-se da história de um grupo de pessoas que fica presa no metro durante umas horas. Não podemos deixar de pensar como nós próprios reagiríamos...
No dia seguinte foi a vez de Portugal, com Os Maias - Episódios da Vida Romântica. Quem, como eu, é fã de Eça de Queiroz e deste livro, vai achar piada comparar aquilo que tinha imaginado ao ler o livro e o que vê no filme. 
Hoje foi o encerramento do festival e aconteceu com chave de ouro, com dois filmes muito bons.
O primeiro, apresentado pela Bélgica, chama-se Le Roi des Belges. É um filme cheio de humor sobre uma viagem do Rei da Bélgica, incógnito, pelos Balcãs durante uma tempestade cósmica que não permite aos aviões voarem. Tenho a impressão que nunca tinha visto um filme Belga mas fiquei cheio de vontade de ver mais.
Logo ali ao lado da Bélgica, outra óptima surpresa, um filme dos Países Baixos muitíssimo bom. The Conductor conta a história de Antonia Brico, uma maestro que inicia a sua carreira entre os anos 20 e 30 do século passado. Uma maestro nos anos 20 e 30, estais vós a pensar... Precisamente! O filme conta a história de como ela teve de ultrapassar um sem número de preconceitos para se tornar maestro. Uma história que nos deixa mais atentos a valorizarmos o talento venha ele de quem vier.
Inspirado por este último filme, deixo aqui uma homenagem à nossa bem portuguesa Joana Carneiro. Que ela nos continue a mostrar o seu talento por muitos anos.




terça-feira, 15 de outubro de 2019

Bancos...

Quem vive em Portugal tem dificuldade em sentir um grande carinho pelos bancos. Sim, estou a falar daquelas instituições financeiras onde temos conta, onde pedimos empréstimo para comprar casa ou para complementar os nossos investimentos.

E esta falta de carinho é porque não apenas os bancos são, enfim... bancos - aquelas instituições cinzentas, com gente cinzenta a fazer coisas cinzentas - como, ainda para mais, ciclicamente, os contribuintes vêm alguns dos milhões que lhes foram retirados em impostos a salvar bancos. É impossível não pensar que, com o dinheiro que a par e passo é injectado nos bancos, nós até podíamos ter um sistema nacional de saúde decente, por exemplo.

No entanto, cá no Zimbábue dei por mim a ter uma enorme saudade dos bancos portugueses, recordando-os com carinho e afeição. O Novo Banquinho, tão verdinho que ele é; a Caixinha Geral e os seus velhinhos; o BPIzinho e o cubozinho a rodar em cima da sede...

Este sentimento, tão novo para mim, de carinho pelos nossos bancos nacionais, tem vindo de uma certa frustração que eu sinto no Zimbábue, o não ter a liberdade de comprar o que quero.

Passo a explicar... Até há uns meses atrás este país tinha um sistema chamado "multi-currency", ou seja, aceitava-se como meio de pagamento uma data de moedas, das quais se destacava o USD, moeda na qual, efectivamente, eram feitas quase todas as transacções. O problema é que, dada a recessão económica prolongada, o país ficou sem moeda estrangeira. Vai daí, apostou-se em ter apenas uma moeda nacional, chamemos-lhe o bond (cada pessoa diz à sua maneira). O mal é que não há bonds por aí a circular. Ou seja: eu pego nos meus dólares, tento trocar por bonds e não os encontro em lado nenhum. Quanto a tentar levantar numa caixa multibanco, isso será impossível, porque elas quase não existem e as que existem estão paradas.

A alternativa...? A alternativa é ter bonds no banco e ter um cartão de pagamento. Ou então, ligar essa conta no banco ao nosso telemóvel e pagar através dele com uma aplicação chamada ecocash e que está para o nosso MBWay como o Homo Erectus para o Homo Sapiens.

Então, abre-se uma conta no banco, certo? Não, não está certo... Ir ao banco aqui pode ser uma empresa para umas quantas horas e, quando lá se chega, falta um qualquer documento que eles não tinham mencionado quando nos enviaram um email de resposta a uma pergunta que tínhamos enviado umas semanas antes. Apesar de não correr há umas boas semanas, tenho a certeza que mais facilmente fazia uma meia maratona amanhã do que abria uma conta num banco aqui!

Note-se que estamos num país que está a precisar imenso de dinheiro vindo de fora. IMENSO, mesmo! Mas a única forma de trazer dinheiro de fora é em notas, porque o sistema bancário não funciona.

E eu com saudades de ir a um restaurante e pagar com cartão. Com saudades de dividir uma conta com amigos por MBWay. Com saudades do Novo Banquinho, da Caixinha, do BPIzinho, do BCPezinho... Tão queridos que eles são! Uns amores...

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A triste vitória da noite de ontem

É uma grande pena que a grande vitória da noite tenha vindo dos abstencionistas. Foram quase mais 300 mil pessoas que em 2019 decidiram não votar do que em 2015.
Para ser preciso, houve mais 288.027 votos no Território Nacional (excluindo círculos da emigração) em 2015 do que em 2019. Isso é muito mais do que o conjunto dos votos nos três partidos que agora passam a ter um deputado. É também mais do que os resultados do PAN ou até mesmo do CDS, um partido fundador da nossa Democracia.
Há desculpas para isso?
Não pode ser por dificuldade de votar, porque está hoje bem mais fácil votar do que há 4 anos. Eu, por exemplo, com a legislação de há 4 anos não poderia ter votado. Pode-se votar antecipadamente, pode-se votar em mobilidade, etc.
Também não pode ser por falta de opções políticas: os 9 partidos eleitos cobrem todas as matizes políticas imagináveis, desde a extrema esquerda até à extrema direita.
Sim, poder-se-ia dizer que muitos emigrantes não receberam os boletins, mas estou só aqui a falar dos resultados em território nacional.
E acabou-se-me a imaginação para inventar mais desculpas.
Parece-me que temos aqui um puro desinteresse egoísta pelos destinos desta comunidade política que no dia anterior às eleições celebrou 876 anos de vida (est. Zamora 1143).
E é ignorância... Muita ignorância! Se nós, Portugueses, soubéssemos como pessoas noutros países gostariam de ter eleições como as nossas: livres, com campanhas nas quais se debatem diferentes opções para o país, sem prisões nem raptos políticos... Se nós, Portugueses, soubéssemos a sorte que temos!